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Conversamos com Killer Mike Sobre seu Inflamado Discurso em Ferguson

Durante a folga de uma turnê do Run the Jewels com El-P, Killer Mike assistia ao noticiário no backstage. Ao ouvir o veredito, ele se largou sobre os braços de sua esposa e começou a chorar.

Na segunda (24) à noite, enquanto o mundo voltava seus olhos para Ferguson, o grande júri anunciou que não indiciaria o policial Darren Wilson por atirar e matar um adolescente desarmado chamado Mike Brown. Depois, durante o discurso do Presidente Obama ao restante dos EUA, a revolta se instaurava em Ferguson – carros e prédios foram incendiados, janelas foram quebradas.

Em cidades por todo os Estados Unidos, as pessoas tomavam as ruas. Em Nova York, Chicago, Seattle, São Francisco, dentre outras, o povo entoava “mãos para cima, não atire!” como uma forma de homenagear Mike Brown, morto aos 18 anos de idade.

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Killer Mike, que por acaso estava em St. Louis durante a folga de uma turnê do Run the Jewels com El-P, assistia ao noticiário no backstage. Ao ouvir o veredito, ele se largou sobre os braços de sua esposa e começou a chorar. El-P chegou e lhe deu um abraço. Ele não sabia o que fazer. Normalmente, a dupla subia ao palco ao som de “We Are the Champions”, do Queen, mas na segunda-feira (data que também marcava seu aniversário de casamento), Mike disse: “Eu não me sentia como um campeão”. Tanto sua esposa quanto El lhe encorajaram a falar um pouco sobre o acontecido. Ele não sabia o que iria dizer. Mas o disse mesmo assim. “Só subi no palco e falei a verdade”.

Pela manhã, o discurso havia viralizado. “Quando ele estava no palco, sua voz falhou por conta do cansaço da turnê e a emoção pura do que havia acontecido”, declarou Julian Keaton, uma das pessoas que ajudou a promover o show pelo blog de hip-hop Stereo Assault. “A sua voz já estava falhando antes mesmo de ele começar a falar. Mas ele discursou da forma mais profunda e forte que podia, com uma verdadeira paixão”.

Como Mike é um ativista bastante conhecido e já falou sobre a situação de Ferguson anteriormente, liguei para ele nesta tarde para saber o que ele pensava sobre como podemos seguir em frente enquanto cultura e sociedade. Entre lágrimas, ele falou incisivamente. Isto é o que ele tinha a dizer.

Como você está?
Estou bem. Vou ficar melhor, mas estou bem. Tendo que explicar a um jovem de 17 anos que o policial não será responsabilizado pelo que fez. Tendo que explicar a uma menina de sete anos do que isso se trata. E ainda tenho filhos de 20 e 12 anos. Tenho que ensiná-los a interagir com a polícia e sair destes encontros vivos. Minha filha deveria se preocupar com a sua aula de dança e o recital da sua irmã. Eu não deveria estar preparando meus filhos para o fato de que o mundo será injusto com eles pelo resto de suas vidas.

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Estava assistindo àquilo na segunda e antes do anúncio senti que o que veio depois era inevitável.
Sabia que isso aconteceria quando Eric Holder anunciou que estava renunciando. Não há promotor no mundo que tenha um cargo de maior prestígio que o de Promotor Federal dos EUA – e para ele dizer que estava renunciando ao cargo ao fim de uma investigação mostrou que havia algo nojento prestes a acontecer. Dito isso, quando a sentença foi lida e anunciada, ainda assim chorei feito uma criança nos braços de minha esposa. Não havia nada que eu pudesse fazer para controlar o desespero que senti, e que agora se infiltra.

O que se passa na sua cabeça agora? Você fez um discurso antes do show, e foi bastante comovente.
A coisa mais sincera que posso te dizer agora é que eu estava arrasado. Era meu aniversário de casamento. Estou em um ônibus de turnê – que já não é o ideal, mas minha esposa está junto e felizmente estamos tocando tudo e tentando fazer disso o melhor possível. E então cai uma bomba dessas. Não tem o que fazer cara. [lacrimejando]. Seus avós te falam de Emmett Till. Na infância você vê o que aconteceu com Rodney King. E agora, como pai, você vê isso que rolou com o garoto. Um moleque de 12 anos morreu. Um cara tomou um tiro em Nova York ao subir uma escadaria e a primeira coisa que o repórter do noticiário diz é que ele foi preso 24 vezes. Bicho, qual a importância disso? O cara não estava lá por motivos criminais. É só que, cara, essa merda machuca. Minha esposa. [voz embargando] Eu sou um marido. Sou um homem de princípios. Um macho alfa. Minha mulher e filhos não deveriam ter medo de nada porque seu pai e marido está ali para protegê-los. Mas quando tua esposa te olha e diz “cara, às vezes você tem que parar e pensar se Deus pelo menos te ama”.

