Foto por Rozette Rago. Michelle Steilen, fundadora da Moxi Skate Girls, a voar na pista de skate.

Um dia a deslizar com o gang de patinadoras de Los Angeles

Elas estão a levar a patinagem do rinque para as ruas e não aceitam desaforos por parte de quem quer que seja.

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19 novembro 2018, 9:20pm

Foto por Rozette Rago. Michelle Steilen, fundadora da Moxi Skate Girls, a voar na pista de skate.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Não é possível não reparar nelas. Os patins deslizam como uma extensão do corpo, marcando formas e padrões no asfalto. Os transeuntes ficam de boca aberta. A sua presença é enorme, quase exigente. Deslizam com uma graça incompreensível. É como estar dentro de um daqueles videoclips exageradamente californianos.

A Moxi Skate Girls é uma comunidade unida que cresceu da Moxi Skates, uma empresa de Long Beach dedicada aos patins. A empresa foi fundada em 2008 por Michelle Steilen – conhecida nos seus dias de roller derby como Estro Jen – e vende patins ao estilo retro, através do legado deixado pelo fabricante Riedell Shoes Inc. São incrivelmente populares e venderam 10 mil pares só em 2018. Os seus patins coloridos são hoje vendidos na Urban Outfitters, Bando, Dolls Kill e em cerca de 200 rinques de patinagem e lojas de patins em todo o Mundo.

Steilen cresceu a andar de patins, mas a sua dedicação ao desporto começou mesmo quando ela se mudou para Los Angeles, nos EUA, e passou a patinar com as LA Derby Dolls. No entanto, ela queria tornar a patinagem mais acessível e pensou que vender patins recreativos de alta qualidade era o lugar certo para começar. “Queria que toda a gente pudesse andar de patins”, explica Steilen, enquanto rodopia na ponta dos pés para ficar de frente para mim. E adianta: “Queria construir uma comunidade dos patins”.

Moxi Skate Girl dancing on the street
Foto por Rozette Rago. Da esquerda para a direita: Michelle Steilen a.k.a. "Estro Jen," Shayna “Pigeon” Meikle, Liv Buchan, Vanna Jade Curtis e Dita Davis.
Moxi Skates in a circle
Foto por Rozette Rago.

Todos os patins são baptizados com nomes da família de Steilen. “Jack” é uma homenagem ao irmão mais novo e o modelo “Beach Bunny” é uma referência aos seus coelhos de estimação, Nimbus e Cloudia, por exemplo. Mas, os patins mais famosos da Moxi são o modelo “Lolly” de cano alto, baptizado com o apelido da irmã de Steilen, Loren. São feitos manualmente em Red Wing, Minnesota, onde cada par de patins passa por 85 estações na fábrica antes de serem encaixotados.

Como resultado, cada elemento é criado com uma atenção obsessiva aos detalhes, das botas de cabedal aos travões, até à base de metal. O visual final é meio retro anos 1920, meiosonho febril de cores dos anos 80 – uma homenagem à era dourada dos rinques de patinagem em Los Angeles e um extra perfeito para o Instagram, onde possuem milhares de seguidores.


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Nessas fotos de Instagram, as mulheres usam o mesmo equipamento das Moxi Skate Girls: calções curtos (ou Hammies, como são chamados no site da Moxi), t-shirts de alças para permitir movimentos, pochetes da Moxi e meias coloridas. Esse visual faz com que se destaquem, independentemente do local – seja nos passeios, pistas de skate, escadarias ou a descer ladeiras. O visual anuncia a sua existência, como que dizendo este é o nosso espaços em locais historicamente dominados por homens. Essa atitude deu nome à empresa. “Um tipo da UPS disse-me que tínhamos muita determinação [moxie]”, explica Steilen, “e gostei da ideia”.

Muita da estética da Moxi vem directamente da própria Steilen. Com ou sem patins, ela é uma força da natureza, combinando uma força incrível com um delicado trabalho de pés. Ao patinar, Steilen faz a transição de um conjunto de graciosas piruetas num pé, executadas em equilíbrio na ponta do pé direito, para culminar numa paragem de mão com espargata. Embeleza um conjunto de deslizamentos repetidos com piruetas e pontapés. Cai uma vez, levanta-se, examina o hematoma já em formação e sai a patinar. Quando lhe pergunto porque não vemos mais da equipa Moxi na televisão ou em documentários, ela responde: “Não nos podem conter ou vender”.

