Saúde

Ataque de pânico não é a mesma coisa pra todo mundo

Descobri que ter náusea e diarreia antes de algum rolê (a ponto de cancelar com as pessoas e desistir de ir) era sinal de uma ansiedade grave.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
3.10.18
Sharon Pruitt / EyEm / Getty 

No último ano da faculdade, minha vida social era assim: eu recebia uma mensagem de alguém me convidando para fazer alguma coisa naquela noite – não importava o que fosse: uma festa, ir ao cinema, beber no bar – e eu aceitava, sendo uma pessoa irritantemente extrovertida que usava qualquer desculpa para não estudar. Mas todas as vezes, uma hora ou duas antes do combinado, eu começava a me sentir mal. Minha pele ficava pegajosa. Eu tinha arrepios. Ficava com náuseas e precisava correr para o banheiro a cada 10 minutos. No final das contas, eu tinha que ligar para a pessoa e cancelar. E minutos depois disso, eu começava a me sentir melhor, todas as vezes.

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Pensando agora, eu obviamente tinha alguma questão subjacente – e não uma intoxicação alimentar repentina toda vez que tinha que sair do meu apartamento pra depois me recuperar milagrosamente. Mas levei quase um ano para entender o que estava acontecendo. Só quando comecei a me consultar com um terapeuta para tratar meu transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), percebi que esses mal-estares na verdade eram diferentes facetas do mesmo problema – ansiedade severa.

"Na TV e nos filmes, ataques de pânico são sempre iguais: o personagem aperta o peito, fica sem ar […] Mas essa nunca foi minha experiência"

Na TV e nos filmes, ataques de pânico são sempre iguais: o personagem aperta o peito, fica sem ar e depois respira num saco de papel para se acalmar. Mas essa nunca foi minha experiência, e provavelmente por isso passei quase um ano achando que tinha alguma doença grave. Ansiedade – eu achava – não era uma experiência física, era mais parecida com um ataque de asma. Não era como ter arrepios, dores e náuseas. Não era como cagar na calça durante um encontro porque um carro buzinou alto demais fora do restaurante (história real).

Mas para mim e para os 40 milhões de adultos que vivem com ansiedade, essa é com certeza uma experiência física. Quando seu cérebro sente um perigo (real ou não, alguém ameaçando te atacar ou uma buzina na hora errada), a amídala manda sinais de socorro para o hipotálamo, que libera uma cascata de hormônios como cortisol e adrenalina para preparar o resto do corpo para a ação. Médicos chamam isso de “mecanismo de luta ou fuga”, já que isso preparava nossos ancestrais para lutar contra um perigo iminente ou fugir dele.

A onda de hormônios faz o coração bater loucamente, a pressão subir e os sentidos ficarem mais aguçados, além de outros sintomas físicos, para podermos responder a um perigo. E tem mais, o livro Mindfulness and Psychotherapy explica que o hipocampo, que fica perto da amídala, é responsável por estocar nossa memória emocional – o que significa que mesmo uma memória traumática ou algo que nos lembra perigo pode desencadear a mesma resposta de pânico.

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Observando a ansiedade de uma perspectiva evolutiva, os sintomas físicos começam a fazer mais sentido. Mas por que, então, alguém pode acabar cagando na calça durante um encontro por causa de uma buzina, ter que dar uma desculpa e andar 10 quarteirões até sua casa para trocar de roupa? Isso se deve a conexão entre cérebro e intestino, que explica náusea, vômito e diarreia que podemos experimentar num estado extremamente excitado, diz a psicoterapeuta de Nova York Laura Federico.

"Além de problemas intestinais, a ansiedade pode se manifestar como dor em qualquer parte do corpo"

“Sempre que alguém experimenta perturbação emocional, isso acaba expresso de algum jeito”, explica Federico. “E quando as coisas estão acontecendo emocionalmente, isso muda o que acontece com seu intestino.” Estresse, depressão ou ansiedade podem até mudar a fisiologia do seu intestino, ou fazer seu trato gastrointestinal se contrair ou mover. Ansiedade pode piorar inflamações gástricas ou te tornar mais suscetível a infecções. Por isso as pessoas desenvolvem intestino solto, dores de estômago, náusea a vômito em momentos de crise, ela me disse.

Além de problemas intestinais, a ansiedade pode se manifestar como dor em qualquer parte do corpo. “Alguns dos meus clientes têm dores numa área específica que achavam que era algum problema médico sério, e agora entendem que é um sinal de estresse”, menciona Laura. “Pode ser uma dor na garganta, nas axilas, nas costas – mas essas experiências físicas aparentemente aleatórias podem ser diretamente ligadas a ansiedade.”

Para alguns pacientes, dor localizada tem a ver com como eles foram criados para entender ansiedade e expressar emoções, informa a especialista. “Para quem foi criado entendendo emoções como fraqueza, pode não ser OK dizer 'Estou estressado'. A pessoa pode ter sido criada num ambiente onde viu alguém ter um ataque cardíaco e testemunhou a intervenção médica, e aprendeu que experimentar dor física é mais socialmente aceitável." Isso quer dizer que a mente pode ser tão poderosa que está tentando expressar dor psíquica de uma maneira que parece socialmente apropriada para a pessoa.

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Aparentemente, há tantos sintomas físicos para ansiedade quanto pessoas que sofrem disso – seja dor, formigamento, ondas de calor ou diarreia incontrolável. Mas uma coisa que aprendi – e que Laura quer que seus pacientes entendam – é que esses sintomas de ansiedade são naturais e normais, não importa quão estranhos. E mais, reconhecer seus sintomas e saber que eles são parte da ansiedade pode tornar a experiência menos assustadora.

"Reconhecer seus sintomas e saber que eles são parte da ansiedade pode tornar a experiência menos assustadora"

Na faculdade, sofrendo de diarreia, arrepios e ondas de calor, fui até o hospital do campus depois de uma semana faltando das aulas, e disse para as enfermeiras, chorando, que com certeza eu estava morrendo de gripe suína. Quando descobri que na verdade era mais algo como ter um ataque de pânico prolongado, me senti humilhada no começo, depois envergonhada – aí, lentamente, aliviada. Federico está certa: Saber como a ansiedade se expressa no seu corpo pode tirar muito do medo que piora seu estado. Ainda experimento aqueles sintomas quando tenho ataques de pânico, infelizmente – mas saber que isso é uma parte padrão da minha ansiedade me ajuda a sair do estado de pânico. Em minutos, sem ter que cancelar meus planos, começo a me sentir melhor, todas as vezes.

Esta matéria foi originalmente publicada pelo TONIC US.

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