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Não sei cara. Eu só – eu só chorava. O El veio e me deu um abraço. Minha esposa tentou me consolar. Normalmente subimos ao palco ao som de “We Are the Champions” do Queen, mas sabíamos que na segunda eu não me sentia um campeão. Ambos sugeriram que eu falasse algo antes do show começar. Eu não tinha dizer. Não achei que conseguiria falar algo. E só subi no palco e falei a verdade.

Minha mentora que me ensinou a organizar tudo – cara, eu não rimo sobre essas paradas. Eu sou um organizador. Ela morreu de câncer umas semanas atrás. Graças a Deus ela não teve que ver isso acontecer. Eu estive com sua irmã em Chicago; seu nome é Alice Johnson. Lembro de ter perguntado a ela certa vez: “Por que você faz esse tipo de trabalho? Por que faz isso? Quem te contrata não dá valor e você não é valorizada por quem está tentando ajudar”. E ela me disse “isso é o que você tem que fazer”. E eu estou fazendo aquilo que tenho que fazer, mas bicho, é loucura demais essa porra. As pessoas para quem componho esses raps são as pessoas que estão morrendo e se parecem com Mike Brown. E elas estão prestando atenção a um monte de idiotas em vez daquelas que podem causar as maiores mudanças. Mas ela tem suas próprias ideias e não querem nem saber. E eu só estou fazendo o que tenho que fazer e é tão difícil. Porque, no meio disso tudo, um negro teve filhos assassinados pela polícia e recorreu ao sistema judiciário em busca de salvação – mas ao mesmo tempo, temos em mãos uma matéria sobre advogados de acusação usando letras frívolas de rap para processarem negros. Então, cara, é meio tipo com quem caralhos temos que falar para conseguir alguma justiça, cara? Saca? Se os tiras, os juízes e os promotores estão nessa. O que podemos fazer?

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Parece que o sistema tem falhado com a gente.
O que é foda é que, se você é negro, isso confirma tudo que te disseram sobre como é ser negro. Esse é o lance. Tenho esperança de que esse país pode ser o que deve ser. Tenho esperanças de que possa atender todas as promessas que fez aos seus cidadãos, cara. Mas essa merda só deixa tudo cada vez mais difícil [voz embargando]. Eu só quero cair fora dessa bosta de lugar. Pra que ficar aqui? Se nos temem assim? Por que ficar aqui? Por que vocês não deixaram a porra do [Marcus] Garvey nos levar? Por que não deixaram Malcolm nos levar? Por que não nos deixaram ir embora, saca? Não estou dizendo que essa seja a solução, mas ninguém sabe como é morar em um país e ser odiado. Ninguém entende isso. Ser negro neste país. Ninguém. Eu não entendo. Não consigo.

Você assistiu ao discurso feito por Obama depois?
Cara, já vi ele falar tudo que qualquer outro advogado diria. E ele é o Presidente dos Estados Unidos. É isso que ele é. E eu respeito meu país, eu respeito o Presidente. Poderiam ter colocado qualquer cara lá que diria a mesma coisa, sei lá. Não tenho nenhuma crítica a fazer. Ele fez o que um Presidente faz, não espero muito mais do que isso. Sempre disse que meu verdadeiro – não sei se votei na pessoa certa, mas seu último dia no mandato, quando ver quem ele irá perdoar, saberei se votei na pessoa certa.

