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Skate

Breve história sobre a época em que se andava de skate a fumar cigarros

"Throwback" a uma tendência (um tanto ou quanto) infeliz.

Por Hanson O'Haver
10 Maio 2018, 4:26pm

Dan Drehobl. Foto por Brynce Kanights.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE Sports.

Desportos radicais e estilos de vida pouco saudáveis representam opostos numa escala de perigo. No primeiro caso, qualquer dano resultante acontece imediatamente; no segundo, o dano vai-se acumulando mais lentamente, com os efeitos a poderem ficar mais ou menos adormecidos ao longo de anos.

O mais fixe de uma actividade como o base jumping, por exemplo, é que, assim que decides que estás farto de saltar de prédios – supondo que não houve nenhum ferimento relacionado –, continuas saudável como se nunca tivesses praticado o desporto. Com esse espectro de risco em mente, quando vemos um skater a fazer uma manobra e a fumar um cigarro ao mesmo tempo, não é possível não nos sentirmos de alguma forma inspirados pela audácia envolvida. Mesmo quando - como faz Etienne Gange no novo vídeo da Alltimers - um skater consegue mandar um longo 50-50 sem se queimar ou acabar com uma fagulha no olho, pode ainda vir a sofrer repercussões décadas mais tarde, na forma de enfisema, doença cardíaca e vários tipos de cancro. É outra forma de encarar a morte de frente, certo?

Claro que, skate e fumar cigarros são, tradicionalmente, actividades vendidas como rebeldes e anti-sociais, numa perspectiva cool. Tipo estes shapes. Mas, nos últimos anos as coisas mudaram. Gostando-se ou não, o skate será um desporto olímpico e o número de jovens que fumam nunca foi tão baixo. Portanto, enquanto avançamos para esse novo mundo mais saudável, vamos reflectir sobre a moda em risco de extinção de andar de skate e fumar ao mesmo tempo.

E deixamos aqui bem explícito: fumar não é fixe. “Where is the rebellion in acting like a fuck-up? /
Why not embrace simple health?”, canta Phil Elverum em “Don't Smoke”, do seu projecto Mount Eerie. Mas, essa música é talvez o único exemplo de arte que me fez não querer fumar... basta pensar nas milhares de fotos, quadros e filmes que representam fumadores como, bem, como tremendamente fixes.

A coisa é simples: é glamoroso quando as pessoas desconsideram a própria saúde em busca de prazer e nem todos os dados médicos do Mundo podem mudar isso. Mas, alguns fumadores são mais cool que outros. Kevin Rodrigues a voar num passeio em Paris no novo vídeo da Converse Purple (aos 10:38) funciona, porque ele é um típico descontente francês. O switch flip de Tom Penny a fumar, do primeiro vídeo da Transworld, faz parte de um conjunto de manobras lendárias em San Diego. Não sei se Brandon Biebel (que é tipo um Tom Penny norte-americano) ainda é viciado em tabaco, mas com a sua barriga six packt e corpo atlético, um cigarro ia parecer fora do personagem.

Também há alguma coisa estranha nos skaters que gosto de pensar como "Fumadores Adolescentes", como o livro de fotos de Ed Templeton com o mesmo nome. Gente menor de idade a fumar, só parece carismático quando és mesmo menor de idade; de outra forma, a combinação de mochila e maços de tabaco é simplesmente dissonante. A digressão de Bill Strobeck com a Supreme cai nessa categoria. Assim como o feeble five-o to fakie, de Arto Saari, em Sorry. A parte de Arto nesse vídeo tem o comprimento de duas músicas de Bowie, indo do final da puberdade até ao começo do seu auge no desporto, mas essa manobra a fumar é pura fanfarronice adolescente. Um amigo tem que o segurar para ele não ser atropelado e Arto quase acaba por enfiar uma fagulha na cara do amigo – uma cena que não entraria num anúncio a cigarros, certamente.