Michelle doing a split-leg handstand
Foto por Rozette Rago.
Michelle's ass bruise
Foto por Rozette Rago.

E ela não está errada. Neste momento, a Moxi vende mais que patins – elas criaram uma imagem tão difundida que influenciou uma cultura de patinadoras e inspirou “Moxi Girls” convertidas a mudarem-se para perto de Long Beach, onde fica a loja principal da marca. “A loja funciona como o nosso ponto de encontro”, diz Shayna “Pigeon” Meikle, dona das lojas Moxi Skates de Long Beach e Venice, que comprou a Steilen em 2014. E acrescenta: “Podemos não saber o que cada uma está a fazer, mas acabamos sempre na loja, tipo 'ah, estás aí, perfeito, vamos patinar'”.

Graças à fama viral, as Moxi Skate Girls são agora bastante reconhecidas. “É muito fixe ser reconhecida pelas pessoas na rua”, diz Meikle. E salienta: “Fui ao supermercado com a minha mãe um dia e a rapariga da caixa disse-me 'És a Pigeon?'”.

“A coisa que mais gosto no facto de trabalhar na loja de Venice é ver as pessoas a fazerem contactos”, diz Vanna Jade Curtis, enquanto afasta os densos caracóis verdes do rosto. Mudou-se para Los Angeles especificamente para se juntar ao Moxi. “Clientes de outras partes do Mundo conhecem-se, trocam números de telefone. E isso pode valer uma relação verdadeira e duradoura”, assegura. A sensação contagiante de comunidade também atrai novas patinadoras para as aulas ou “Skates Outs”, onde dezenas de pessoas se encontram numa loja e saem a patinar juntas.

É isso que diferencia a Moxi de outras marcas e grupos famosos de patinadoras em Los Angeles – como as LA Roller Girls, um grupo selecto de patinadoras de renome que são escolhidas para programas de TV e videoclips. Os produtos da Moxi são a base de um estilo de vida desejável, que se liga à imagem de Steilen – o equipamento juntamente com um certo brio. Graças à presença delas no Instagram e YouTube, a marca é reconhecida mundialmente e é sinónimo de talento, individualidade e feminilidade incríveis. É a loja física Moxi Skate, além das aulas de patinagem locais das Moxi Skate Girls, que fazem o estilo de vida parecer alcançável.

E sou grata por este último facto, porque vou fazer uma aula de patinagem com elas hoje e tudo é meio constrangedor. Liv Buchan abraça-me quando nos encontramos e entrega-me um capacete com pintura de glitter. Ela é o empolgamento em pessoa, com optimismo suficiente para abafar a minha apreensão. “Trouxemos o capacete no caso de precisares e há glitter, portanto vai ficar bonito nas fotos”, assegura. Estou a usar patins verde-água Moxi Lolly “Floss”, que comprei no Craigslist a uma Derby Girl de LA que estava a "reformar-se". Combinei os patins com meias com estampado de coelhinho para conseguir um look Moxi Girl aproximado.

Live Buchan holding a sparkling helmet
Foto por Rozette Rago. Liv Buchan a atirar um beijo.
Moxi Lolly Skate in seafoam green
Foto por Rozette Rago. Os meus patins Lolly "Floss" da Moxi.

Até as coisas mais pequenas parecem incrivelmente perigosas para uma patinadora novata. Tudo o que antes parecia inofensivo é amplificado: pequenos buracos ou lombas no pavimento atiram ao chão uma patinadora que está com os joelhos travados, areia destrói os rolamentos das rodas e escadas dão cabo dos joelhos. Mesmo os declives mais leves se notam bem. Na minha troca de e-mails com Steilen, pedi-lhe para aprender a dar piruetas, mas colocar os patins nos pés fez-me reconsiderar a ideia. Depois de uma infância a patinar no gelo ou a usar patins inline, achei que podia acordar mais cedo e treinar até desenferrujar um pouco dos patins de quatro rodas. Mas, isto é totalmente diferente do que já fiz antes e estou a foder-me tanto que até parece que é o meu trabalho (bem, tecnicamente neste caso é).

