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Para o Morrissey, Recorrer ao Crowdfunding É uma Atitude Desesperada e Insultante

O ícone indie destilou seu veneno numa entrevista concedida ao jornal espanhol El País.
29.4.15

(imagem via)

O Morrisey assumiu uma postura meio estranha nos últimos tempos, não acham? Ele é tecnicamente um artista independente, mas conseguiu esgotar ingressos para quatro noites consecutivas no Sydney Opera House agora no final de maio. E enquanto um sexteto mariachi presta tributo a ele sob o nome de Mexrrissey, ganhando manchetes na internet por existir e ser um tanto bom, o Morrissey de verdade está disseminando furtivamente suas opiniões públicas escondido dos radares ingleses por meio de entrevistas publicadas em outras línguas. A mais recente? Foi um bate-papo com um jornal espanhol. Sua tacada? Maldizer o esquema de financiamento coletivo.

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Na entrevista ao El País publicada no começo da semana, Morrissey disse a respeito das bandas que recorrem ao crowdfunding: “Isso é uma medida desesperada, um insulto ao seu público. Nós já ganhamos dinheiro o suficiente. O que mais podemos pedir? Que escovem os nossos dentes?”

Temos aqui mais um fenômeno ícone-da-música-envelhecendo-que-gosta-de-dar-opinião-nas-questões-contemporâneas do tipo que não ajuda em nada mas que te faz pensar: “Bem, mas pra você é fácil falar isso”. Como quando Thom Yorke amaldiçoou o Spotify e encorajou todo mundo a fazer as malas e se mudar para o Bit Torrent. Isso é um ponto de vista privilegiado que afunda qualquer artista que ainda não goze de uma reputação global, de alguém com uma discografia que ainda rende lucros e a habilidade de esgotar ingressos de shows. E a verdade é que, se o Morrissey me pedisse para escovar os seus dentes, eu definitivamente faria isso, só pela história. Imagina a cena no banheiro dele. Cara a cara com Moz, a pasta de dente escorrendo da sua boca, um olhando dentro do olho do outro. Seu gargarejo melódico ecoando um comportamento ordinário. Só eu, Moz, e um tubo de Sensodyne.

Falando sério, o crowdfunding é mesmo uma ferramenta “desesperada” e um “insulto” para um público que tem opinião para escolher colaborar ou não com um projeto independente? Enquanto os maiores artigos sobre crowdfunding sempre acabem falando que o TLC conseguiu US$ 430.000 ou que o Megadeth está lançando um fundo de arrecadação, isso não elimina o fato de que uma enorme quantidade de artistas desconhecidos vem usando a plataforma eficientemente. Sim, suas vantagens podem incluir com frequência umas paradas zoadas tipo “doe R$ 20 e tome um café com o nosso baixista”, ou “doe R$ 50 e receba o EP 48 segundos antes de todo mundo”. Mas, apesar dessas coisas, isso ainda ajuda os artistas – que definhariam e morreriam se tivessem que contar só com seus shows locais em Osasco – a reunir suas bases de fãs espalhadas por todos os cantos numa só ação, que é financiar seu próximo trabalho ou qualquer outra coisa.

Talvez o ataque de Morrissey tenha sido direcionado aos grandes nomes, como o TLC ou o De La Soul, que estão arrecadando notáveis pilhas de dinheiro de seus leais seguidores e possuem longas carreiras pelo caminho. Mas mesmo assim, pelo menos todos esses projetos garantem que os artistas realizem um produto verdadeiro sem ter que se submeter ao crivo de um selo ou qualquer ressalva comercial, recorrendo apenas no apoio dos fãs que ainda se importam com a existência deles. Isso até facilita a produção de coisas que receberiam um balde de água fria de um executivo de selo, como o remix com gatos do Run The Jewels ou o livro de arte da Amanda Palmer.

O último álbum do Morrissey, de 2014, World Peace is None of Your Business, não foi exatamente um sucesso comercial, e uma treta com o seu selo, Harvest, resultou em três semanas de atraso no lançamento e a consequente quebra de contrato logo na sequência. E, apesar desse tipo de comentário, existe provavelmente uma horda de fãs acompanhando o Morrissey, torcendo por um novo álbum, procurando por novidades no crowdfunding, e depois voltando os olhares para Morrissey e seu sorriso fresco e limpo e pensando, “fica de boa, amigo, deixa que a gente banca você.”

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