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Oito Discos e Um Filme Para Você Entender o Metal Alternativo

Colamos no Luiz Mazetto, autor de “Nós Somos a Tempestade”, e pedimos para ele indicar e comentar os álbuns mais representativos de cada vertente perfilada no livro.

Um dos mais intrigantes aspectos da cultura pop é sua complexa capacidade de absorver tudo aquilo que se opõe a ela e rapidamente transformar num enlatado. Numa simbologia esvaziada de sua essência. Isso aconteceu com praticamente todo tipo de subcultura, do mod ao punk, passando pelo techno e o rap. O peso do metal não o eximiu do infortúnio. Tanto, que não é muito difícil encontrar por aí exemplares pasteurizados de quase todas as vertentes do gênero. Digo “quase”, porque existe um certo tipo de resistência banger que os códigos da banalidade simplesmente não conseguem digerir.

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E é para essa contracorrente que aponta a radiografia que recheia o livro Nós Somos a Tempestade – Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA, do jornalista Luiz Mazetto, colaborador do Noisey – foi por aqui que publicamos as entrevistas dele com o Corrosion of Conformity e com o Clutch. Salta aos olhos o modo consistente, respeitoso e apaixonado com que o autor conduz e apresenta as mais de 25 entrevistas que compõem a obra. Mais um lançamento de fino trato da Edições Ideal, o trabalho chega com prefácio assinado por Nate Newton, do Converge, e uma bonita qualidade gráfica, tanto do ponto de vista da impressão como da tipologia e formatação dos textos, intermediados por cartazes de shows.

Este é o segundo título da Coleção Mondo Massari – o primeiro é a íntegra de uma entrevista com Malcolm McLaren, de 64 páginas, feita pelo próprio reverendo em 1995 e que virou uma HQ -, selo que, como o nome indica, conta com a curadoria do radialista Fabio Massari. “Este é um livro que eu gostaria de ter escrito”, declara o curador. “Nos últimos vinte e tantos anos, passei a me dedicar e literalmente pirar com essas bandas e a estabelecer, com boa dose de desorganização, conexões, teias e tramas para colocá-las num mesmo mapa. Este livro organiza tudo isso.” Precisa dizer mais?

Na tentativa de dar uma noção do panorama coberto pela empreitada, colocamos o Mazetto na delicada incumbência de escolher e comentar um álbum representante de cada escola do metal perfilada ao correr das 272 páginas. E ainda tem uma dica cinematográfica na parada. Cata só as indicações e comentários dele e marca na agenda: o lançamento rola neste sábado, dia 4, na Locomotiva Discos da Teodoro, em São Paulo.

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Precursores

- Neurosis – Souls at Zero (1992)

“O My War (1984), do Black Flag, e o Gluey Porch Treatments (1987), do Melvins, são essenciais para o metal alternativo dos EUA, mas o Souls at Zero (1992) é um marco igualmente importante para essa cena. Não só por significar uma ruptura da pegada mais hardcore do Neurosis, como por praticamente criar aquele som característico dos caras e que influenciou tanta banda por aí nas décadas seguintes.”

Sludge

- Eyehategod – Take as Needed for Pain (1993)

“Aqui vou seguir a fórmula do sludge e não inventar moda. Apesar de o Buzzov-en, com o Sore, e o Grief, com o Come to Grief, ambos de 1994, conseguirem representar o que há de melhor no estilo, ainda está para ser gravado um disco mais imundo, feio, provocador e cheio de microfonias como o segundo trabalho do EHG.”

Pós-metal

- Isis – Oceanic (2002)

“O Isis era apenas uma banda que tinha muita influência do Neurosis, entre outras qualidades, obviamente, até lançar esse verdadeiro colosso musical. Os vocais guturais passaram a dividir espaço com vozes mais limpas, enquanto que as guitarras pesadas e distorcidas também deixaram de ser maioria, muito pela influência cada vez maior do pós-rock. E assim nascia o som clássico da banda, que passou a experimentar ainda mais nos álbuns seguintes.”

Sludge Progressivo

- Mastodon – Leviathan (2004)

“Após uma estreia com os dois pés no peito com o Remission (2002), o Mastodon conseguiu mostrar uma evolução absurda em pouquíssimo tempo com o Leviathan, que adiciona diversos elementos novos à fórmula do disco anterior, incluindo influências diversas, alguns (poucos) vocais limpos e a então inédita participação de convidados, como Neil Fallon, do Clutch, e Scott Kelly, do Neurosis, que virou quase um quinto membro da banda de Atlanta a partir daí.”

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Hardcore Torto

- Converge – Jane Doe (2001)

“Essa é provavelmente a escolha mais difícil. Isso porque nessa mesma época, entre o final dos anos 1990 e começo dos 2000, tanto o Converge quanto o Botch e o Dillinger Escape Plan, estavam lançando discos extremamente marcantes e, por que não, revolucionários para o hardcore. Mas o Jane Doe é o que parece ter envelhecido melhor, além de ter basicamente mostrado o caminho para o quarteto de Boston seguir sua mistura insana de metal e hardcore como ninguém.”

Stoner/Doom

- Saint Vitus – Born Too Late (1986)

“Apesar de o NOLA (1995), do Down, ser um discaço, seria muito clichê escolhê-lo, além de uma possível injustiça quando você tem o Saint Vitus na mesma lista de bandas. Por isso, escolho o Born Too Late, primeiro trabalho dos reis do doom dos EUA com o Wino arrebentando tudo no vocal.”

Já Fomos Hardcore

- Cave In – Jupiter (2000)

“O mais óbvio aqui seria escolher algum disco do Corrosion of Conformity, como o Animosity, precursor do crossover, ou mesmo o Deliverance, do auge da fase stoner. Por isso mesmo, vou pegar uma banda que “ninguém liga”: o Cave In. É um disco menos pesado deles, o Jupiter, em que eles começaram a deixar o hardcore mais de lado e a apostar num METAL ESPACIAL (assim mesmo, em caixa alta).”

Noise/Experimental

- Today is the Day – Willpower (1994)

“Impossível ouvir esse disco, com seus riffs e ritmos quebrados e intrincados e vocais limpos misturados aos gritos do maníaco Steve Austin, e não pensar na hora que bandas como Mastodon e Dillinger Escape Plan talvez não estivessem aí, pelo menos do jeito como as conhecemos, sem o segundo e seminal disco do Today is the Day.”

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No Cinema

- Blood, Sweat and Vinyl

“Gosto muito dos dois filmes que entraram no livro [nota do repórter: o outro é Such Hawks Such Hounds], mas o Blood, Sweat and Vinyl é meu favorito. Uma das suas qualidades está em focar sua abordagem em apenas três gravadoras, Neurot, Hydra Head e Constellation, e seus modus operandi fora do padrão. Com um visual impecável, o documentário traz entrevistas e trechos de shows de bandas como Neurosis, Isis, Godspeed You! Black Emperor, Cave In, Oxbow, Converge, entre outros nomes essenciais do metal alternativo. Imperdível!”

+ info:

Lançamento: Nós Somos a Tempestade

Tarde de autógrafos com Luiz Mazetto e Fabio Massari.

Locomotiva Discos – Unidade Teodoro

R. Teodoro Sampaio, 763 – Loja 3, Pinheiros. SP. Sábado, 4/10. A partir das 14h.