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Seria Justin Tranter o novo letrista mais requisitado da música pop?

Conheça o jovem por trás de alguns dos maiores sucessos radiofônicos de 2015, de “Sorry” do Justin Bieber a “Love Myself” da Hailee Steinfeld.

Justin Tranter com suas clientes Selena Gomez e Haille Steinfeld.

O criador de sucessos pop Justin Tranter precisa cancelar nossa entrevista – ele foi convocado para falar no evento de caridade promovido por Cyndi Lauper para adolescentes LGBTQ sem-teto. Além de sua dedicação de vida inteira à defesa dos direitos dos homossexuais e de uma carreira como um glam rocker underground, Tranter solta super sucessos para os pop stars mais famosos do mundo, como Justin Bieber, Britney Spears, Selena Gomez e Gwen Stefani. Sua banda de glam, a Semi Precious Weapons, abriu para Lady Gaga durante toda sua inovadora turnê Monster Ball e agora Tranter se viu novamente nas garras da música pop em mais um momento de transição: hoje é considerado “cool” gostar de Justin Bieber, Gwen Stefani se divorciou de Gavin Rossdale, Miley está com os Flaming Lips, e um dos Jonas Brothers está experimentando com o dance rock. Entãom nos perguntamos: o que está rolando?

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Os pop stars estão cada vez mais adotando uma nova versão de “normal”, se fiando em letristas como Justin Tranter, que os ajudam a se expressar de maneira desavergonhada, sem medo da vulnerabilidade. Justin Bieber dominou a lista das mais tocadas com “Sorry”, escrita em parte por Justin Tranter e sua frequente co-letrista Julia Michaels. A super dupla composta de Tranter e Michaels também é responsável por metade da transformação de Selena Gomez em uma cantora pop madura, com seu confiante novo disco, Revival. Finalmente se distanciando de Bieber e recomeçando do zero, a ex-estrelinha da Disney lançou o disco logo depois de revelar sua luta pessoal contra o lúpus, uma doença autoimune. Até mesmo Gwen Stefani chamou Tranter e Michaels para que a ajudassem a escrever “Used to Love You”, a resposta profundamente pessoal da cantora à sua separação de enorme publicidade.

Os exagerados hinos recheados de clichês dos últimos anos, como “What Makes You Beautiful”, do One Direction – uma música tão ridícula que é odiada até pela própria banda – simplesmente não convencem mais. As mídias sociais mudaram drasticamente a maneira de nos relacionarmos com os pop stars e nos fizeram ter novas expectativas de sinceridade. Então, quando esses cantores e cantoras imensamente famosos parecem abrir mão da falsidade e adotar um estilo mais pessoal, o ouvinte pode ligar os pontos entre o que está acontecendo em suas vidas pessoais e as letras de suas músicas (por exemplo, a “redenção” de Bieber, o divórcio de Stefani, Selena Gomez se despedindo dos haters com beijinhos). Com isso, diminui a impressão de serem produtos da cultura pop e aumenta a impressão de serem pessoas de verdade. Tranter entende perfeitamente esse desejo implícito.

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Falando de Los Angeles, nos Estados Unidos, pelo telefone, Tranter explica: “Com 'Sorry', estamos deixando que o maior pop star do sexo masculino em todo o mundo mostre sua vulnerabilidade. Com 'Love Myself', [de Haillee Steinfield], estamos deixando que uma jovem linda e inteligente seja independente e dona da própria sexualidade. Até mesmo em 'Good for You', que escrevemos para Selena Gomez, ela sabe o tanto que ela é maneira pra caralho. Selena é um diamante de 14 quilates, que ainda consegue ser dona da própria sexualidade no momento em que deseja dar prazer a uma outra pessoa.”

