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O Festival de Bandas Imaginárias desafia os limites dos teus sonhos

Um festival que não existe, com bandas que não existem, cerveja que não existe, casas-de-banho que não existem... mas que, afinal, é real. Confusos? Explicamos.

Por Madalena Maltez
24 Julho 2018, 2:31pm

Ilustração por Cat Serafim. Cortesia da artista.

Quantas vezes é que já deste por ti, no trabalho ou num transporte público – ou até a meio de um jantar com família alargada, em que mais de metade são primos dos teus avós – a sonhar de olhos abertos? A divagar por esse mundo dos sonhos e da imaginação, onde a vida é como tu queres que seja e, por inevitável narcisismo, é bastante melhor assim.

Temos que lidar com a realidade todos os dias, seja boa, má ou completamente merdosa. Quer queiramos, quer não. Mas, quão bom seria se, só por um dia, a vida fosse tal e qual como sonhámos? Se pudéssemos levar as nossas fantasias, essas tais que se soltam nas nossas cabeças quando o quotidiano está tão aborrecido que não nos resta outra solução senão fugir, fugir de olhos fechados para esse sítio onde tudo é como queríamos que fosse.

Esse dia chegou! O dia em que tudo o que foi sonhado, será agora vivido - como que por magia. Não foi sonhado por ti, eu sei, mas uma vitória para um é uma vitória para todos. Foi o sonho do Johnny Almeida e da Cat Serafim que se tornou realidade. Aborrecidos com o que a realidade lhes dava, perderam-se em devaneios de olhos abertos – imaginaram uma existência onde sabiam cantar, onde sabiam tocar, onde podiam criar um festival inteiro. E aqui está ele, o Festival de Bandas Imaginárias.

Falei com eles, antes da apresentação do projecto no Festival Bons Sons, em Agosto próximo, porque também eu queria saber como é que podia passar dos meus concertos em frente ao espelho - de porta e janelas fechadas não vá alguém apanhar-me em plena performance - em que tenho uma presença de palco ao nível da Tina Turner e a minha voz é tão boa como a lista do Spotify que me estiver a tocar nos ouvidos e alargar horizontes. E, pelos vistos, não sou a única com sonhos de actuar para um mar de gente que dança ao meu ritmo.

A banda Os 2 Igualmente Ricos faz parte do cartaz do Festival. "Jorge passava cada vez mais tempo sozinho e cada vez com pior aparência. Começou a ofender toda a gente. Chamava-lhes palermas, idiotas e tudo o que lhe viesse à memória. À saída de um hotel, gritou para o recepcionista: Porco com tetas! Você é um porco com tetas". (Texto por Johnny Almeida, ilustração por Cat Serafim. Cortesia dos artistas)

Se calhar, até tu partilhas este sonho musical mas, tal como a nós, falharam-te à nascença os dotes imprescindíveis para brilhares como uma estrela cintilante e cresceste a tentar convencer-te de que uma carreira em contabilidade nem é assim tão secante. No entanto, de vez em quando, o mundo gira ao contrário e surpreende-nos. Abre-se uma fresta de novas esperanças e os sonhos confundem-se com a realidade - como neste festival imaginário em que, como acontece sempre com a imaginação, tudo é possível.

VICE: Olá Johnny. De onde surgiu a ideia do projecto "Festival de Bandas Imaginárias"?

Johnny Almeida: Eu sempre quis ter uma banda, por duas razões. Primeiro, porque achava desafiante essa criação artística aliada às técnicas de domínio dos instrumentos na elaboração das canções. Segundo, porque tinha curiosidade em experimentar ter à minha frente uma plateia em êxtase, que aplaude em apoteose. Apesar disso, nunca tive uma banda também por dois motivos: não domino nenhum instrumento e canto terrivelmente mal. TER-RI-VEL-MEN-TE MAL! MAL, MESMO MAL.

