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Por que me Sinto Culpada por Curtir um Show Gastronômico do Ed Motta?

Uma aula de bom gosto, refinamento pop e aceitação pós-polêmica babaca nas redes sociais.

Todas as fotos por Felipe Larozza.

Ceviche, pato assado com purê e panetone grelhado com sorvete. Foi esse o cardápio servido no show que o Ed Motta fez em São Paulo no último dia 17, num espaço chamado Terra da Garoa, um antigo teatro no centrão da capital paulista localizado bem ao lado de uma ocupação. Aliás, se você esteve na internet nos últimos 15 dias, viu todo o furdunço causado por uma declaração do músico carioca, ao dizer que em sua turnê pela Europa ele não falaria em português nas apresentações. Essa, inclusive, foi a última apresentação que Motta fez no Brasil antes de embarcar para o velho continente. O show que faria no sábado, 19 de abril, em Porto Alegre, foi cancelado depois de o cantor se dizer “muito abalado” com a polêmica.

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Posto o geralzão da coisa, estamos de volta à Terra da Garoa. Sexta-feira, dia 17 de abril. Nove da noite. Lá estavam o músico e o seu zeitgeist. Explico: o show de Ed Motta não era apenas um show. A noite ia além da música em si até porque aquela apresentação havia sido vendida como uma “experiência única no Brasil”, na qual, além da apresentação, você ainda poderia curtir um jantar completo. Quer dizer, com um só ingresso você podia:

a) Ouvir o autor de “Manoel”.

b) Desfrutar de toda a sofisticação na qual a música de Ed Motta costuma estar embalada.

Vale mencionar que o menu do jantar foi escolhido pelo próprio Ed Motta. Não vou me alongar falando que a “experiência única” não era única porque o 150 Night Club, que funcionava dentro do Maksoud, fazia isso há, sei lá, uns 30 anos. Mas vamos aos fatos: eu sequer encostei na comida servida na Terra da Garoa – o jantar estava reservado apenas para o pessoal que pagou os R$ 140 cobrados da “experiência única”. A imprensa ficou em um lugar separado e quando percebi que pouco (ou nada) daquela noite poderia ser sentido do cercadinho dos jornalistas, resolvi zanzar pelo lugar.

Resolvi acompanhar a sexta à noite de divertimento dos outros. Casais, famílias, grupos de amigos. Funcionários públicos, bancários, autônomos (profissões das pessoas que ouvi para fazer esse relato) e outros formavam a plateia – que não lotou a casa. Quem foi até lá – muitos com ingressos comprados antes da polêmica – parecia estar alí por uma razão: ouvir a melhor música e comer a melhor comida.

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É aí que entra o espírito do Ed Motta na parada. O gastrônomo, sommelier e colecionador de discos, consome e divulga em suas redes sociais essas coisas maravilhosas que a vida nos proporciona com ajuda de algum dinheiro. Ter acesso à melhor comida, a melhor bebida e a melhor música é bom. Afinal, você trabalhou por isso, portanto gasta o seu dinheiro como quiser e se for em busca do que é tido como melhor e sofisticado, qual é o problema?

As pessoas da plateia não estavam ali porque aquela era a única chance de ver Ed Motta ao vivo. Eles estavam alí porque a música de Ed Motta iria embalar a noite única que haviam comprado com direito a um bom jantar e, se pá, algumas fotos para o Instagram. O comentário de um rapaz da plateia exemplifica: “Você come umas paradas foda, toca umas coisas foda, você é foda,” disse ele ao Ed Motta. As loas proferidas ao seu ídolo resumiam a ânsia do espectador em partilhar com seu mestre todo o orgulho de fazer parte daquele ambiente.

Nosso interlocutor estaria errado? Por quê? O espírito daquela noite era exatamente o de negar as coisas ordinárias da vida. A cerveja no boteco ou a pipoca no cinema. Aquela foi uma noite única, em que foi possível para muitos ali ter acesso à boa vida, à curtição elitizada. E não sou eu que vou dizer que isso é uma merda. Com um jantar completo e uma garrafa de vinho eu também teria achado o show do Ed Motta ainda melhor.

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A matéria continua abaixo.

Nas minhas andanças pela Terra da Garoa, encostei no balcão enquanto o fotógrafo fazia fotos do drinque que levava o nome do espaço. Vodca vanila, cointreau, curaçao blue e água de coco, um drinque perfumado demais para o meu gosto e servido em copo de Martini. Eu e Larozza, sem jantar, dividimos o drinque para provar o pouco que podíamos da tal experiência única.

Infelizmente o drinque estava horrível.

O tempo todo eu quis curtir. E falo isso porque contei com orgulho para amigos que iria cobrir o show do Ed Motta com direito a me refestelar com o jantar cujo menu havia sido escolhido pelo próprio músico. Ainda assim, a todo momento, eu não queria achar que tudo aquilo que via era legal, era divertido, era agradável. Como curtir um espetáculo feito por um artista que escreve nas suas redes sociais uma pá de comentários equivocados? Como dividir Ed Motta em músico e pessoa? Uma coisa não está dissociada da outra. Acho.

A minha angústia aumentou. O que Ed Motta fala nas redes depõe, ou não, contra ele? Você pode achá-lo um babaca por isso. Eu acho. Mas essas mesmas declarações podem depor contra a música de Ed Motta? Pra mim, não. Isso porque “Manoel” não ficou pior (ou melhor) depois de todo trelêlê das redes – que me parece mais uma bela estratégia de mídia espontânea.

Nas duas horas de show o que se viu e ouviu foram hits. Músicas que eu, você e todos nós conhecemos de ouvir no rádio, fazem parte da nossa vida de alguma maneira. Música boa, com uma pegada jazzie aqui, uma levada blues ali, feitas, muitas vezes, em parceria com nomes fortes da música brasileira. Cantarolei muitas canções como “Fora da Lei” e “Baila Comigo”, que Motta fez com a Rita Lee, e outros sucessos como “Vamos Dançar” e “Colombina”. Mas não vou esticar chiclete de resenha de show.

Nos finalmentes, não comi jantar, não tomei vinho, mas deu para entender que Ed Motta estava lá encarnando o guru da classe média. Você pode até passar um pano nas groselhas que ele diz, contanto que viva sua experiência única e curta uma boa música. Por que não?

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Carla Castelotti está no Twitter - @lacastellotti