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Saúde

Ataques de pânico não são a mesma coisa para toda a gente

Descobri que ter náuseas e diarreia antes de alguma coisa marcada na agenda (a ponto de cancelar e desistir de ir) era sinal de uma ansiedade grave.

Por Sarah Watts; Traduzido por Madalena Maltez
15 Novembro 2018, 2:42pm

Sharon Pruitt / EyEm / Getty 

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

No último ano da faculdade, a minha vida social era assim: recebia uma mensagem de alguém a convidar-me para fazer alguma coisa nessa noite – não importava o que fosse. Uma festa, ir ao cinema, beber num bar – e aceitava, parecendo uma pessoa irritantemente extrovertida, que usava qualquer desculpa para não estudar. No entanto de todas as vezes, uma hora ou duas antes do combinado, começava a sentir-me mal. A minha pele ficava pegajosa. Tinha arrepios. Ficava com náuseas e precisava de ir a correr para a casa-de-banho a cada 10 minutos. Às tantas, tinha que ligar à pessoa e cancelar. Minutos depois disso, começava a sentir-me melhor. Sempre.

Pensando agora nisto, era óbvio que havia alguma questão subjacente – e não uma intoxicação alimentar repentina de cada vez que tinha que sair do meu apartamento, para logo depois recuperar milagrosamente. Todavia, demorei quase um ano a entender o que estava a acontecer. Só quando comecei a consultar um terapeuta para tratar o meu transtorno de stress pós-traumático (TSPT), percebi que esse mal-estar era, na verdade, a manifestação de diferentes facetas do mesmo problema – ansiedade severa.


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Na TV e nos filmes, os ataques de pânico são sempre iguais: o personagem aperta o peito, fica sem ar e depois respira num saco de papel para se acalmar. Mas, essa nunca foi a minha experiência e, provavelmente por isso, passei quase um ano a achar que tinha alguma doença grave. A ansiedade – pensava eu – não era uma experiência física, era mais parecida com um ataque de asma. Não era como ter arrepios, dores e náuseas. Não era como borrar-me nas calças durante um encontro, porque um carro buzinou demasiado alto fora do restaurante (história real).

Para mim e para os 40 milhões de adultos norte-americanos que vivem com ansiedade, esta é certamente uma experiência física. Quando o teu cérebro sente um perigo (real ou não, alguém a ameaçar atacar-te ou uma buzinadela na altura errada), a amígdala cerebral envia sinais de socorro para o hipotálamo, que em reposta liberta uma cascata de hormonas, como cortisol e adrenalina, para preparar o resto do corpo para a acção. Os médicos chamam a isto “mecanismo de luta ou fuga”, já que preparava os nossos antepassados para lutar contra um perigo iminente ou fugir dele.

A onda de hormonas faz o coração bater loucamente, a pressão subir e os sentidos ficarem mais apurados, além de outros sintomas físicos, para podermos responder a um perigo. E há mais. O livro Mindfulness and Psychotherapy explica que o hipocampo, que fica perto da amígdala, é responsável por armazenar a nossa memória emocional – o que significa que, até uma memória traumática, ou algo que nos lembra perigo, pode desencadear a mesma resposta de pânico.

Tendo em conta a observação da ansiedade de uma perspectiva evolutiva, os sintomas físicos começam a fazer mais sentido. Mas, então, porque é que alguém pode acabar a cagar-se nas calças durante um encontro por causa de uma buzina, ter que dar uma desculpa e andar 10 quarteirões até casa para trocar de roupa? Isso deve-se à conexão entre cérebro e intestino, que explica as náuseas, os vómitos e a diarreia que podemos experimentar num estado extremamente excitado, diz a psicoterapeuta de Nova Iorque Laura Federico.

“Sempre que alguém passa por uma perturbação emocional, isso acaba por se expressar de alguma forma”, explica Federico. E acrescenta: “Quando as coisas estão a acontecer emocionalmente, isso muda o que acontece com o intestino.” Stress, depressão ou ansiedade podem até mudar a fisiologia do teu intestino, ou fazer o trato gastrointestinal contrair-se, ou mover-se. A ansiedade pode piorar inflamações gástricas ou tornar-te mais susceptível a infecções. Por isso é que as pessoas desenvolvem intestino solto, dores de estômago, náusea e vómitos em momentos de crise, garante a especialista.

Além de problemas intestinais, a ansiedade pode manifestar-se como dor em qualquer parte do corpo. “Alguns dos meus clientes têm dores numa área específica que achavam que era algum problema médico sério e agora sabem que é um sinal de stress”, menciona Laura. E explica: “Pode ser uma dor na garganta, nas axilas, nas costas – mas, essas experiências físicas aparentemente aleatórias podem estar directamente ligadas à ansiedade”.

Para alguns pacientes, dor localizada tem a ver com a forma como foram criados para entender a ansiedade e expressar emoções. Laura Federico realça: “Para quem foi criado a ver as emoções como fraqueza, pode não ser bom dizer 'Estou stressado'. Ou a pessoa pode ter sido criada num ambiente onde viu alguém a ter um ataque cardíaco e testemunhou a intervenção médica e aprendeu que experimentar dor física é mais socialmente aceitável". Isso quer dizer que a mente pode ser tão poderosa que está a tentar expressar dor psíquica de uma maneira que pareça socialmente apropriada à pessoa em questão.

Aparentemente, há tantos sintomas físicos de ansiedade como pessoas que sofrem dos mesmos – seja dor, formigueiros, ondas de calor, ou diarreia incontrolável. Mas, uma coisa que aprendi – e que Laura quer que os seus pacientes entendam – é que esses sintomas de ansiedade são naturais e normais, não importa quão estranhos. Mais. Reconheceres os teus sintomas e saber que eles são parte da ansiedade, pode tornar a experiência menos assustadora.

Na faculdade, a sofrer de diarreia, arrepios e ondas de calor, fui até ao hospital do campus depois de uma semana a faltar às aulas. A chorar, disse às enfermeiras, que tinha a certeza que estava a morrer de gripe suína. Quando descobri que, na verdade, era mais como ter um ataque de pânico prolongado, senti-me primeiro humilhada, depois envergonhada – mas mais tarde, lentamente, aliviada. Federico está certa: saber como a ansiedade se expressa no teu corpo, pode retirar-te muito do medo que piora o teu estado. Ainda sinto aqueles sintomas quando tenho ataques de pânico, infelizmente – mas, saber que isso é uma parte padrão da minha ansiedade, ajuda-me a sair desse estado de pânico. Em minutos, sem ter que cancelar os meus planos, começo a sentir-me melhor. Sempre.


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