Eleições 2018

Temer troca a cartinha por vídeo e dá um intimão em Alckmin

Presidente fez o youtuber pistola para pendurar centrão no pescoço do tucano.
6.9.18
Foto: Reprodução/Twitter

Como o Brasil de 2015 era inocente, né? As pessoas riam da carta magoada de Michel Temer (MDB) para a então presidente Dilma Rousseff, sofriam com o desemprego, temiam a inflação. Agora seguimos sem inflação e a recessão suavizou, mas a economia continua estagnada, o desemprego ainda zoa o barraco de um número assustador de brasileiros e, bem, Michel Temer é presidente (por mais poucos meses, mas ainda é). As promessas da “Ponte para o Futuro” de Temer e ex-aliados (Romero “grande acordo nacional” Jucá rompeu com o governo, enquanto outros braços-direitos como Geddel Vieira Lima e Henrique Alves estão na cadeia) deram na água e os “20 anos em 2” aventados pelo ex-vice parecem tratar de um retrocesso de 20 anos — exceto na comunicação presidencial, que deu um salto tecnológico, da missiva para o vídeo de youtuber pistola.

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Na noite desta quarta-feira (5) Temer realizou o ataque mais danoso à candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) até o momento. Em um vídeo publicado em sua conta oficial no Twitter, Temer quis mandar um papo reto, de quase dois minutos e sem cortes, rebatendo as críticas de Alckmin ao seu governo e listando todos os seus ministros cujos partidos agora fazem parte da base do ex-governador paulista — basicamente pendurou o centrão (foram citados nominalmente partidos como DEM, PP, PRB e PTB) no pescoço do chuchu, com direito a frases em tom de ameaça como “se você vier ganhar a eleição, essa base será a sua base governamental.”

Magoadíssimo, Temer pede para Alckmin esquecer o que dizem os marqueteiros tucanos e “atender a verdade”. E parece que nem o primeiro vídeo, nem uma noite de sono (se é que Temer dorme) adiantaram para aplacar a fúria temerária. Os internautas foram agraciados na manhã desta quinta-feira (6) com outro vídeo do presidente, lembrando que o PSDB ficou um grande tempo apoiando o governo Temer, citando e elogiando ministros tucanos como José Serra (Relações Exteriores), Bruno Araújo (Cidades) e Antônio Imbassahy (Secretaria de Governo). É como se o sonho de Guilherme Boulos (PSOL) de denunciar os “50 tons de Temer” na campanha de 2018 virasse realidade.

É difícil enxergar uma coordenação política sincera no gesto de Temer — uma briga pública contra o presidente mais impopular da redemocratização pode até ser boa para Alckmin (que foi apoiado por Temer ainda em agosto), mas os argumentos utilizados no ataque não poderiam ser menos danosos para Temer. O que é uma loucura completa, imaginando que, sem nenhum foro, sob investigação pesada da Procuradoria Geral da República e com seu candidato oficial Henrique Meirelles (MDB) totalmente desacreditado pelas pesquisas, Temer tenha escolhido arrastar Alckmin junto para a lama e inviabilizar ainda mais a vacilante, apesar de politica e economicamente vigorosa, campanha tucana — Geraldo e sua base seriam a sua melhor esperança de não deixar Michelzinho sem herança polpuda. Se a motivação real de Temer é apenas a de cuidar da sua imagem e legado, bem, a recomendação é prestar nas palavras imortais do poeta: “a mãe dos pecados capitais é a vaidade”.

ATUALIZAÇÃO:

Parece que ninguém mais vai contratar o marqueteiro Elsinho Mouco depois de terminado o desastre chamado Michel Temer no Planalto. Logo depois de bater em Alckmin, Temer publicou um novo vídeo, desta vez contra o candidato a vice-presidente Fernando Haddad (PT). Começando sem voz, Temer reclama de ser chamado de "golpista", fala que "hoje ninguém cumprir Constituição, ninguém quer cumprir lei", evoca o artigo 7 da Constituição para defender a impopular reforma trabalhista e termina com uma bela ameaça: "tome cuidado Haddad". Mal podemos esperar as considerações para os outros presidenciáveis, especialmente ao Cabo Daciolo (Patriota) e José Maria Eymael (DC).

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