No seu último dia como presidente você pode dar um passe-livre para quem quiser. Gostaria de ver Assata Shakur fora da lista de Mais Procurados do FBI. Porque se você parar e observar tudo que ela fez anos atrás, e a morte da trágica daquele patrulheiro, o que ela fez não foi só em defesa dos negros, mas em defesa aos direitos de todos os norte-americanos. E eram tempos de guerra. E penso que assim como seus mentores brancos que eram contra o governo, que faziam bombas e mais um monte de loucuras, e que agora são professores universitários, ela também deveria ser livre. Ela deveria ser livre para contar sua história e restaurar um pouco de esperança entre seu povo. Tem muita gente aí. Até lá, ele será o mesmo Presidente que os outros oito antes dele.

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Se afastando um pouco desse assunto, sinto que muita gente em uma posição como a sua, de músico com uma plataforma, não está lá muito disposta a se posicionar sobre algo e tentar mudar a sociedade ou o modo como pensamos. Ao contrário de você. Como você acha que podemos fazer com que mais pessoas se posicionem e de repente possam causar alguma mudança?
As pessoas sentem medo todos os dias. A CNN gastou tempo o bastante para falar do que acontecerá, do que aconteceu, mostraram o veredito, a decisão do júri. Eles mostraram o Presidente falando, e então, durante as próximas oito horas, mostraram diversas matérias violentas. Se você se pergunta por que as pessoas estão com medo, bem, elas são alimentadas com violência e medo todos os dias. Há uma estatística que disse que a pessoas julgavam o sistema penal injusto. Mas quando elas descobriram que era injusto só com negros, não importava mais porque não as afetava. E esse é o lance. Quando rola um tornado – “graças a Deus não chegou na minha casa” – não existe uma empatia do tipo “isso aconteceu em nossa comunidade, temos que reconstruir essas casas”. Nos tornamos uma cultura tão esquisita, medrosa, narcisista e individualista que não entendemos mais como estamos todos interligados. Porque mataram um moleque por roubar uma loja. Basicamente, foi isso que o promotor nos disse: que aquele garoto foi morto porque roubou algo. E falou merda pra polícia. Eu mesmo cheguei a fazer uns furtinhos quando era moleque, roubei a moça dos doces, fui lá e enfiei as paradas no bolso.

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Eu também.
Todos já fizemos besteiras. Meu filho é skatista. Meu filho é um skatista negro, porém. Então temo que ele possa ser morto por um tira. Você não sabe o que é para um negro de 70 anos estar dirigindo e seu coração acelerar porque tem um tira se aproximando. O amigo branco que me trouxe a St. Louis estava dirigindo ontem. Nos levou até o aeroporto, minha esposa e eu, ainda bem, só pra sairmos do ônibus. Ele correu o caminho inteiro. Todinho. Fez até os retornos sem tirar o pé do acelerador, entrou na contramão. Não se preocupou com tiras em momento algum. Minha esposa e eu tememos quando estamos dirigindo no limite de velocidade, entende?

Se você não tem isso no seu coração, não posso esperar que entenda, mas que sinta empatia. Se você ficou horrorizado pela forma como as pessoas eram tratadas na África do Sul durante o apartheid, ou pelas abordagens dos nazistas durante o Holocausto que seus avós falaram, então você tem que aceitar o fato de que estas táticas ainda valem para os pobres e especialmente os negros agora. E se você não está falando em prol do fim disso e não está se esforçando para fazer com que todas a pessoas de todos os tipos tenham seus direitos honrados, então você está fazendo um desserviço. Se você só protege seus interesses pessoais, você está alimentando a máquina de ódio. Você está alimentando uma máquina de guerra. Se você ouve as estatísticas de que delitos não-violentos relacionados a drogas estão dando penas absurdas para as pessoas – e o alvo são as minorias, não você – se você não luta contra isso, você é tão culpado quanto o sistema judiciário que leva adiante estas leis injustas. Quando você me pergunta sobre algum músico se posicionar, o que pode ser dito quando a sociedade fica calada? Bob Marley pôde falar o que falou porque culturalmente os rastas e as pessoas que simpatizavam com o sofrimento dos pobres, dos sem-teto e dos excluídos, eles se conectavam. Espiritualmente, haviam pessoas que tinham essa ligação. Nem todas se pareciam com ele. É um sentimento muito esquisito quando olho pro público e vejo um monte de brancos que entendem aquilo. Não posso nem dizer que a música é direcionada especificamente a eles, mas eles entendem. Rola a empatia e entendem. E muitas vezes é isso que me dá esperança.

