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Cultura

Por dentro dos últimos dias do auto-proclamado Estado Islâmico

"Deixámos para trás corpos carbonizados e casas destruídas".

Por Adam Desiderio; Traduzido por Sérgio Felizardo
09 Abril 2019, 9:26am

Mulheres do ISIS fazem fila para receber comida e água num posto de controlo no deserto sírio fora de Baghouz. Milhares de famílias do ISIS, incluindo combatentes armados, renderam às tropas das FDS nas últimas semanas. (Foto por Adam Desiderio para a VICE News)

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE News.

BAGHOUZ, Síria – Subiram por um caminho irregular à beira do Monte Baghouz, um precipício monolítico com vista para o último pedaço de terra mantido pelo auto-proclamado Estado Islâmico, carregando o que podiam.

Nas últimas semanas, homens, mulheres e crianças chegaram aos milhares, entregando-se às Forças Democráticas Sírias, uma coligação de milícias curdas e árabes apoiada pelos EUA, que está a supervisionar a batalha para derrubar o último bastião do suposto califado – um pequeno amontoado de barracas improvisadas à beira do Rio Eufrates.

ISIS last stand
Milícias curdas e árabes apoiadas pelos EUA conhecidas como Forças Democráticas Sírias, ou FDS, disparam metralhadoras calibre 50 em alvos do ISIS fora de Baghouz, o último pedaço de território do Estado Islâmico. (Adam Desiderio para VICE News)

“Há crianças a morrer. Não há comida. Eles já não têm nada para nos dar”, diz à VICE News uma canadiana casada com um combatente do ISIS. “Eles [o ISIS] disseram que quem se quiser ir embora, se não aguenta mais, tem sinal verde para ir”.

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Milhares de famílias do ISIS deixaram Baghouz depois de se renderem às Forças Democráticas Sírias. Mais de 60 mil homens, mulheres e crianças do grupo terrorista fugiram de Baghouz nas últimas semanas. (Foto por Adam Desiderio para a VICE News)

Depois de semanas de bombardeamentos e tiroteios intensos, os últimos ocupantes do auto-proclamado califado em colapso chegaram ao corredor humanitário, exaustos e desnutridos. Muitos estavam gravemente feridos ou doentes, mas em grande parte não arrependidos e ainda radicalizados.

Em carrinhas de gado de caixa aberta sob temperaturas geladas, estas pessoas eram transportadas para um pedaço de terra do deserto sírio, destino para mais de 60 mil mulheres e crianças que se renderam nos últimos dois meses, um número muito maior do que as FDS esperavam. “Não conseguimos acreditar quantas pessoas ali viviam”, diz o comandante das FDS, Adnan Afrin. E acrescenta: “Foi uma surpresa para nós. Não sabíamos que havia tanta gente”.

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Tropas das FDS aquecem-se à fogueira numa base de operações avançadas fora de Baghouz. (Foto por Adam Desiderio para a VICE News)

Dentro do corredor, os homens eram separados pelas FDS e Forças Especiais Americanas para serem levados para a prisão. Mulheres e crianças recebiam comida e cuidados médicos de emergência antes de serem obrigadas a sentar-se e esperar, às vezes durante dias, para serem transportadas para campos de refugiados no nordeste da Síria.

“Fazia muito frio. As crianças não tinham nada para se aquecer”, recorda outra mulher, que abandonou o ISIS com um grupo de outras pessoas enquanto o marido ficou para trás para continuar a lutar. “Uma criança aproximou-se de mim e disse-me que os pais tinham morrido. Ela veio connosco e uma família aceitou-a”, conta.

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Uma mulher do ISIS carrega o filho ferido para uma barraca médica no posto de controlo no deserto sírio fora da localidade de Baghouz. (Foto por Adam Desiderio para a VICE News)

Passaram meses a viver em barracas e túneis sob Baghouz, com comida, água e medicamentos limitados. Mas, muitos acabaram por partir quando os bombardeamentos se tornaram demasiado intensos. Uma mulher iraquiana da província de Ambar descreveu a parte final da batalha como uma paisagem apocalíptica.

“Deixámos corpos carbonizados e casas destruídas para trás”, realça. E acrescenta: “Muitas crianças foram queimadas, feridas ou mortas. Todas as barracas arderam, todos os carros arderam. Muitas pessoas morreram”.

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Ataques aéreos da coligação apoiada pelos EUA a Baghouz, o último pedaço de território do ISIS. (Adam Desiderio para a VICE News)
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Uma imagem rara de dentro do último território mantido por militantes do ISIS em Baghouz, depois de as FDS reclamarem a localidade e declararem vitória. (Foto por Adam Desiderio para a VICE News)

Uma crise de refugiados repentina

Na semana seguinte à declaração de vitória por parte da coligação apoiada pelos EUA, cerca de 500 mulheres e crianças chegaram a al-Hawl, um grande campo de refugiados a seis horas de carro a nordeste de Baghouz.

Os refugiados do ISIS ali instalados são como que uma pequena janela para vislumbramos o alcance global do grupo terrorista – mulheres e crianças dos EUA, América do Sul, Ásia, Europa, Turquia, Indonésia, Finlândia e do Cáucaso chegaram ao acampamento nos últimos meses. Agora, é o maior campo de refugiados da zona, com cerca de 73 mil pessoas, incluindo mais de três mil crianças de famílias do ISIS, de pelo menos 43 países.

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Crianças de famílias pertencentes ao auto-proclamado Estado Islâmico fazem fila para receber comida e água num posto de controlo no deserto sírio fora de Baghouz. Muitas crianças chegaram doentes ou seriamente feridas. (Foto por Adam Desiderio para a VICE News)

Mais de 200 pessoas morreram ao tentar chegar aqui ou logo depois de chegarem, já que, de acordo com o Comité Internacional de Resgate, mulheres e crianças começaram a fugir de Baghouz e áreas ao redor em Dezembro de 2018. Dois terços das mortes foram de bebés com menos de um ano.

E o acampamento oferece os seus próprios desafios: o grande número de pessoas tem esgotado alimentos e recursos. Enquanto isso, a dinâmica local é tensa. Famílias do ISIS vivem lado a lado com não-crentes que foram deslocados devido à guerra civil síria e aos ataques violentos do grupo. Ou seja, os surtos de violência no local são cada vez mais comuns.

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Milhares de mulheres e crianças do ISIS, que deixaram Baghouz nos últimos meses, enfrentam um futuro incerto nos campos de refugiados. (Foto por Adam Desiderio para a VICE News)

Muitas mulheres do ISIS temem estar estigmatizadas para sempre. “Venderam-me um sonho”, afirma à VICE News uma canadiana que se diz arrependida de se ter juntado ao ISIS. E acrescenta: “Uma coisa que não sabia quando cheguei foi que não havia forma de sair. Eles não dizem que não se pode sair. Só queremos voltar para as nossas vidas nos nossos países e pagar pelos erros que cometemos. Não devemos ser vistas como pessoas que vão voltar para fazer mal”.

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Famílias do ISIS aguardam serem transportadas para campos de refugiados num posto de controlo no deserto sírio fora de Baghouz, depois de se renderem às tropas do FDS. (Foto por Adam Desiderio para a VICE News)

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