arte

"Velhas Bonitonas", o poder da velhice e a auto-estima das mulheres

Toda a gente sabe: para um homem os cabelos brancos são charme, para uma mulher são uma sentença perpétua de idas semanais ao cabeleireiro para o pintar. De loiro. A artista plástica Maria Seruya mostra-nos um outro lado.

Por Madalena Maltez
22 Maio 2018, 6:56pm

Maria Seruya e duas das suas "Velhas Bonitonas". Todas as imagens cortesia da artista.

Envelhecer deve ser muito complicado. Deixarmos de reconhecer os traços que sempre tivemos, a flexibilidade, os joelhos. Os dentes pioram, os músculos perdem força, a pele descai, as rugas enchem-nos o corpo. Sentes-te a mesma pessoa, mas o teu corpo vai mudando - e isso, a muita gente, custa.

No caso dos homens não é, tradicionalmente, tanto assim. Repara no caso do George Clooney que quantos mais cabelos brancos mais charmoso fica. Ou, por exemplo, compara as reacções das pessoas quando falam da Jane Fonda ou do Mick Jagger: ela está "muito bem para a idade"; ele é só sexy e dança como ninguém - como se a sua imagem no início dos Stones se tivesse eternizado, mantendo-o sempre igualmente apetecível à vista. Eu não diria que não ao Jagger (nem ao Keith, já que estou numa de partilhar fantasias), mas talvez rapazes da minha idade dissessem que não à Fonda.


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Mas, a cereja no topo do bolo das inseguranças é a imagem social da coisa - a imagem é sempre jovem. Em campanhas publicitárias, em revistas de beleza, no cinema, seja para onde for que olhamos lá está uma mulher muito nova, com uma pele que nem eu nos meus vintes consigo ter, com um corpo alto e magro e os dentes perfeitamente brancos e bem presos à gengiva. São as mulheres novas que vendem bilhetes no grande ecrã, que enchem salas de espetáculos, que entram em listas de "as mulheres mais sexy" [Nota do Editor: temos sempre o Sexy Platina] e, como se não bastasse, ainda são mulheres novas que muitas vezes dão a cara em campanhas de cosmética anti-rugas e de qualquer outro tratamento para a pele.

É raro falar-se da beleza das mulheres na velhice - ou de qualquer outra coisa, já agora (talvez com excepção para a série Grace and Frankie do Netflix, protagonizada por Jane Fonda e Lily Tomlin, ambas a rondar os 80, em que elas criam um vibrador para mulheres mais velhas, que não magoa corpos menos flexíveis nem mãos com artroses e se transforma num sucesso de mercado).

Os avanços na cirurgia plástica e na cosmética têm ajudado muitas mulheres - e desajudado o John Travolta, mas isso fica para outra altura -, no entanto as inseguranças e o facto de sentirem que não têm lugar no mercado ainda se mantêm. Até porque é uma estrada de duas vias: existirem cirurgias que nos ajudam a parecer mais jovens pode ser bom, mas também contribui para ainda mais inseguranças caso não as possas pagar ou fazer.

A minha mãe queixa-se muito das rugas - o meu pai talvez faça mais sucesso que nunca. É um Mundo injusto e ninguém tem culpa, mas uma coisa que pode ser feita é tentar mudar a maneira como a sociedade vê o envelhecimento feminino, para que nós, mulheres, não tenhamos que nos sentir tão traumatizadas e perdermos a auto-estima na nossa sensualidade quando o ciclo natural da vida se começa a notar no nosso corpo.

E é aqui que entra Maria Seruya e a sua exposição intitulada "Velhas Bonitonas". É mesmo isso, são desenhos e pinturas de mulheres, velhas, com o objectivo de mostrar a beleza que há naquela fase da vida em que já somos tão nós próprias, tão seguras do que queremos e não queremos, com uma vida de histórias para contar e com rugas que as contam por nós - e que grande beleza que há nisso, como não?

Imagem Maria Seruya

A exposição inaugurou a 20 de Maio e fica em exibição na Antiga Carpintaria do Museu da Carris, em Lisboa, até dia 5 de Junho. Numa breve conversa via e-mail, a artista plástica contou-me o que a levou a querer mostrar ao Mundo o poder e a feminilidade que as mulheres mais velhas emanam, para que possamos todos dar-lhe o justo valor e não descartarmos a beleza de uma mulher só porque tem rugas na testa.

VICE: Olá Maria. O que te inspirou para a escolha deste tema quando o começaste a trabalhar?

Maria Seruya: O projecto "Velhas Bonitonas" começou espontaneamente há cerca de dois anos, mas quando comecei a pintá-las tive a certeza de que não queria parar.

Tem alguma coisa a ver com o facto de muitos homens irem ficando mais charmosos com a idade e isso nas mulheres não ser visto da mesma maneira?

Tem mais a ver com o facto de eu própria, como mulher, perceber que não preciso de validação exterior. Interessa-me o poder feminino e encontro-o na velhice.

Imagem Maria Seruya

Porque é que achas o envelhecimento feminino um tema tão importante? Qual a mensagem que queres passar com este trabalho?

Na forma como eu vejo as coisas, a velhice é o auge da idade feminina. Já não há nada a provar, há apenas que ser e viver. E é essa a mensagem que pretendo passar com as pinturas – que as mulheres curtam a velhice, sem complexos nem culpas.

Imagem Maria Seruya

Há algum tempo que trabalhas este tema. O que é que mais te continua a apaixonar?

A razão principal que me leva a continuar a criar estas pinturas é a mesma que me levou a começá-las: porque me inspiram. Diria mesmo que é quase um estilo de vida, porque as pinto porque gosto mas, através delas, acabo por trabalhar o meu próprio processo de envelhecimento e a minha liberdade de espírito.

Também me apaixona o facto de, mais do que uns desenhos e pinturas fechadas num atelier, mais do que um valor artístico, tenham um valor social. Vão ao encontro do público, quer nas redes sociais, quer em feiras, conferências, debates, workshops e, agora, nesta exposição.

Foto cortesia Maria Seruya

Como é que têm sido as reacções das mulheres "velhas bonitonas" ao verem o teu trabalho?

Desde o início que o projecto não deixa ninguém indiferente. O público, maioritariamente feminino e dos 30 aos 130, acho que encontra alguma inspiração ao ver as pinturas, pois é uma forma de desmistificar o seu próprio processo de envelhecimento. Ao olhar para estas "Velhas Bonitonas", tanto virtualmente como ao vivo, as mulheres sentem-se mais à vontade para falar sobre o tema do envelhecimento, para partilharem histórias e vivências, alegrias e desafios de envelhecer. Acho que lhes consigo trazer energia positiva, o que é já muito bom.


Podes acompanhar o trabalho da Maria Seruya no seu site, Facebook e Instagram.

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