Mas, como tinha um background em texto e argumento, fui inventando bandas para criar personagens e, a partir daí, contar histórias. A dada altura do processo conheci a Catarina, que se apaixonou por estes projectos musicais incomuns e excêntricos. Decidimos juntar esforços para escrever, ilustrar e levar as bandas à parede.

Catarina, do que é que estás mais orgulhosa neste projecto?

Cat Serafim: Quando o Johnny me mostrou os textos adorei logo a ideia, nunca tinha feito uma colaboração assim. Foi algo completamente novo para mim. As minhas ilustrações [ver exemplo abaixo] costumam ser sobre temas mais femininos, como cuecas, por isso tive que adaptar o meu estilo de ilustração - isto é muito diferente. Foi um desafio e, apesar de o resultado ser diferente do que inicialmente imaginei, trouxe-me muito orgulho. É completamente original e foi um desafio que superámos, e no resultado é visível o bom humor, o lado teatral e dinâmico da ideia. Fazemos uma boa dupla.

Ilustração por Cat Serafim. Cortesia da artista

Como foi o processo criativo por detrás da criação deste Festival?

Johnny: É quase terapêutico criar bandas imaginárias. Imagina que colocas todas as tuas referências musicais numa centrifugadora e, de lá, tiras pedaços de coisas que não sabes bem o que são, mas a partir das quais começas a fazer a construção. Por isso, é normal que nos nossos textos se encontrem bandas que realmente existam, como Joy Division, Beatles ou o Rancho Folclórico de São Miguel de Azagães. E também encontras referências do cinema e da televisão.

A dada altura do processo criativo percebemos que isto da "música imaginária" era um conceito de trabalho muito forte. Então, para além das bandas, começámos a criar concertos imaginários, moches imaginários, casa-de-banho imaginárias, streetfood imaginária, críticos de música imaginários e, até, uma equipa de limpeza de recintos imaginária. Compreendo que, ao tentar explicar-te, pareça imediatamente que temos problemas de alcoolismo, mas a verdade é que o resultado de tudo isto é uma exposição bastante interessante.

Jónito Cantor, outro dos cabeças de cartaz do Festival. "Jónito era um gajo comum que fazia várias coisas mal. Genuinamente mal. Quando trabalhava numa padaria envenenou cinco agregados familiares com uma receita de pão integral". (Texto por Johnny Almeida, ilustração por Cat Serafim. Cortesia dos artistas)

Então e como é que se vive um festival imaginário?

Johnny: Tudo é imaginário nesta exposição, mas o público é real. Por isso temos que ter o cuidado para que, para esse público, tenha sentido, porque, acima de tudo, é para ele que nós trabalhamos e não nos interessa ter um público confuso e desinteressado. Portanto, o "cartaz" deste festival é composto por seis bandas representadas através dos textos e ilustrações nas paredes. Tudo o resto (moches, casa de banho, cerveja, etc) é representado através de algumas peças que construímos. As pessoas podem também participar em dois ateliers, onde vão poder criar e ilustrar bandas imaginárias. No fundo, oferecer esta experiência criativa que revive todos os passos da construção deste produto.

Em que consistem esses ateliers?

Cat Serafim: O projecto vem de uma base de escrita e de ilustração, por isso os ateliers são dedicados a esses mesmos temas. Com uma parte de escrita criativa, no qual podem dar asas à imaginação e criar de raíz uma banda e toda a sua história. E de ilustração, para trazer à vida e a cores essa mesma história e banda.

Quem é que vocês acham que é o vosso público-alvo?

Cat Serafim: Os mais novos adoram criar e sonhar, mas os adultos gostam de soltar a criança dentro de si. Por isso estão todos convidados!


A exposição Festival de Bandas Imaginárias tem estreia marcada para o Festival Bons Sons, de 9 a 12 de Agosto, mas poderá ser vista depois em mais locais. Acompanha o projecto aqui para ficares a par das novidades.

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