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"Foi censura", diz autor do grafite que mostrava beijo de Bolsonaro e Trump

Em entrevista à VICE, o artista cearense Yuri Sousa fala que destruir uma obra artística por ir contra princípios de alguém não é algo democrático.
7.12.18
Grafite com o presidente Donald Trump e Jair Bolsonaro dando um beijo
Reprodução / Instagram

Levou 48 horas para que o grafite numa parede com Jair Bolsonaro e Donald Trump dando selinho fosse apagado. O desenho foi elaborado pelo artista cearense Yuri Sousa, 21, em uma das ruas do bairro Jereissati I, em Maracanaú, no Ceará. A pintura foi coberta por tinta, mas a foto do grafite foi eternizada na internet.

Dar vida a essa imagem foi uma ideia concebida no período eleitoral. Na época, Yuri estava dedicado aos estudos para melhorar sua técnica quando voltasse a pintar. No furação pré-eleições, o artista começou a prestar atenção no discurso de Bolsonaro, então candidato à presidência da República pelo PSL, principalmente no que era dito em relação aos homossexuais. "Associei a postura e opiniões dele com as do presidente americano [Donald Trump] e me veio a ideia de fazer os dois num beijo como uma crítica a tudo ao que falaram. Uma resposta ou contra-ataque", explica Yuri.

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Beijos entre personalidades e políticos chamam atenção e ilustram muros pelo mundo. Desde a clássica reprodução do O Beijo Fraterno (1979), entre o líder soviético Brejnev e o homólogo alemão oriental Honecker, sob o muro de Berlim, feito em 1990, até na Lituânia, em 2016, onde Trump e o líder da Russia, Vladimir Putin foram eternizados numa pintura dando uma bitoca. “Se fizeram algo assim, também tenho coragem de fazer", declarou Yuri, ao comparar o trabalho da Lituânia ao seu.

O esboço do desenho foi criticado por alguns amigos do artista cearense, mas mesmo assim ele o fez. A dona da casa que recebeu a pintura não foi contra a obra. Ao terminar a pintura, Yuri tirou uma foto mas queria outra melhor, feita por uma câmera profissional. "Combinei com uma amiga fotógrafa pra ir lá, mas não deu tempo. Foi apagado", explica.

"Me deu muita raiva pelo tempo que gastei e pela tinta, que não foi barata. O alívio foi que eu tinha tirado uma foto antes de apagarem, mas eu queria ele na parede para que vissem de perto", ressalta Yuri. Até então, sua arte seria seu cartão de visita para que galerias e interessados pudessem conhecer seu trampo como artista. Para surpresa dele, as fotos com o selinho foram viralizadas na internet e vários veículos reportaram a ação. "Bastante gente passou a conhecer meu trabalho", revela Sousa.

Agora o artista se diz censurado. "Entendo como censura, sim. Destruir uma obra artística porque vai contra seus princípios e ideias é censura. A arte é livre e o muro não era deles".

Yuri diz que recebeu ameaças leves, ataques nos comentários e xingamentos de todo tipo por parte dos seguidores de Jair Bolsonaro. "Isso não me abala muito", justifica o artista, que não teme em sofrer outras represálias num governo sob o comando de Bolsonaro. "Minha esperança é que não seja um governo tão extremista. Sempre procuro pensar no melhor, pensar positivo, mas também não acho que seja impossível esse governo diminuir a liberdade de expressão", declara.

Sua conta no Instagram foi bloqueada e, daqui em diante, Sousa ainda não sabe se fará o mesmo desenho em outro muro. "Estou trabalhando e não me sobra muito tempo pra produzir muito. Mas lentamente vou produzir cada vez mais. Vou pensar em novas ideias, vou continuar pintando", finaliza.

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