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Fui ao primeiro leilão de Pepes Raros via blockchain

Quando o universo da arte tradicional encara os memes e os bitcoins.
30.1.18

No sábado de 13 de janeiro, centenas de entusiastas do blockchain, de memes e de arte digital se abarrotaram em um evento realizado em um espaço pequeno na rua 23 West de Manhattan, em Nova York, nos EUA, para dar lances em imagens de um sapo verde – memes conhecidos como “Pepes Raros” – localizados no blockchain.

Esses Pepes não são os memes da extrema direita, ou imagens autorizadas do trabalho de Matt Furie, o artista original do Pepe. Eles são tidos como obras de arte colecionáveis, e cada uma está associada com um token digital exclusivo, a fim de comprovar sua raridade. Quando Pepes Raros são comprados e vendidos, os tokens mudam de mãos, e a propriedade é registrada no blockchain do bitcoin, um registro descentralizado que não pode ser editado.

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As origens do fenômeno dos Pepes Raros se perdem no 4chan, mas Joe Looney, um desenvolvedor, criou a carteira Rare Pepe, a plataforma principal para comprar e vender Pepes Raros, em 2016. Vi-me sentado em meio a um público de fãs durante esse surreal leilão ao vivo. E eu, assim como poucos membros do universo da arte tradicional, queria ver com o que se parecia um leilão de memes colecionáveis. Será que os memes poderiam ser vendidos como obras de arte luxuosas?

O leilão ao vivo começou com um conjunto de três Pepes Raros, sendo um deles igual à Persistência da Memória, de Salvador Dalí, só que com Pepes no lugar dos relógios. O trio foi vendido por 12 mil unidades de Pepe Cash – um Pepe Raro extremamente líquido do qual existem 700 milhões de unidades que servem como moeda de facto para o mundo dos Pepes Raros – o que significa aproximadamente 720 dólares no momento da publicação deste artigo.

Imagem: Jessica Klein.

Enquanto leilões presenciais no mundo da arte tradicional seguem regras rígidas e exigem um comportamento comedido dos compradores, o primeiro leilão ao vivo de arte rara do blockchain foi ficando cada vez mais barulhento conforme os lances avançavam. “Preciso daquele GIF!”, gritou um homem com um gorro na cabeça quando imagens de um Pepe em movimento apareceram na tela do palanque do leiloeiro.

Mais tarde, o “Pepe mais caro que existe no mundo”, segundo o leiloeiro, foi vendido em uma guerra de lances acirrada. Parecia o Homer Simpson, se o Homer fosse um sapo verde deprimido. “É o Homer Pepe!” uma pessoa do público alfinetou, encorajando os outros a aumentarem seus lances. “Jesus amado”, disse outro, enquanto os lances continuavam a aumentar. Por fim, o Pepe foi vendido por 350 mil unidades de dinheiro Pepe, que vale aproximadamente 21 mil dólares (e que, vale mencionar, valia 38.500 dólares no momento do leilão).

O leilão de Pepes Raros (que, deve ser observado, também incluiu a venda de um CryptoKitty, um colecionável do blockchain Ethereum) fez parte de um dia de palestras e conversas no Festival de Artes Digitais Raras. Tommy Nicholas, Kevin Trinh e John Zettler, do Rare Art Labs organizaram o evento, que durou o dia inteiro, voltado para artistas e admiradores de arte no blockchain.

Palestrantes do evento incluíam membros do universo artístico de Nova York e entusiastas de blockchain. Durante o leilão de Pepes Raros, membros do Museu Metropolitan, do Museu de Arte Moderna e do Instituto Sotheby permaneceram em silêncio.

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De acordo com Louis Parker, o leiloeiro de Pepes Raros, algumas pessoas do universo da arte tradicional disseram a ele, depois do leilão, “eu não sei o que acabou de acontecer, mas sei que foi incrível”. Para ele, a presença dessas grandes instituições indica o início de uma aproximação entre a tecnologia de blockchain, a cultura dos memes e o reino da arte dominante. Parker, vale mencionar, em breve lançará sua própria rede de blockchain focada em memes, a Archetype.

Funcionários ofendidos da Sotheby não foram os únicos balançando a cabeça durante o leilão. Mesmo Matt Hall, autointitulado membro do contingente de “crypto-nerds” do evento – co-fundador do CryptoPunks, outro criador de arte digital a utilizar tecnologia de blockchain para oferecer exclusividade na propriedade –, reconheceu nos entusiastas do Pepe um grupo peculiar. Para ele, o projeto é “um pouco confuso”, se não intrigante, e repleto de piadas internas que ele não entendeu.

Apesar de os itens à venda serem totalmente digitais, o leilão em si foi extremamente humano. Embora uma pessoa no público estivesse fazendo lances em nome de compradores remotos, “todos os grandes licitantes estavam presentes”, Tommy Nicholas, um dos organizadores, me contou. Da próxima vez, a equipe quer que o leilão seja maior e que inclua mais participantes remotos. Além disso, Nicholas afirmou, a equipe está buscando parcerias com casas de leilão tradicionais para um leilão de Pepes Raros nos próximos meses.

Ao conversar com profissionais da indústria da arte após o leilão, Parker os viu conversarem sobre a fusão da arte, do blockchain e, sim, dos memes. “Será que os memes são arte? Será que a arte é um meme? Qual é a diferença?”, perguntou Parker, o leiloeiro dos Pepes Raros, ao público.

Se participar do primeiro leilão ao vivo de Pepes Raros me ensinou alguma coisa, foi que, se as pessoas estão dispostas a gastar valores como 40 mil dólares nessas coisas, então o universo da arte tradicional terá que se fazer as mesmas perguntas que Parker fez, quer queira, quer não.

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