Cultura

A youtuber ContraPoints é o oposto da Internet

Através da combinação de humor, drag e filosofia, uma youtuber norte-americana está a navegar pelas guerras culturais com clareza e lógica.

Por Jake Hall; Traduzido por Sérgio Felizardo
12 Abril 2019, 11:55am

Screenshot via YouTube

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

“A primeira vez que usei leite num vídeo foi porque achei que parecia sémen, pensei que seria engraçado”, diz Natalie Wynn, a youtuber norte-americana mais conhecida como ContraPoints. Wynn ri-se enquanto olha para o telemóvel e desfaz o mito do Reddit de que ela usa leite nos vídeos para o resgatar da alt-right, que costuma utilizar a bebida como símbolo da supremacia branca. “Há uma semiótica complexa no leite”, admite, “mas, porque é que derramei leite na minha cara? Estaria a pensar na ligação entre poder e sexo? Não sei, provavelmente só achei mesmo engraçado!”.

Estas teorias elaboradas não são incomuns quando se trata do trabalho de Wynn e são uma prova da atenção intensa que as pessoas prestam aos seus vídeos. Combinando humor, drag e filosofia, ela é uma das ensaístas mais incisivas e convincentes do YouTube. O seu vídeo “Gender Critical” (um termo que as feministas radicais usam como reacção ao serem chamadas de TERFs) teve quase meio milhão de visualizações em apenas um dia. Do contexto da comédia até memes transfóbicos, ContraPoints está a fazer o que parecia ser impossível: debates políticos cheios de nuances e controvérsia que, ao mesmo tempo, são sexy e envolventes. E os vídeos costumam ter legendas em muitas línguas, inclusive português.


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Wynn trabalhou os seus vídeos no YouTube ao longo de mais de uma década até chegar a esta fórmula. No início, era “uma participante menor do conteúdo ateísta do YouTube, porque era isso que fazias enquanto pessoa com opiniões em 2008”. Mas, em 2016 começou o ContraPoints: uma resposta à atmosfera que começou a ver que se estava a formar online. “Reparei num aumento de conteúdo político depois do GamerGate em 2014, que era formado principalmente pela direita – ou, pelo menos, pessoas anti-progressistas”, conta-me, citando um espectro de conteúdo que variava de centrista até abertamente neo-nazi. Decidiu então criar os seus próprios vídeos e essas primeiras tentativas de desconstruir questões de justiça social através das lentes de esquerda colheu seguidores de imediato. Mais importante, os vídeos tornaram-se um meio criativo.

Até àquele momento Wynn, que agora tem 30 anos, tinha devotado boa parte da sua vida aos estudos académicos. Nasceu e cresceu na Virgínia e, mais tarde, mudou-se para o Illinois, onde fez PhD em Filosofia na Universidade Northwestern. “A ideia de ser uma académica para o resto da vida começou a entediar-me até ao ponto do desespero existencial”, recorda, em parte na brincadeira – é difícil ter certeza, porque mais tarde descreve o seu PhD como um “passeio guiado pelos homossexuais mais chatos da história”.

Refere também que se sentia péssima ao ter de lidar com vários empregos para “financiar tentativas artísticas fracassadas”. Foi quando reparou no pseudo-intelectualismo que estava a começar a entrar no discurso da direita, impulsionado principalmente por “filósofos fajutos, como Stefan Molyneux”, cuja popularidade provava que havia um público para discussões filosóficas de questões políticas. “Eles estavam a vender aquilo a pessoas que desejavam esse tipo de comentário, mas estavam a entrar numa versão horrível da coisa”, sublinha.

O ContraPoints foi concebido para equilibrar o campo de jogo político, dissecando questões através de perspectivas de esquerda. “Se há uma coisa que aprendi ao estudar filosofia”, acrescenta, “é que se estás a escrever um trabalho sobre Aristóteles, primeiro tens de mostrar que o entendes. Depois, sim, podes fazer o teu contra-argumento”.