Manobras que parecem simples são bastante desafiadoras. Ao contrário de patinar no gelo, onde rodopias com os dois pés, o que é difícil mas possível com um par de patins criados para girar num eixo central, tens de inclinar cada patim de uma forma específica para girar sobre eles. Começando com os joelhos dobrados, equilibras-te nas duas rodas da frente de um pé e nas duas rodas traseiras do outro pé. Os braços fornecem um pouco de tracção enquanto começas a girar. A velocidade ajuda. Pelo menos, é isso que me ensinam.


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Estou a cair esplendidamente. No entanto, elas não desistem de mim, apesar da minha poderosa auto-aversão crescente. Curtis grita-me “Estás a tentar olhar para a minha cara, mas tens de me encarar no final da pirueta – não apenas tentar. Tu consegues!”, Eventualmente consigo dar uma volta de 360 graus completa, graças ao contacto visual com ela.

Já o “Tiro ao Pato”, um agachamento com um pé enquanto deslizas, é impossível de aguentar sem um desvio. De alguma forma, as Moxi Skate Girls conseguem manter a sua posição enquanto vão de um lado para o outro de propósito. Dita Davis gosta particularmente disto, usando o quadril e a perna levantada para se balançar ao longo da ciclovia. Diz-me que “ir mais rápido facilita”, como andar de bicicleta. Mas, como andar de bicicleta, quanto mais rápido vais, mais dói quando cais. Levantar é o mantra de um desporto que te pede para navegar nas inércias da gravidade, enquanto lanças o corpo como um projéctil. “Rimo-nos quando caímos", diz Buchan, entre sorrisos.

Flailing while try to spin.
Foto por Rozette Rago. Eu a tentar dar o meu melhor rodopio.
Trying to dance with the Moxi Skate Girl.
Foto por Rozette Rago.
Liv holding a shoot the duck pose
Foto por Rozette Rago.

Apesar dos meus incessantes tropeções, as mulheres fazem-me sempre sentir parte da sua família mista. Buchan dá-me a mão enquanto tento passar por um pequeno monte de areia (“Coloca o peso no travão da ponta. Não vais estragar os rolamentos”, dizem-me três delas separadamente). Enquanto o dia passa, sinto a missão delas de maneira mais e mais forte – a determinação feroz de reclamar espaços estereotipicamente masculinos no mundo da patinagem. Meikle está a patinar durante todo este tempo enquanto empurra um carrinho de bebé. De vez em quando pára para amamentar a filha. “Devias escrever isto no artigo”, diz-me, “que eu tiro o meu peito para fora e ninguém liga”.

Patinar tão agressivamente neste passeio parece um “que se foda” para uma cultura que obriga as mulheres a policiar os seus corpos e acções. Os homens comentam a nossa performance, tentando mandar uns piropos e a dizerem para fazermos isto ou aquilo de maneira diferente. Nem dez segundos passam sem um “sorri, gata” ou um assobio. Mas, as Moxi Skate Girls contra-atacam. Quando um comerciante de meia idade grita “Sei fazer melhor que isso”, Buchan confronta-o. “Porque é que achas que podes dizer-nos como patinar?”, dispara ela. A sua linguagem corporal é de desafio, gesticula loucamente enquanto o interroga. Ele fica mais nervoso e na defensiva. Depois, acaba por conceder. Buchan vai-se embora a patinar.

Estamos a ocupar muito espaço. Posso sentir a minha pele a arrepiar-se com o conhecimento que não sou suficientemente ágil nos patins para sair do caminho se for preciso – quem passa por mim é que tem que se desviar. É emocionante. É assim que é ser o puto skater que chocou comigo na semana passada enquanto eu carregava as compras do supermercado? Ou o tipo da trotinete que me atirou ao chão quando eu tentava atravessar a rua? Sei que não – ainda estou a pensar demasiado –, mas fico a imaginar quantas vezes tenho de patinar com as Moxi Girls para sentir que mereço mover-me livremente, cruzar o asfalto sem consequências.

Moxi Skate girls help me down a sand hill
Foto por Rozette Rago.
Me, bombing down the Venice Boardwalk
Foto por Rozette Rago.

