Identidade

O grande beijo de 2018

Porque é que a foto que mostra dois homens a beijarem-se sob os olhares de apoiantes de Bolsonaro é uma síntese do Brasil de hoje.

Por Débora Lopes; fotos por Rodrigo Zaim
17 Novembro 2018, 11:57am

Foto: Rodrigo Zaim/R.U.A. Foto Coletivo/VICE 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

"Fotografar é atribuir importância", afirmou em tempos Susan Sontag, escritora e crítica de arte norte-americana, que estudou e entendeu a fotografia com uma precisão e sensibilidade únicas. A imagem a preto e branco que antecede este texto é um exemplo cristalino de como uma foto pode dizer absolutamente tudo por si própria; de como o embate político que polarizou o Brasil nos últimos anos aparece congelado no segundo em que o clique foi feito. Esta foto diz muito, senão tudo.

Era o último domingo de Setembro e faltavam exactamente 28 dias para a segunda volta das eleições que consagrariam Jair Bolsonaro (PSL) como presidente eleito do Brasil. Os seus apoiantes, nesta altura, ainda não podiam ter a certeza disso, por isso saíram às ruas em vários locais do país – mais especificamente numa resposta pobre e bastante mais curta às manifestações contra o candidato encabeçadas pelas mulheres, que ocorreram dias antes e reuniram milhares de pessoas.


Vê: "O Mito de Bolsonaro"


Morador da periferia de Guarulhos, na grande São Paulo, Rodrigo Zaim, 27 anos, cumpria o seu ofício como fotojornalista e integrante do R.U.A. Foto Coletivo. Almoçou, subiu na sua mota (uma Honda Biz de 2006) e conduziu em direcção à Avenida Paulista, tida como o coração da cidade. Foi ali que fez aquela que é, muito provavelmente, uma das melhores fotos de 2018.

Zaim recorda que o protesto não estava muito cheio e que, de repente, começou a soprar um vento forte e a chover. Muitos apoiantes de Bolsonaro correram para se abrigar no vão do Masp, mas qual não foi a surpresa do destino quando, naquele mesmo local, estava a decorrer um pequeno evento, como a VICE Brasil relatou neste artigo. "Os pró-Bolsonaro começaram a gritar 'Lula na cadeia' e 'Ei, PT, vai tomar no cu'", conta o fotógrafo. O pessoal do evento ripostou. "Até que a coisa começou a ficar mais forte, [eles] cada vez mais próximos e tal e eu fiquei no meio à espera que alguma coisa acontecesse".

E aconteceu. O casal que está em primeiro plano na foto começou a dançar e a rebolar, provocando os fãs do nosso futuro presidente, que nunca perdeu a oportunidade de passar vergonha com as suas declarações homofóbicas. Foi então que os rapazes se beijaram, chamando ainda mais a atenção dos pró-Bolsonaro – que, na imagem, mostram reacções distintas.

Em termos de perspectiva, pode até ser que os quatro tipos com t-shirts de Bolsonaro não estivessem a olhar especificamente para este casal, mas ali daquele lado acontecia um grande beijo. É difícil não nos recordarmos de quando casais LGBT+ fizeram o mesmo diante de Bolsonaro e Marco Feliciano, em 2016.

Esperar que alguma coisa acontecesse naquele dia rendeu a Rodrigo Zaim uma imagem fotográfica que remete para o Brasil que temos visto: a resistência quase orgânica da esquerda, diante da pressão conversadora que quer eliminar e deter agendas progressistas que contemplem LGBTQs, mulheres, negros, indígenas, pobres e marginalizados. Mas, para essas minorias, existir é natural. E resistir é um instinto de sobrevivência quase que inevitável. Assim como amar.

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Foto: Rodrigo Zaim/R.U.A. Foto Coletivo/VICE

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