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O Afroswing é muito mais do que uma moda passageira

O aglomerado de sonoridades da África Ocidental e da diáspora caribenha no Reino Unido merecem mais que 15 minutos de fama.

Por Jesse Bernard
10 Janeiro 2019, 11:00am

J Hus (esq.) e Kojo Funds. Fotos: Olivia Rose/Divulgação e Rankin/Divulgação

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Noisey UK.

É difícil precisar o momento em que o afrobeats conquistou o mainstream no Reino Unido - mas é um facto que o nigeriano D’banj ajudou a colocar a sonoridade em evidência. O seu êxito “Oliver Twist” serviu de banda sonora para as 250 mil pessoa que assistiram ao fogo-de-artíficio da passagem de ano de 2011 em Londres.

Passados quase oito anos, 2018 terminou como o ano em que o som pop do Gana e Nigéria, misturado com elementos de grime, rap, hip-hop e até R&B dominou discotecas, festas, playlists a bombar em Ubers e chegou aos tops. Portanto, seja o que seja que chamas a este aglomerado de géneros - afro-bashment, afropop, afroswing, todos com as suas características únicas -, é impossível negar que foi um ano e tanto para cada um deles.


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Sendo assim, é claro que podemos perder um bocadinho de tempo a tentar entender como o afrobeats acabou por ter um impacto tão grande na cena britânica, mas há mais sobre o que pensar neste momento, ainda mais se tivermos em conta a quantidade de artistas alinhados com este tipo de som que surgiram ao longo de 2018. O que aconteceria se, de repente, os sons da África Ocidental deixassem de estar na moda? Vimos o que aconteceu com o tropical house quando surgiu em 2010 - foi anunciado como grande sucesso de 2015, recebendo ampla cobertura em 2016 e depois remetido para canto em anúncios e temas de artistas de que nunca ouviste falar lá pelo meio das listas de 100 melhores.

Enquanto a negritude se torna, pouco a pouco, um padrão estético cobiçado (como no caso do blackfishing e da miríade de mulheres negras a fazerem capas de revistas de moda no Reino Unido), uma mudança pode atrasar o estabelecimento definitivo de um grupo de géneros que acabou de receber o devido reconhecimento. Ao conversar com especialistas da indústria, do Spotify e de uma grande editora, fico com a impressão de que não há um consenso sobre o que tudo isto significa. No entanto, tendo em conta o seu alcance global, a capacidade de viralizar na Internet e os refrães absurdamente contagiantes, com sorte, a coisa veio para ficar.

Para Parris O’Loughlin-Hoste, responsável pelo cast de artistas urbanos da Sony, o ano de destaque do afrobeats tem um significado ainda maior. “Há um grupo de jovens africanos e caribenhos de primeira ou segunda geração que cresceram em Londres e outras grandes capitais ouvindo afrobeat ou dancehall, reggae ou o que seja, durante todas as suas vidas”, comenta.E acrescenta: “O afroswing, afrobashment ou afropop é só uma amálgama e influência natural do caldeirão cultural de grandes cidades como Londres e Birmingham. Descartar um género inteiro como algo ‘passageiro’ é errado”.

“J Hus é, possivelmente, um artista definidor do género, pioneiro de tudo isto. Ninguém soa como ele, que é alguém que se mostra claramente influenciado por afrobeats/dancehall e bashment nas suas melodias. NSG, Belly Squad, MoStack, Lotto Boyzz, Tion Wayne, Yxng Bane, Maleek Berry, Juls todos são nomes de sucesso da diáspora no Reino Unido e a lista é imensa, relevando uma solidificação da cena, um fenómeno global de artistas que desafiam categorizações, mostrando o quão bem sucedidos podemos ser ao representarmos a influência da cultura britânica nas nossas culturas ‘nativas’”, realça Parris.

Os nomes mencionados pelo responsável da Sony servem como alerta para um dos obstáculos à compreensão da profundidade do impacto do afrobeats na cena britânica: repara na quantidade de subgéneros. Um dos maiores desafios durante esta ascensão é o de tentar fazer com que as editoras ou a comunicação social entendam o fenómeno, porque ainda não conseguem definir estes géneros híbridos por completo. “Como esperar que editoras e rádios respeitem a nossa diversidade de sons se nós mesmos não conseguimos classificá-los para consumo global?”, questiona Tunde Ogundipe, responsável por Música e Cultura Africana do Spotify, via e-mail. E adianta: “Quando esta questão puder ser respondida por quem lidera o movimento, entre artistas e editoras, creio que estaremos num lugar melhor para discutir tudo o que está a acontecer”.

