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O Swans Dá Aula de Rock aos Sessenta Anos

Depois de um show violento, trocamos uma ideia com o Michael Gira pra entender o que motiva o Swans a continuar lecionando seu art-rock pra nova geração.

Recentemente, o Swans, uma banda experimental de art-rock, tocou no Le National em sua passagem por Montreal, na turnê do novo e brilhante disco To Be Kind, que foi lançado em maio, fazendo grande sucesso de crítica. Sendo parte da geração que compõe a nova fornada de fãs do Swans, o show foi um chutaço na cabeça, o que é uma maneira surda de dizer que o estilo violento da banda de bater um No-Wave experimental eufórico foi impressionante de uma maneira que outras bandas de hoje em dia não são. Não melhor. Apenas diferente.

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Depois do show, com o ouvido apitando, entramos em contato com Michael Gira para tentar descobrir o porquê, mas também para tentar discutir o que o havia motivado, e ao seu bando de desajustados, a percorrer o globo fazendo isso com a galera, década após década.

Noisey: O show que eu vi foi uma experiência bastante envolvente, e dando uma olhada no catálogo de vocês, um fio condutor que está sempre lá parece ser a preferência por experiências extremas em detrimento das canções per se. Nos anos de formação, você chegou a entrar em contato com esse tipo de arte ou experiência performática em meio a todo o tipo de coisa punk que estava rolando e pensou… 'sim… isso… é nessa direção que eu tenho que ir…'
Michael Gira: Bom, sendo sincero. Foi tudo intuição desde sempre, para falar a verdade mesmo. Não foi uma decisão intelectual ou estética, foi apenas trabalhar com as pessoas que trabalho, com os sons que eu gostava, e meio que guiá-los em direção a algum tipo de experiência extrema e avassaladora. Mas não chegou a ser nem mesmo algo que tomei como objetivo, era só o que me satisfazia. Acho que sou muito de me basear na experiência, e gosto de simplesmente ser absorvido ou completamente engolido por uma experiência extrema, e pelo som. O que provavelmente vem dos meus velhos tempos como hippie psicodélico, na minha adolescência, os anos 60 basicamente, e, sabe como é, tomar as mesmas vitaminas que todo mundo tomava também.

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Porque muitas vezes botam você no meio das cenas punk e pós-punk daquela época, mesmo que eu te veja constantemente negando com a mão, e dizendo que você estava mais para o esquema do Throbbing Gristle.
Sim, bem, eu me identificaria mais com eles, com certeza. O lance é que usamos instrumentos de rock, entende? Eu adoro a obra e a música do Genesis (P-Orridge), e ele é um amigo – não amigo íntimo – mas ele também é um herói para mim, toda a maneira como ele encara a vida, a vida como um tipo de acontecimento maleável, uma aventura pessoal de descoberta pessoal, não importa quais fronteiras você cruze no caminho. Ele é bastante excepcional. E talvez eu tenha gravitado até eles por esse motivo, porque eu meio que quis ir naquela direção musicalmente nos velhos tempos. Sonicamente acho que não parecemos com eles de jeito nenhum, mas há tipo uma intenção parecida, acho.

Parece que na verdade você não tinha muito a ver com as cenas punk da contracultura que estavam com tudo naqueles dias. Isso foi porque você via a natureza da coisa como sendo só uma outra forma de conformismo – ao contrário do TG – quase que do início?
Bem, sim, bem rápido virou isso mesmo. O punk que eu gostava – não sei se dá para chamar de punk – nos velhos tempos eram coisas tipo Patti Smith & Television e as bandas britânicas como Wire – acho que os mais imediatamente pós-punk? Preferia esse tipo de coisa. Participei da cena punk em LA, mas logo passei a ver a coisa como artificial e conformista. Punk semi-hardcore, e punk, e todas aquelas outras coisas que vieram rapidamente depois do punk original, para mim não passavam de caricaturas, falando a verdade.

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Sem tentar psicoanalisar, mas li que nos anos 60 você passou muito tempo viajando pela Europa, transando as mencionadas "vitaminas", andando com hippies pesados, e acabou passando o aniversário de 16 anos numa prisão para adultos de Israel em 1969. Enquanto isso, a maioria dos garotos americanos da contracultura da sua geração estavam provavelmente em Woodstock ou na Sunset Boulevard, fazendo ioga e tomando LSD. Estou curioso se esse tipo de experiência hippie paralela talvez tenha formado suas visões sobre a rebeldia e a contracultura de alguma maneira, no retorno aos Estados Unidos. Ou estou viajando?
Bom, acho que você está viajando um pouco. Mas certamente estar na cadeia, e tão longe da minha casa, formou a minha visão do mundo de uma maneira fortíssima, e na minha vida, de certa maneira, foi um negócio muito especial, porque ressaltou muito a urgência de viver de acordo com as próprias aspirações, e também a urgência do tempo. Porque uma vez que você fica preso numa cela, o tempo é tipo um objeto físico ou coisa parecida, e você realmente toma consciência de como ele é importante.