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Mas como você diz para músicos que acabam de sair da pobreza que deveriam fazer raps sobre questões sociais quando eles estão tentando comprar uma casa para suas mães? Eles mesmo querem sair do gueto. As pessoas para quem e por quem fazem rap passam por cinco, seis, sete dias de ódio, de dor, de tortura psicológica. Elas passam por isso. Elas nem querem ouvir nada sobre isso às vezes. Só querem uma fuga. E elas fogem através dessa fantasia do “Eu tenho um puta carro. Eu tenho uma puta casa. Eu sou foda. Ninguém manda em mim”. Essa música pode ser tão terapêutica quanto reconhecer que existe um problemão e falar sobre ele. Há quantos anos falamos sobre o problema e não se pôde fazer nada quanto a ele? Marvin Gaye disse “what’s going on?” [o que está acontecendo?]. Pule pra minha época, Ice Cube, Scarface, Chuck D, já aconteceu tantas outras vezes. Mas até que os cidadãos – a sociedade – digam “é isto que queremos e para o qual estamos prontos”, como você espera que os artistas o façam? Eu faço isso não porque sou um artista, mas porque luto por uma causa. Sou um organizador. É quem eu sou. Não tenho como fugir da cor de minha pele, mas te falo de outros tantos rappers que não são assim. Eles só estão tentando cair fora de seus infernos pessoais. Mas dito isso, eu espero mais, inclusive desses caras. Isso tem que mudar.

Depende de nós mesmo, não sei.
É um bom começo, Eric – não sabemos. O que sei é que quero lutar pra caralho contra essa merda de usar letras de rap dentro do sistema judiciário, quero lutar com todas as minhas forças. Eu sei que continuarei lutando para derrubar a proibição e descriminalização da maconha porque aquela merda de lei foi usada para prender ainda mais gente brilhante em nossa comunidade do que qualquer outra coisa. E sei que não vou parar de mandar a real, mano. Não vou parar de mandar a real. E é isso que todos temos que fazer. Quem está disposto a assumir uma posição precisa saber que terá gente ao seu lado. Eles se levantarão.

Agora mesmo, em St. Louis, o Footklan é um grupo de rappers liderado por Tef Poe e um cara chamado Rocky Knucles. Esses bichos estão na linha de frente dessa guerra. Nos últimos 100 dias, Tef Poe esteve ali conferindo tudo de perto. Ele tem sido um jornalista melhor que qualquer outro porque ele foi corajoso o suficiente de estar lá. Ele deve estar exausto. Ele deu uma pausa naquilo que parece ser uma carreira muito promissora. Esse poderia ser o ano da virada pro cara e ele escolheu dedicar seu tempo a isso. É dele que tô falando. É pra ele que dou parabéns e defendo porque não posso deixá-lo só, me recuso.

Todos os dias temos a oportunidade de educar pessoas ao nosso redor. Todos os dias temos a oportunidade de quebrar o ciclo estereotípico que nos separa por classe, raça, religião. Todos os dias temos oportunidades e temos que tomar mais cuidado uns dos outros. Temos que aproveitar melhor estas oportunidades que temos.

Com certeza. Algo mais que você gostaria de comentar?
Não sei o que dizer. Não sei o que fazer. Mas teve uma coisa que o desgraçado do promotor disse – Deus abençoe sua maldita alma de advogado – que é que o diálogo tem que continuar, e só digo isso: juntem-se, conversem nos grupos da sua igreja, em suas salas de estar, seus recantos. Não precisa ser na prefeitura, discutindo. Juntem-se com seus amigos que parecem ou são diferentes. Converse com eles, aprenda o que precisa ser feito para apoiá-los e então, após a conversa, decida fazer algo e faça. Coisas simples que ajudarão na luta. Você pode combater a lei da Flórida que diz que não se pode dar comida para desabrigados. Você pode lutar contra isso. Você pode combater essas leis imbecis sobre drogas. Você pode lutar contra a polícia que só tem olhos para negros. Você pode fazer muitas coisas. Você pode lutar. Então tenha algo pelo que lutar. Encontre outros com aparência diferente da sua ou que não necessariamente apoiem a mesma causa que você e ajude-os a lutarem por suas causas. Seja uma coalizão transversal. E siga em frente. É isso, cara.

Eric Sundermann é o Editor do Noisey. Siga-o no Twitter.

Tradução: Thiago “Índio” Silva