Tendo em conta estes factores, é válido afirmar que alguns artistas deixaram já a sua marca no género. Burna Boy teve um 2018 incrível, especialmente com o lançamento de Outside. J Hus lançou o sucessor de Common Sense - que fora aclamado pela crítica -, um EP intitulado Big Spang, ainda que agora esteja na prisão, condenado a oito meses por uma acusação envolvendo facas. WizKid foi headliner do AfroRepublik na O2 de Londres em Maio, atraindo um público de 20 mil pessoas e esgotando os bilhetes. Em entrevista ao The Guardian, Yomi Adegoke falou sobre como a essência da música negra britânica consiste na mistura de sons ao longo das mais variadas classes e culturas, o que explica porque artistas como Kojo Funds e Burna Boy podem lançar sons que se encaixam como bashment ou afrobeats, sem que isso pareça esquisito.

Agora, vamos focar-nos nas qualidades virais do género, mais especificamente o caso de “Ye”, de Burna, que se transformou numa favorita do Twitter pelas mãos do londrino Osh, com a sua versão intitulada “My Yé is Different To Your Yé”. Por um lado, o sucesso viral é um reflexo de como visibilidade e redes sociais andam juntas, em que lançamentos únicos ajudam gente como Osh a tirar o máximo da popularidade em redes como Twitter e Instagram - neste caso, Sony/Columbia trataram do lançamento digital de “My Yé”.

Mas, o sucesso viral tem um lado mau, já que mensurar o seu impacto é complicado - quanto vale um meme para uma editora? De qualquer forma, a capacidade de um artista criar ligações com milhares de pessoas na Internet ainda é indicativa da verdadeira renascença pela qual passa a música negra britânica. Tunde, porém, acredita que os fãs não ligam minimamente a esse tipo de coisas. A seu ver, a abordagem viral bem-humorada pode ter curta duração. “Por mais que muitos artistas de “afroswing/bashment/wave e pop me intriguem neste momento, o tempo dirá quem sairá por cima em 2019. Acredito que muitos que prosperaram na base do hype no último ano terão que provar a sua relevância”.

A natureza do afropop recente, por sua vez, volta-se mais para singles, remixes e quem sabe EPs. Not3s, por exemplo, ainda não lançou um álbum, apesar de já ter duas mixtapes disponibilizadas. “Addison Lee” e “My Lover” abriram o caminho, com esta última a chegar ao 14º lugar nas tabelas britânicas. O problema da falta de discos de afropop é que, com o tempo, quando pararmos para analisar este momento, talvez não tenhamos um cânone que sirva de referência; se Common Sense de J Hus é o padrão, o que veio depois é quase como uma playlist de singles lançados por vários artistas, em vez de uma série de álbuns seminais.


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O trabalho de produtores como JAE5 e Juls também tem relevância. Críticos do emaranhado de subgéneros referem muitas vezes que “soa tudo parecido”, fazendo referência ao sample de xilofone que surge na maioria das melodias. Mas, desde que os produtores continuem a inovar, isto não tem de ser um sinal de futuros desastres. Ao contrário do UK funky da década passada - misto de grime e house funk que não se deu lá muito bem, com excepção de sucessos como “Migraine Skank” - o afropop encontrou o seu lugar ao sol nas tabelas britânicas, atingindo um público que compõe menos de 10 por cento da população do país.

Pode argumentar-se que artistas puramente pop, como Lily Allen, que participou em “Heaven’s Gate”, de Burna Boy e também brincou com sonoridades afroswing, podem encarar estes subgéneros como algo do momento. Mas, para os artistas negros que cresceram a ouvir D’banj ou Fuse ODG, é algo mais duradouro. “Nomes como Afro B conquistaram o Mundo. Não é possível que não se reconheça a força do género, quando se olha, por exemplo, para o facto de se chegar a um concerto de Wizkid em Nova Iorque e estar a tocar um remix de Afro B, o maior sucesso do Verão”, afirma Parris. E conclui: “Só tende a crescer - o elemento pop é o que mais me empolga, devido à forma como é fácil para toda uma geração de pessoas se identificar com isso”.

Tunde é mais reticente nas suas declarações e prefere realçar como seria fácil para o afrobeats perder-se caso os artistas se esqueçam da especificidade e nuances das suas raízes. “Não há quase nenhuma ligação entre o afrobeats e a enorme variedade de discos de pop e dancehall africanos que são lançados hoje em dia - exceptuando gente como Burna Boy, que regularmente utiliza elementos desta sonoridade nas suas músicas”, comenta. E sublinha: “A falta de educação musical, ou mesmo veneração da história musical africana, por parte dos criadores leva à confusão generalizada, especialmente no ocidente. Agora que muitos artistas assinaram com grandes editoras, terão excelentes oportunidades e, possivelmente, terão que abrir mão do controlo criativo. Ainda assim, 2019 será, certamente, um grande ano para a cena afrobeats britânica. E sabe-se lá qual será o ‘Oliver Twist’ de 2019”.


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