Tendo tocado com o Swans e feito esse tipo de trabalho por tanto tempo, durante épocas e períodos de tempo imensamente diferentes, e agora tendo conseguido reavivar o grupo para fazer mais, você percebe alguma diferença entre os públicos dos anos 80 e 90, se comparados com as pessoas que aparecem hoje em dia? Em que sentido as coisas são diferentes, se é que são mesmo?
Sim. Eu acho que por causa da internet as pessoas estão mais informadas do que vão experimentar, ou têm uma compreensão mais íntima do tipo de show ou experiência que somos capazes de criar. Hoje é mais fácil chegar ao nosso público verdadeiro, em vez daquelas poucas centenas de pessoas que decidem aparecer, que podem ou não compreender o que estamos fazendo, que era o que acontecia antes. E acho que por causa disso, as respostas do público hoje são muito mais íntimas e favoráveis. Nem penso na coisa em termos de aplausos ou gente dizendo "você é muito bom", mas eles estão interessados mesmo na experiência, igualzinho nós estamos, então querem mesmo estar lá.

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Enquanto que nos anos 80 e 90, tinha muita hostilidade e choque e essas merdas todas, entende? O que não é a minha praia mesmo. Muita gente que não entendia a coisa, aparecendo nos shows, achando que tinham entendido, e sendo agressivos. (NdoE: Gira notoriamente atacou headbangers e outros agressores em shows.) Então é legal sentir que tem gente bem informada e que quer o que nós podemos oferecer, e quer estar dentro do mesmo ciclone de som em que estamos.

Então, quando vocês se separaram no final dos anos 90, além do seu Angels of Light (projeto solo) indo pra frente, a coisa se deu porque você sentia que o projeto estava sendo mal interpretado e rotulado como algum tipo de shock rock sombrio e violento, de modo que você não quis mais se dar ao trabalho?
[Risadas] Bem. As razões para a separação foram muitas. Provavelmente uma delas foi a exaustão física, porque acho que não tirei nenhuma folga durante quinze anos, desde o início do Swans. Eu não tirei folga nenhuma, ou férias, só trabalhei o tempo inteiro, vinte e quatro horas por dia. Era só para isso que eu vivia, era o trabalho da minha vida, e a coisa nunca trouxe uma remuneração financeira significativa, então foi necessário trabalhar mais duro do que todo mundo na porra do negócio inteiro, isso só para poder continuar. E acho que passados 15 anos assim eu estava simplesmente exausto, mental, espiritual, física e psiquicamente.

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Mas sim, a outra coisa é que o Swans parecia um beco sem saída, em relação a como éramos percebidos. Eu nunca conseguia me livrar daqueles estigmas imbecis. Até hoje não consigo, aliás. Mesmo quando fiz o Angels of Light, era um incômodo permanente. E mesmo hoje há as preconcepções também. Especialmente na imprensa britânica, eles ainda enfatizam o volume, e a escuridão e a violência e esses tipos de coisa, o que eu acho um tremendo dum clichê.

Mas estou curioso, porque parecido com o que você diz sobre a imprensa, você sabe que o legado do Swans é associado com a criação do grindcore e…
Ughh! Não, caralho! [Risadas] ugh…

… noisegrind e um monte daqueles tipos de gêneros de nicho. Você aceita bem isso?
[Risadas] Eu gostaria muito de ir para a guilhotina se fui responsável por isso, mas não fui. Mas acho que se trata só de algumas pessoas – ou a imprensa – interpretando certos aspectos da música, pegando ela e a transformando em algo estúpido mesmo.

Você acha que isso acontece porque as pessoas isolam elementos superficiais em vez de decidir examinar a coisa como um todo?
Bom, sim, porque o som do Swans, a nossa essência, desde o início tem mudado, e mudado constantemente. Essa é a constante. Então talvez músicos diversos sejam influenciados por períodos específicos da nossa história, mas acho que posso dizer que nunca ouvi ninguém fazer música supostamente muito influenciada por nós em que eu encontrasse qualquer qualidade, então…

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Quem, se é que alguém, você enxerga como seus contemporâneos hoje em dia? Ou você ainda se encontra numa posição ímpar, à margem?
Bom, tem certas bandas que eu admiro [ele menciona The Necks, Carla Bozulich], mas quanto a quem seria nosso contemporâneo… você quer dizer entre os anciões? [Risos] A geração geriátrica de bandas? [Risadas] Não sei. Bem, nós sempre declaramos que nunca encaixamos mesmo em categoria nenhuma. Nunca nos sentimos verdadeiramente parte de uma cena ou tivemos qualquer senso de comunidade com outros músicos.