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Raça era um foco-chave dos primeiros vídeos do ContraPoints. Por causa de uma relação, Wynn mudou-se para Baltimore depois de largar a universidade. Encontrou uma cidade no meio de “um levantamento” depois do assassinato de Freddie Gray – um jovem negro detido por engano, que morreu por ferimentos sob custódia da polícia. Nenhum polícia foi acusado. Não tardou até começar a ver comentários “racistas violentos e maldosos” na Internet, que estavam a ser ignorados, um facto que a frustrava. “Achei que, se as pessoas estavam a escrever esses comentários, era porque estavam constantemente a pensar naquilo”, afirma. E acrescenta: “Disseram-me que estava louca, mas depois as eleições norte-americanas de 2016 confirmaram-me que as pessoas estavam a votar da mesma forma que deixavam comentários no YouTube”.

Radicalização online tornou-se outro tema importante dos vídeos do ContraPoints. Os seus ensaios sobre “descriptografar a alt-right” e incels tiveram milhões de visualizações, assim como o vídeo onde expunha as falsidades de comentadores importantes da alt-right, como Ben Shapiro e Jordan Peterson. “Eles pegavam nessas reacções racistas cansadas e fora da moda e apresentavam-nas como uma coisa nova radical e essa é uma retórica poderosa”, realça. E sublinha: “Eles sabem como tornar essas ideias sexy e sabem vesti-las para consumo do público; o que me deixa louca é que a esquerda não parece ter essa intuição de como apresentar publicamente um pensamento”.

O impacto fatal dessa retórica da alt-right ficou bem patente com o massacre nas mesquitas de Christchurch. “As pessoas acham que são apenas memes, só piadas”, diz, a voz pesada com frustração. Num tuíte postado logo depois da tragédia escreveu: “Sem satisfação agora, só raiva. Ninguém ouviu”.


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Wynn reconhece que para desradicalizar alguém tens que conhecer as ideias da pessoa, mas esse método não é exactamente popular. “A única forma de eu poder fazer estes vídeos era tendo conversas com centristas, ou com pessoas que estavam a caminhar na direcção da alt-right”, explica. E conclui: “Eu estava a fazer o que literalmente não deverias fazer, que é falar com eles”.

Esta abordagem é enraizada num entendimento de que “política é estética” – por outras palavras, a forma como argumentas é tão importante quanto o argumento em si. “Não é só sobre expôr alguém e usar lógica”, afirma, “porque há razões emocionais e psicológicas para as pessoas terem essas convicções políticas. De um ponto de vista psicológico, tens que entrar com empatia no mundo da pessoa, não só perceber porque é que ela pensa o que pensa, mas porque é que ela sente o que sente. Repete-lhes isso e podes realmente ganhar tracção”.

Como estratégia de persuasão, o método pode ser eficaz, mas ela lembra que chegou a receber um “coice” da esquerda no passado “por ter interacção pública com a extrema-direita”. Agora, faz um esforço deliberado para não ter contacto interpessoal publicamente com eles – “observo-os secretamente e depois relato sobre eles na forma muito controlada do vídeo”.

Alguns tópicos são mais pessoais que outros. Wynn fez a transição a enquanto sua carreira no YouTube descolava e ela mergulha a fundo em assuntos como “feminismo crítico de género” (agora sinónimo de “transfobia”), o que exige muito trabalho emocional. “Não entendia como seria difícil fazer a transição em público e, vendo os vídeos de antes da transição, é meio humilhante e doloroso”, explica. E acrescenta: “Em algum momento vou ter que ficar em paz com isso, mas agora ainda não estou”.

A ascensão da popularidade do canal ContraPoints não acontece sem um tanto de ansiedade. É difícil não politizar a autonomia que ela tem sobre o seu conteúdo e a sua imagem num mundo que muitas vezes vê a comunidade trans através de lentes voyeurísticas. “Eu posso decidir quanta maquilhagem uso e qual a iluminação, o que é importante porque há essa política incrivelmente complicada a rodear a aparência física das pessoas trans”, explica. Compreensivelmente, Wynn está muito consciente de que permitir a entrada dos media na sua vida exige não só um sacrifício de controlo, mas uma grande quantidade de confiança.

