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Entretenimento

Bob Esponja pode ser melhor que muita terapia

Criado por Stephen Hillenburg, personagem expõe a tensão permanente entre a manutenção dos restos de leveza da infância e a assunção do peso da vida adulta.

Bob Esponja não é fácil. Para gostar dessa esponja do mar de calças, é preciso ultrapassar uma larga barreira de merchandising que pode ser irritante. A bolacha do Bob Esponja não é muito boa; há mochilas de rodinha para crianças que também não costumam ser muito bonitas nem práticas; os copos de plástico são horrorosos; quase toda a parafernália que usa o Bob Esponja como chamariz pode, na verdade, afastar qualquer pessoa do personagem.

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E, no entanto, a criatura de Stephen Hillenburg — que morreu no último dia 26 devido a complicações da esclerose lateral amiotrófica, aos 57 anos — se tornou um dos mais fascinantes produtos culturais da virada entre os séculos 20 e 21.

Os episódios de Bob Esponja sintetizaram o nonsense em alta nos desenhos animados dos anos 90 ("A Vida Moderna de Rocko", que teve Hillenburg como diretor, "Ren & Stimpy", "A Vaca e o Frango" etc.). Mas, quando Bob Esponja Calça Quadrada estreou, em 1999, elevou esse nonsense a outro nível, enquanto, num movimento quase contraditório, conseguiu torná-lo também mais popular. Na receita, estava uma mistura da paixão de Hillenburg pelo fundo do mar, seu conhecimento técnico do assunto (ele estudou biologia marinha), um traço esperto e muito humor.

A série deu graça e forma a conflitos existenciais sem que precisasse abrir mão do tom infantil; escarafunchou os piores sentimentos humanos (e subaquáticos) sem que se transformasse num show de pedantismo. Soube, enfim, como ensinar as crianças a amarrar os sapatos sem afastar os sabidos adultos — pelo contrário, mostrou como lidar com crianças não significa, em absoluto, fazer pouco caso do bom humor e da inteligência (delas, sobretudo).

Bob Esponja não foi pioneiro nisso. Em meados dos anos 90, Toy Story estreou como uma bem-vinda renovação no mundo da animação, um roteiro com acenos brilhante para adultos e crianças que virou um modelo a ser seguido. Foi Bob Esponja, porém, que em 1999 transformou essa graça esperta ou essa esperteza graciosa num produto de consumo frequente, diário.

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A grande família de Bob Esponja serviu de alicerce para essa tarefa. Bob é uma figura tão ingênua quanto ansiosa; seu caracol, Gary, é ao mesmo tempo a vítima dessa ingenuidade e um contraponto ao desespero de seu dono. Os amigos mais próximos são Patrick, uma estrela-do-mar 100% burra, e Sandy, um esquilo texano nerd que desceu ao fundo do mar e lá ficou, a bordo de um escafandro. Como antagonistas, há Lula Molusco, o vizinho mal-humorado que se torna algo como um objeto do desejo de Bob e o rejeita de modo violento, e o Seu Siriguejo, arquétipo do patrão sovina.

Nesse universo, as tramas correm em direção às crianças e aos adultos de maneira paralela. É no episódio que ensina como amarrar os sapatos, com música do Ween, que Bob fica hipnotizado diante de uma anêmona erótica, acaba surpreendido por Gary e manda o velho "eu tava só mudando de canal".

Em outra ocasião, vitimados pela ambição de Seu Siriguejo, Bob e Lula Molusco precisam entregar uma pizza (lembrando: eles trabalham na lanchonete O Siri Cascudo, especializada em hambúrgures de siri, mas quando um cliente liga pedindo pizza o patrão não hesita em obrigá-los a não apenas fazer como também entregar a encomenda). Eles atravessam vales e desertos rumo à casa do cliente, e no caminho Bob Esponja compõe uma pérola do cancioneiro da Fenda do Biquíni, com direito a um beat box da esponja feita crooner:

Tudo isso para, no final, se depararem com um cliente que estava lá para mostrar a crueza da experiência humana, embora em formato marinho.

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Os dilemas pelos quais Bob Esponja passa são universais. A aflição de se ver sem casa e ter de voltar a morar com os pais. O medo diante das aulas de pilotagem da Senhora Puff, no que aparentemente é uma das piores autoescolas do mundo. A procrastinação nas tarefas do dia a dia. A tentativa de controlar os rumos de uma festa para garantir que todos se divirtam. Todas as vezes em que fica seco e vira uma esponja de cozinha live-action.

Também se vê fascinado pelo poder ao virar "monitor da classe" e mostra que até uma figura doce como o Bob Esponja pode se transformar no capeta quando está dentro de um uniforme e com uma atribuição burocrática pouco específica.

E há enredos que não fariam feio em drama de adulto, como quando Bob Esponja se decepciona por não ter sido promovido a gerente no Siri Cascudo, no primeiro filme dedicado ao personagem, e acaba enchendo a cara (de sorvete) ao lado de Patrick. Ele fica em estado lastimável de embriaguez e acaba indo dizer umas verdades ao patrão. O centro do conflito, no entanto, é comum a qualquer faixa etária: ele era visto por Seu Siriguejo como "um garoto", alguém sem maturidade para assumir as novas tarefas, pequeno demais para alcançar o que queria. "Quando você for grande, vai entender."

Bob Esponja expõe a tensão permanente entre a manutenção dos restos de leveza da infância e a assunção do peso da vida adulta. De seu jeitinho, Hillenburg mostrou que dá pra tentar equilibrar as duas coisas, ainda que não vivamos exatamente num abacaxi, no fundo do mar.

Alexandra Moraes é autora das tiras O Pintinho (opintinho.com.br) e editora-adjunta de Especiais na Folha de S.Paulo. Siga ela no Twitter.

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