Como que é a atmosfera em volta de ser um artista independente em atividade no ano de 2014, em comparação com a época em que você começou? É mais difícil, fácil? As cenas independentes parecem mais equilibradas e interessantes, ou você diria que as coisas hoje são meio paródicas, e eram melhores vinte anos atrás? Ou diferentes só?
Olha, vou te dizer o seguinte: sempre foi difícil pra caralho. Se você faz uma música que está destinada a não ter muita popularidade, sempre é difícil. Você precisa arranjar algum jeito de sobreviver. Certamente não tenho conselho nenhum a dar sobre como fazer isso para os jovens. É meio que por definição um projeto sem esperanças, na verdade [Risos] mas… o que você acha da cena independente de hoje? Eu não acho nada. Nunca achei. [Risos]. Quer dizer, gosto da música de certas pessoas que estão por aí, música que eu respeito, e outras não, e meio que sempre foi desse jeito mesmo.

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Mas agora, ao angariar novamente o sucesso da crítica para o Swans, com o novo material de The Seer (2012), e depois ir mais além com o disco seguinte, To Be Kind (2014), você declarou que tinha certeza que gostaria que fosse material novo, e que não ia ficar tocando os velhos "hits" nos shows. Você sentiu que fazer isso seria uma contradição com o que é o Swans? Porque é quase como se você dissesse: "se você está vindo aqui pra ouvir as músicas das antigas, então não entende de verdade qual é o lance do Swans."
Bom. É como eu disse. Acho que as pessoas agora sabem que estão vindo para ter uma experiência que é única, e não a réplica de outra coisa, e é isso que está acontecendo agora. De início houve um pouquinho disso depois de The Seer, mas parou logo.

Mas houve alguma tentativa de se afastar dos estigmas da banda que mencionamos acima?
Não, bem, sim, claro, com certeza. Mas também eu não conseguiria me sentir autêntico tocando aquele material, entende? Da maneira que eu trabalho, seria tipo um terno que não te serve mais. Você é uma pessoa diferente.. Para nós, a gente está tocando as antigas nos shows, tocamos uma música do Seer ("The Apostate"), que pra nós é tipo antigona, e tem tipo um ano de idade. [Risos] E estamos tocando algumas coisas do disco novo, o que é incomum para nós, mas é só que não tive tempo ainda para completar a criação de conceitos para músicas novas. Mas estou com esperanças de que, nos próximos dezoito meses do ciclo da turnê, vamos trabalhar em mais material novo, e deixar o mais velho para trás.

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E agora, com a nova formação do Swans, você recorreu, por necessidade, a essa abordagem kickstarter/ crowdfunding, para gravar as músicas que quer, porque não há recursos para gravar só com o dinheiro da venda dos discos. Isso mudou de alguma forma a dinâmica com o público, ou a maneira que você lida com a gravação? Tem algum lance de você pensar "caralho, melhor eu caprichar nisso aqui, porque agora teve essa galera que pagou e está pondo fé no negócio" ou essa simplesmente não é a sua maneira de pensar?
Bom. Modéstia à parte, eu diria que nós da Young God Records, Angels of Light ou Swans, meio que inventamos a ideia do kickstarter em 1999/2000, ao fazer CD's à mão e lançá-los pela internet especificamente para o nosso público, de modo a arrecadar dinheiro para o disco seguinte, e a resposta que tivemos nesse sistema sempre foi muito entusiasmada. E é isso que tenho feito desde sempre, talvez mais esporadicamente, porque agora com o Swans é completamente necessário, já que fazer esses discos custa muito caro, e as vendas de discos hoje em dia estão anêmicas, de modo que é a única opção que resta. Mas felizmente o público cresceu o suficiente para podermos fazer e enviar mil ou duas mil das cópias [financiadas pelos fãs] e levantar dinheiro que permita, ao menos em grande parte, financiar um disco. Não muda nada, exceto que o trabalho braçal não é pouco, toma muito tempo e às vezes pode ser esmagador.