Ver Venice em patins é ver um sítio diferente. De repente, tudo está mais perto. A longa ciclovia que liga Venice a Santa Monica encolhe para um trajecto de 15 minutos de patins. Na troca entre as duas praias, deslizar sobre rodas faz parecer que estás no Whole Foods até que dás de cara com a Muscle Beach. É uma cena vacilante e exaustiva – as minhas pernas estão a gritar – mas estou voando e ninguém me pode apanhar. Nunca mais quero tirar estes patins.

Finalmente, chegamos à pista de skate, a convergência de betão e metal, coberta de arranhões e travagens de skaters – homens e mulheres, mas geralmente homens e raramente de patins. A pista pode ser um lugar desafiador para as Moxi Skate Girls treinarem, tendo em conta a sua a reputação. Como o assédio nos passeios, pessoas aleatórias insistem para as mulheres fazerem manobras. “Tens que fazer certas manobras”, diz Curtis. Ela ficou famosa pelo seu talento em dar mortais de costas no bowl. E realça: “É quase como uma banda, há músicas que esperam que toques”.

Steilen desce a parede do bowl sem muita fanfarronice, desviando-se de skaters enquanto testa velocidade e pára periodicamente na beirada. Sem aviso, lança-se num pino de mãos na beira do bowl, antes de sair a patinar de costas e a executar uma série de saltos. “Parar no topo é uma das manobras mais difíceis”, diz Buchan. E acrescenta: “Tens que parar o impulso completamente. Não podes deixar que te carregue para a frente.” Buchan senta-se sob os joelhos, a sua leve transpiração faz com que a pele brilhe como uma modelo numa campanha da Glossier. Não estou realmente a patinar, mas ela entrega-me outra vez o capacete com glitter. “Segurança em primeiro lugar!”.

Michelle doing a handstand at the edge of the bowl
Foto por Rozette Rago.
Michelle dropping in the skate bowl
Foto por Rozette Rago.
Me filming Vanna in the skate park bowl
Foto por Rozette Rago.
Dita Davis at the skate park
Foto por Rozette Rago.

Quando a multidão reconhece o Moxi Skate Team, dezenas de espectadores começam a juntar-se na beira da pista, com os telemóveis prontos. A pista começa a esvaziar, com excepção de alguns skaters solitários. Curtis e Steilen estão na beira do bowl, a testar velocidades de drop. O bowl faz uma curva, portanto elas têm uma distância de descida diferente. Se se querem sincronizar, têm de testar o momento certo de dropar, para fazerem a manobra ao mesmo tempo. Depois de alguns testes, Steilen olha para nós. Buchan pega no telemóvel e faz um "ok".

Steilen grita “Pronta?” e Curtis confirma com a cabeça. Uma barreira mental tem que cair para fazer o tipo de manobra que o público está à espera – manobras que podem dar-te cabo da coluna se não aterrares correctamente. A multidão cai num silêncio enquanto tentamos adivinhar que manobra elas vão fazer. Estão na beira. Dropam, apanham impulso e sincronizam, depois atiram-se do outro lado.

No pico, cada uma delas lança o corpo para trás, arqueando as costas. O tempo para, por um momento, quando atingem o ponto mais alto do salto, estarem de cabeça para baixo. Os braços abertos, os cabelos a flutuar.

Michelle and Vanna doing a backflip in the bowl
Foto por Rozette Rago.

O tempo volta a correr. Os patins delas tocam o solo com um estalo alto, os joelhos dobram para absorver o impacto e elas saem a patinar pelo bowl de costas. É um mortal perfeitamente sincronizado. Parece até fácil e a multidão aplaude. Steilen e Curtis viram-se para Buchan e para mim, com um olhar de dúvida. Filmámos tudo. Elas saem do bowl para ver.

Juntamo-nos entre “choca aqui”, abraços e gritos. Elas olham para as nossas câmaras e postam a filmagem no Instagram (ao fundo consegues ouvir Buchan a dizer “não fales comigo se não consegues fazer isto”). A multidão pede para fazerem mais manobras, mas sabemos que já temos o que precisamos – fizemos o que viemos fazer e é hora de ir embora. Estamos a fazer isto por nós e por mais ninguém. Esse é o lema das Moxi Skate Girls.

Moxi Skate Team poses together
Foto por Rozette Rago.

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