O saudosismo analógico dos fotógrafos lambe-lambe na Bahia
O fotógrafo Valteni, 53, há 37 anos na Praça dos lambe-lambe. Foto: Diogo Andrade/VICE
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O saudosismo analógico dos fotógrafos lambe-lambe na Bahia

Quem são os profissionais que estão há décadas no mesmo lugar tirando fotos 3x4.

A antiga maneira de fazer uma fotografia praticamente não existe mais na Praça Bernardino Bahia, na cidade de Feira de Santana (BA), apesar da resistência por parte de alguns profissionais que ali permanecem há décadas. Mais conhecida como "praça dos lambe-lambe", a área foi apelidada por um antigo costume de lamber as fotos para ver se ainda restava nelas algum resquício de sal do fixador no momento da revelação. E assim ficaram conhecidos os fotógrafos que realizavam esse tipo de serviço pelas ruas.

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Hoje, as câmeras de madeira com panos pretos foram substituídas por máquinas digitais compactas. Os químicos e as lambidas, por pequenas impressoras.

Foto: Diogo Andrade/VICE

A praça dos lambe-lambe já teve seu espaço tomado por 35 barracas que ofereciam fotografias 3x4 tiradas, reveladas e devidamente lambidas. Hoje, 12 mini estúdios permanecem ali – alguns fechados, outros resistindo.

Dentre os profissionais que ainda estão no local, a opinião é unânime: hoje em dia todo mundo é fotógrafo, dizem. "Basta um celular ou uma máquina digital, tirar uma foto com uma luz ruim e corrigir tudo no computador. Hoje em dia já não se estuda mais fotografia", dispara João, 67. A VICE bateu um papo com alguns desses trabalhadores e ouviu histórias incríveis e saudosas.

Foto: Diogo Andrade/VICE

Zé Carlos, 66 anos, 54 anos de praça

Zé aprendeu o ofício com o pai fotógrafo e aos 12 anos já estava trabalhando com lambe-lambe. Não pensa em fazer outra coisa. “Enquanto for pra ir remando, a gente vai”. Para ele, a fotografia é um presente de Deus na vida. “É uma maneira de sustentar a família, a estadia, e continuar fazendo o que gosto", conta.

Foto: Diogo Andrade/VICE

João, 67 anos, 35 anos de praça

Antes, João trabalhava em casa de material de construção e começou a fotografar por incentivo de um amigo. Durante a conversa com a VICE, ele abordou a origem da palavra fotografia e da sua criação com Daguerre. “Falta profissionalismo na área. Se você perguntar por aí o que é fotografia, eles não sabem. Eu sei, eu sei quem inventou, eu sei que ano, pergunta aí o que é fotografia, qual a origem da palavra", desafia.

"A fotografia é muita significação para uma pessoa, só que não a valorizam", lamenta. "A fotografia em si não é regulamentada. Era pra ter um sindicato nacional, era pra ser hoje uma profissão regulamentada, respeitada. Tem a tecnologia toda, mas a fotografia não acabou, ela continua sendo a fotografia.”

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Foto: Diogo Andrade/VICE

Valteni, 53 anos, 37 anos de praça

No começo, Valteni ia até a praça para levar refeições para o pai e para os irmãos que ali trabalhavam. Foi se interessando, aprendeu a profissão e ficou. "É uma coisa muito bacana que aconteceu na minha história. Trabalho com isso não porque quero, mas porque gosto. É na fotografia que eu dou o meu melhor, trabalho pra fazer um serviço bem direitinho. Sempre dependi primeiro de Deus, depois da fotografia.”

Foto: Diogo Andrade/VICE

Erivaldo, 62 anos, 42 anos de praça

Irmão de Valteni, Erivaldo aprendeu a lamber as fotos com o pai, e desde então fez da fotografia sua profissão. Ele compara a durabilidade do material de antigamente com os de hoje. "As fotos impressas são uma recordação. Gravou em CD, arranhou, danificou. No pendrive, a mesma coisa. Então, você faz a foto no papel e fica. Hoje tem 38 anos do meu casamento e as fotos estão lá, intactas.”

Foto: Diogo Andrade/VICE

Neuzete, 45 anos, 20 anos de praça

Neuzete é uma das únicas mulheres na praça. “Pessoal que chega aqui dá preferência pra mulher. As mulheres chegam aqui eu arrumo, arrumo o cabelo, e elas dizem: 'É por isso que eu prefiro tirar foto com mulher, mais do que com homem', e aí eu me sinto uma heroína.”

Foto: Diogo Andrade/VICE

Evandro, 54 anos, 45 anos de praça

Evandro começou a trabalhar no local aos nove anos ajudando a lavar fotos em preto e branco. Aprendeu o ofício e de lá nunca mais saiu. Acredita que aquele tipo de fotografia 3x4 morreu, e, apesar de ter sustentado toda sua família trabalhando na praça, hoje utiliza o local mais como ponto de encontro do que como fonte de sustento. "Se você tem que fazer aquela fotografia tem que fazer com amor, com carinho. Quando eu bato uma fotografia aqui, eu fico alegre. Quando eu bato foto dos jardins, das plantas, é uma coisa de outro mundo, uma felicidade. Eu trabalho com fotografia, com amor. Eu tenho prazer de fotografar. Por amor mesmo.”

Mais fotos do Diogo Andrade no Instagram dele.

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