A parte de Andrew Reynolds em Stay Gold é o ponto alto da sua carreira, a última amostra de um dos maiores skaters de todos os tempos. É quase perfeita, fora a banda sonora muito indie adolescente e não há como manter a postura quando o "Chefe" faz um switch frontside flip sobre quatro degraus perto do final. Ele aterra e coloca a mão direita na boca. A “loucura” pré-manobras de Reynolds é bem documentada e dá a entender que estava simplesmente a descansar e a fumar um cigarro entre as tentativas, quando teve um surto de coragem e não quis esperar, não fosse dar-se o caso de perder a confiança necessária para saltar três degraus enormes de cimento de switch. A filmagem não se foca no cigarro, avançando rapidamente para a próxima manobra, um gigante fakie 360. Aposto que Reynolds, que passou de ser conhecido como um gajo de copos à séria, para um verdadeiro modelo a ser seguido, provavelmente teria cortado o cigarro se pudesse.

O começo dos anos 2000 foi o auge no que diz respeito a andar de skate a fumar. Houve o Piss Drunx, de Arto Saari em Sorry e o tailslide na vedação de Frank Gerwer. Claro, também houve o Bag of Sucks da Enjoi, o primeiro vídeo de skate a começar com um médico a alertar sobre os perigos do tabaco. Jerry Hsu, na era do cinto de atacadores, acende um cigarro com o dedo grande a pegar fogo, Caswell Berry parece um balconista de loja sem tempo para acabar de fumar antes de dar um heelflip varial entre dois telhados.

Mais recentemente temos a linha nocturna de Pete Eldridge, de 2012, em Nova Iorque. Na maioria desses vídeos, o skater segura um cigarro na mão. Já Eldridge consegue continuar a fumar normalmente enquanto manda heelplips e só depois solta o fumo. Como a Quartersnacks escreveu na sua lista Cenas de Skate mais Relaxadas da História, “Ele está longe de ser o primeiro a andar de skate com um cigarro, mas é o mais perto que o skate já chegou de uma estrela de cinema dos anos 40 a fumar num filme a preto e branco, e parecer incrível enquanto o faz”.

Qualquer análise de skate + cigarro estaria incompleta sem mencionar Dan Drehobl, o gajo que transformou fumar e andar de skate de uma escolha estética num estilo de vida. Drehobl anda por aí há décadas, mas a principal coisa que skaters de uma certa idade sabem sobre ele é que, na maioria das suas campanhas, ele está com um cigarro na boca – às vezes vários. Drehobl e cigarro estão tão ligados que, em 2003, quando o skater profissional e conhecido hater do tabaco, Tim O'Connor, escreveu uma lista de más manobras de skate, o número seis era “Andar de skate com um cigarro na boca se não fores o Dan Drehobl”: “Esse é um daqueles casos onde o gajo está a tentar dar a ilusão de que tudo é tão fácil para ele, que pode curtir fumar enquanto tenta fazer a manobra da sua vida. É tudo mentira, rapaziada!”.

Drehobl concorda. Em 2013, disse ao Muckmouth que até estava a tentar passar para os cigarros electrónicos de forma a largar o vício. “Acho que fumar é uma merda e queria conseguir parar. Os cigarros são tremendamente viciantes, apanham-te pelos tomates e fazem sentir uma desgraça. Claro que é divertido fazer piadas, mas só quero dizer a qualquer um que leia isto que, se nunca fumaste, é melhor nem experimentares”.

A boa notícia, tanto para críticos como O'Connor como para quem ficou preocupado com a saúde dos skaters, a taxa de jovens que fumam hoje em dia é a mais baixa da história [parece que em Portugal, nem tanto]. A percentagem de skaters que fumam não é exactamente o tipo de coisa documentada pelos programas de saúde, mas se a população geral é um indicativo, os dias de andar de skate a fumar estão contados.


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