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Sobre a composição das músicas. Com o Swans, acho que muita gente não percebe que a maioria das faixas – mesmo como a nova e intensa "Oxygen" – são na verdade faixas acústicas solo que depois são trabalhadas pelo grupo.
Sim. A "Oxygen" é um exemplo. Eu toco a guitarra com meu polegar, fazendo aquele som tipo de baixo, e então eu cheguei a um acorde ou ritmo dentro dele, que depois foi trabalhado. Mas sim, a maioria das músicas é composta acusticamente, e então trabalhada ou ao vivo ou no estúdio.

Li recentemente numa entrevista que há não muito tempo você estava isolado numa cabana, longe de tudo, e escarrou alguma coisa, e começou a engasgar seriamente, a ponto de quase desmaiar, e achar que ia morrer, e então começou a se jogar no chão numa tentativa de deslocar o que estava preso, e a coisa acabou dando forma a uma música. Essa música foi a versão final de "Oxygen"?
Sim. [Risos]

Assustadoramente, é justo isso que a música parece.
Isso foi muito… Não diria que transformador, porque assim que acabou, tudo, a vida, voltou tipo ao seu nível mundano, mas durante pelo menos aquele momento, houve tipo uma consciência intensa da mortalidade, e de que se eu não fizesse alguma coisa, seria o fim da linha. Então eu fiz.

Depois que isso aconteceu, você voltou para o estúdio e falou tipo "Olha, galera, aquela música ‘Oxygen’, ela está mudando."
[Risos] Não, não, não. Foi mais uma progressão natural.

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Uma das coisas que eu amo nos discos, e em como vocês lidam com eles, é que o Swans parece ter uma determinação de pedra. Sabe, para o bem ou para o mal, vocês têm algumas ideias, tomam algumas decisões difíceis quanto a ir gravar rápido, lançar e depois simplesmente passar para a próxima. Mas isso requer um certo nível de confiança. Essa atitude alguma vez dá um certo medo, se a repercussão do que vocês lançam não parece das melhores, ou essa é a única maneira que vocês sabem trabalhar?
Bom, sim. É engraçado você dizer isso, porque a minha mulher, uma coisa que ela sempre diz que gosta em muitas das bandas e discos favoritos dela, é que eles não são tímidos. Não ficam de frescura. E acho que essa é uma qualidade à qual aspiro, e que estava presente em muitos dos meus heróis. Mas tem também que muitas vezes não suporto mesmo escutar o que eu acabei de fazer, porque enquanto fazia escutei um milhão de vezes. Então sigo em frente e pronto. Mas no geral gosto de trabalhar duro também, então…

Tendo feito esse tipo de arte experimental por tanto tempo e nessa intensidade, você não está completamente fodido e cansado, na sua idade (60)? Porque eu cheguei no show sóbrio, fiquei bem na frente, e no dia seguinte estava fodido, e só fiquei na plateia parado em pé.
Cada osso. Cada músculo. Cada tendão. Cada nervo no meu corpo dói constantemente. [Risos]

Certo…
Falando sério! [Risos] Levantar da cama já é difícil pacas, mas também é, o momento, eu lembro de Montreal – aquele na verdade foi um dos nossos melhores shows de todos os tempos – e ser habitado por, o nome que você quiser dar, os deuses do som, por esse intervalo de tempo é, para mim, parte do motivo de eu existir mesmo. Então sim, vale a pena.

Depois de um tempo você entra em algum tipo bizarro de estado de transe para conseguir continuar a turnê? Não estou tentando intelectualizar, mas estados como esse ocorrem naturalmente, quando se está lá noite após noite, por vários meses seguidos.
Bom, sim, porque para mim é também um tipo de jornada espiritual, não em qualquer sentido new age, mas é meio como meditar. Você chega uma certa região, e está conectado com o universo, e acho que quando a música chega ao ápice em termos do que tem a oferecer, é meio isso o que acontece também.

Bom, obrigado pelo trabalho. Uma última pergunta: vi um cover de “Under Pressure”, do Bowie, feito pelo Xiu Xiu, que credita você como vocalista. Isso é verdade ou é algum tipo de reclassificação livre da internet?
Sim, claro. Foi só uma diversão com o Jamie [Xiu Xiu]. Certas pessoas me chamam para fazer coisas, e às vezes elas são bem patetas, mas estou pouco me fodendo. São amigos, faço qualquer coisa. Achar que eu não faria é igualzinho àquelas preconcepções sobre o Swans que falamos antes. Mas sim, é de verdade, sou eu.

Fotos: cortesia de Ben Stas.

Steven Viney é um jornalista que vive em Montreal. Ele está no Twitter.

Tradução: Marcio Stockler.