Ao dar essa felicidade para os fãs e descortinar o que está rolando por trás dessas músicas, o pop parece estar amadurecendo e botando os pés no chão. Mas, é claro, a coisa toda ainda tem que ser divertida. E é aí que entra Tranter. Conversamos com o letrista de sucesso sobre a nova direção que o pop está tomando, sobre a questão do gênero na música, e o que esperar de 2016.

Noisey: Opa, Justin! Você teve um papel mega importante por trás dos singles da música pop desse ano que acabou, mas falemos do que está começando. Para que lado vai o pop em 2016?
Justin Tranter: Essa é sempre uma pergunta muito difícil, porque pop é simplesmente o que é popular. Mas em 2015, quase mais do que nunca, o cruzamento entre gêneros e a mescla de gêneros foi extrema, lindamente extrema. Tudo meio que se encaixa nessa categoria gigantesca do pop, mas acho mesmo meio legal isso de que ele parece estar ficando mais sincero nas letras, falando mais do coração. E também as coisas, em termos de produção, parecem estar ficando bem mais “tranquilonas”, mas num bom sentido.

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Então você acha que as músicas pop estão ficando mais pessoais?
Acho. Veja “Good For You”, que escrevi junto com Julia Michaels e Nick Monsoon, para Selena Gomez; a gente, de maneira alguma, imaginava que viraria um single, muito menos que [a música] ficasse por três semanas no primeiro lugar das rádios. Porque ela é muito tranquilona, atmosférica. Achei que seria uma faixa incrível para o disco de alguém, tipo uma música muito especial, que definiria o som do artista. Quando Selena se apaixonou pela música e resolveu cantá-la, achamos que seria uma música atmosférica maneira para dar o tom do seu disco. Não “ah, isso aqui vai fazer muito sucesso”, sabe? Então eu acho que é um sinal muito bom da direção que o pop está tomando, isso de as estrelas e as gravadoras estarem abertas a correr riscos. Sinceramente, os fãs estão recebendo bem essa sinceridade, e essa vibe indie nas plataformas do mainstream.

E por que isso acontece, na sua opinião?
A música está sempre num processo de fluxo e refluxo. Houve uma grande época do pop chiclete, cuja criação demanda o mesmo nível de inteligência e atenção aos detalhes. Mas acho que com as redes sociais, de certa maneira é muito mais fácil explicar o que você está fazendo, e assim os artistas podem ter um canal de ligação direta com seus públicos imensos, para explicar suas perspectivas, seus modos de pensar. Acho que isso dá liberdade para que se corra um pouco mais de risco, porque é possível pensar tipo: “OK, em dois segundos posso contar a 45 milhões de pessoas, com uma única foto de Instagram e legenda, o motivo de eu ter escolhido esse visual e essa música e esse som”. Isso talvez esteja abrindo espaço para um pouco mais de ousadia.

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Você frequentemente trabalha em conjunto com sua parceira letrista Julia Michaels, que não só é muito mais nova do que você, como também vem de um background musical totalmente diferente.
Eu escrevo muitas músicas junto com Julia Michaels, e é uma colaboração muito legal a nossa, pelo fato de que eu tenho 35 anos e venho de uma banda de glam punk, e ela tem 22 e é uma obcecada por todos os cantores e letristas indie que passam pela sua frente. Então, juntos, nós viemos de lugares alternativos, mas de lugares alternativos muito diferentes um do outro. Eu venho do glam da década de 70, e ela do que está rolando nesse momento no underground dos cantores e letristas indie.

É tão interessante ver duas pessoas de backgrounds alternativos e diferentes um do outro chegarem ao topo dos rankings da música pop. Você acha que isso mostra uma mudança na indústria?
Sim, e também tem faz só uns dois anos que venho escrevendo para os outros. No Semi Precious Weapons, a gente tinha contratos para gravar discos e tal, mas você acaba conhecendo só uma ou duas pessoas, e são as com quem você trabalha diretamente. Mas agora, como escritor, você topa com todo mundo. Sempre tem essas histórias insanas de horror sobre como os chefões malvados das gravadoras odeiam qualquer coisa que seja muito cool, mas tenho sido muito feliz, agradavelmente surpreendido por todo mundo com quem trabalhei nos últimos tempos. E isso realmente permite que nós, escritores e produtores, criemos coisas que na nossa opinião são inovadoras, e isso é incrível, porque são os executivos que estão nos deixando fazer isso.