Ela também descreve a transição como “o último prego no caixão” das suas esperanças de se tornar uma comentadora pública. “Para seres boa nisso tens que ser confiante, assertiva, quase um pouco agressiva. Numa mulher trans essas qualidades sempre serão lidas como masculinas, portanto para vencer um debate, tens que perder o debate”.

Comentários deste género parecem não combinar com a sua persona online cortante, sexy e aparentemente destemida. “É complicado”, diz sobre as expectativas que colocamos nas celebridades do YouTube (apesar de rir quando insinuo que ela se encaixa no padrão) para nos permitir acesso sem filtros às suas vidas. “Eu não diria que sou um pouco impessoal – a minha principal persona é uma versão idealizada de mim mesma”, justifica. E adianta: “É assim que queria argumentar pessoalmente! Na verdade, sou muito tímida e não gosto de confronto”.

Isso não quer dizer que ela tenha como objectivo ser uma inspiração. “Tens de colocar nisto um pouco da escuridão, da vergonha e da tua baixa auto-estima – é uma questão de ter o suficiente de mim na mistura, do que estou a sentir, ser autêntica”.

ContraPoints Natalie Wynn Youtube
Screenshot de "The Aesthetic"

O YouTube depende da ilusão de uma conexão genuína com os criadores de que gostamos. “Permite que sintas que conhece essa pessoa que está no ecrã e isso é importante para pessoas trans em particular, porque não há muitos de nós. Enquanto figura trans proeminente, esperas que alguém sinta que te conhece e pense em ti na vida real; esperas ter um impacto na forma como a pessoa actua quando encontrar uma pessoa trans na vida real”. Mas, com essa falta de visibilidade vem uma pressão para representar perfeitamente uma comunidade inteira. Wynn explica: “Muitas pessoas trans colocam esperanças em mim como um tipo de defensora pública. Portanto, se as desaponto é como uma bofetada na cara. Já fui acusada de transfobia no passado; as pessoas acham que posso traí-las a qualquer momento”.

Ela descreve uma reacção negativa em particular à volta de “The Aesthetic” – um vídeo de diálogo (onde Wynn interpreta as duas personagens) entre Justine, uma mulher trans hiperfeminina e Tabby, a “militante radical”. Wynn queria “explorar ideias, sem necessariamente as endossar”, mas recebeu reacções negativas por deixar as suas opiniões sobre assimilação e estética bastante claras. “As pessoas não gostam de ambiguidade, então na ausência da minha opinião, sentiram que tinham direito de especular e achar o pior”, recorda.

Ironicamente, o vídeo – de que Wynn reitera que se orgulha – serve, na verdade, como um meta comentário sobre as pressões colocadas sobre as mulheres trans, que são aumentadas por mulheres trans públicas. “Não estou a reclamar nenhum tipo de opressão. Quero deixar claro que sou uma das que teve sorte”, diz. E conclui: “Mas, não acho que as outras pessoas recebam o escrutínio intenso que eu recebo por todos os lados. Sinto que muitas das críticas de fui alvo pelo vídeo eram injustas”.

Wynn não considera que fala por toda a comunidade; as suas visões são, inevitavelmente, moldadas pelas suas experiências e, à medida que o seu perfil cresce, ela reconhece que as suas experiências se vão tornar “menos fáceis para que uma grande parte das pessoas se identifique com elas". “Ainda assim, não sou a única a tentar mudar representações negativas de pessoas trans – há muitos criadores trans por aí”, sublinha.

Incidentalmente, essa é a mensagem principal do vídeo “The Aesthetic”. “Acho que não há como ganhar”, concordam no final as duas personagens, exasperadas, “queres relaxar e ver uns vídeos no YouTube?”.


@jake2103

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