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Você está escrevendo músicas para astros com grandes personalidades, que são conhecidos por muita gente. Você alguma vez se aproveitou do que nós, enquanto fãs, sabemos sobre o que está acontecendo nas vidas pessoais dos artistas? Quando escreveu “Used to Love You”, com Gwen Stefani, era seu plano que fosse uma música sobre o divórcio dela?
Bom, no caso da Gwen, a resposta é muito fácil, porque escrevemos junto com ela. Gwen tem muita história como uma escritora incrível sobre assuntos pessoais. Ela não deixa que nem uma sílaba entre na música, se não for exatamente a história dela e a verdade dela. Então, nesse caso, a resposta é fácil. Estamos escrevendo lá ao lado dela, para ajudá-la a escrever sua vida, e a verdade dela. E no caso de todos os outros [artistas], como Selena, por exemplo, estivemos muito presentes na feitura do disco. Ela nos levou para o México. Queríamos escrever a verdade dela, e se você está escrevendo uma música e o artista não está presente, às vezes rola de fazer besteira, ao tentar pensar especificamente demais sobre o que ele talvez queira em termos de som e de letra. Se o artista não está presente, você provavelmente vai escrever algo que ele queria um ano atrás, o que ele queria no último disco. Então, em alguns casos, você escreve só porque tem uma ideia que acha incrível. E em outros, quando o contato com o artista é direto, pode criar uma coisa um pouco mais sob medida para ele — ou então você está realmente escrevendo junto com ele, e aí é ainda mais fácil acertar o alvo.

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Foi isso o que aconteceu ao escrever “Sorry” para o Justin Bieber? O pessoal dele deixou claro que era para ser um grande pedido de desculpas?
Não, de jeito nenhum. Com certeza não. Eu e Julia só escrevemos uma música que nós mesmos gostaríamos de ouvir. Então Julia e eu só escrevemos o que gostamos, de verdade. Josh Goodwin, o produtor vocal do Bieber e A&R do disco, tocou algumas faixas e pediu que escolhêssemos entre elas. Obviamente, Bieber escutou o que fizemos com ela, fez ajustes para que ficasse do jeito dele, e agora temos “Sorry”, que foi uma honra, e um momento desses que mudam a vida.

Você acha que essa tendência em direção à vulnerabilidade tem alguma coisa a ver com artistas da música pop em ascensão, como Miley, Halsey, Sam Smith e Shamir se mostrarem mais abertos sobre a própria sexualidade e sobre identidades de gênero?
Sim. Veja, estou num momento da vida em que sou orgulhosamente gay, gay de peito aberto, muito orgulhosamente feminino, porque existe essa coisa estranhíssima até mesmo na comunidade gay de reprimir a feminilidade! Quanto mais masculina a coisa for, melhor. Eu me sinto muito abençoado de poder fazer uma música que é tão mainstream, e ainda ser capaz de ser exatamente a pessoa que sou, e a pessoa que quero ser.

O ativismo é muito ligado às performances artísticas na comunidade LGBTQ. Como é bacana ver isso passar do underground total para a maior plataforma possível!
Né! Então, quando surgem oportunidades como cantar com a Cyndi Lauper para arrecadar dinheiro para os LGBT que passam pela experiência de não ter um teto, é claro que me sinto mais que honrado e empolgado, e minha cabeça explode, e telefono para os meus pais, chorando, para contar a oportunidade que apareceu. A oportunidade de fazer isso por meio da música pop.

Bryn Lovitt está no Twitter.

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