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Zine é Compromisso: Arthur Dantas, do Velotrol

A história da lendária publicação do interior de Minas que, em plena onda krishnacore, saiu na frente conciliando música underground e contracultura com política radical.

Capa Velotrol #4 - nunca saiu, mas é uma arte do Carlos Issa e tinha uma entrevistona com o The Ex.

Entre os anos de 1995 e 99, um fanzine que teve apenas três edições lançadas – e que quase chegou à quarta -, inaugurou no underground brasileiro um recorte de cobertura musical, política e cultural decalcado do discurso presente no punk oitentista estadunidense mais articulado. Estou falando do Velotrol, uma publicação egressa lá de Pouso Alegre, interior de Minas Gerais, que ficou conhecida rapidamente no cenário muito por conta da pegada de suas pautas, as quais fugiam aos paradigmas e chavões do hardcore caucasiano dos grandes centros urbanos. Percebia-se que, ali, ideias avançadas tinham vez. Suas páginas estampavam artistas que se norteavam pela autonomia, alguma ética e o faça-você-mesmo.

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O editor era o Arthur Dantas, que hoje em dia levanta as bandeiras da agroecologia no campo, da tarifa zero na cidade e do rap do bom pra geral; só pra vocês saberem, ele foi editor-assistente e chefe de redação na Conrad Editora, repórter e editor da revista +Soma, editor do site NOIZ, pra Laboratório Fantasma, e é colaborador aqui na Vice, entre várias outras atuações ligadas à escrita, à contracultura e ao pensamento livre. Naquele começo dos anos 1990, ele era um menino do ABC, colecionador de gibis e fã do Garotos Podres, que se mudou para Pouso Alegre e vivia nas bancas de jornal. Na época, a diferenciação entre a juventude da cidade era definida de um jeito bem simples: boy e não boy. Os não boys faziam muitas coisas no pedaço e, nesse período, as bandas punks já estavam a todo vapor. O rapaz logo se engendrou na galera, e chegou a editar um zine chamado Garagem antes do Velotrol. O Garagem era um zine mais de rock mesmo. Foi o lançado no festival Hudsucker, o primeiro com bandas de hardcore do Brasil, com direito a IML e Muzzarelas no line-up.

Um ou dois anos antes disso, o Arthur e sua turma haviam se aproximado da ULMG, um arremedo anarco-punk do sul de Minas. Ele, que já trazia tendências libertárias do ABC, se empolgou com aquele engajamento todo, e foi nesse contexto que surgiu o Velotrol. Daí que ele antecipou nas publicações do gênero uma onda de espírito “político e pessoal”, ou, como o próprio crava na entrevista a seguir, “o pessoal é político”. Sim, era um zine que tratava de música. Porém, lançava uma ótica mais apurada para a estética e as ideias/ideais e conceitos por trás das manifestações abordadas. O Arthur cita Maiakóvski na intenção de justificar o modo como ele encarava as coisas: “Não existe arte revolucionária sem forma revolucionária”.

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Cartaz de um show onde o Arthur deu uma palestra e exibiram os filmes do Fugazi e do Crass - muito vanguarda pra 2002.

Isso explica por que, numa época em que bandas como Earth Crisis, Shelter, Snapcase e Madball estampavam capas de outros rebentos hardcoreanos, o Velotrol mirava seu foco em iniciativas como uma entrevistona com o The Ex, participava de palestras com exibição de filmes sobre o Fugazi e o Crass, e cobria com lançamentos em k7 a história de bandas como o IML/In-Tense, pelo selo Oportunista Records, que distribuiu também o Space Invanders e o Shiksa, uma banda pós-punk marxista cabeçuda.

Nesse miolo surgiram várias matérias clássicas. No número #2, o Tiago Mesquita, que hoje é um verdadeiro bruxo da crítica de arte, assina um artigo sobre o Slint. E teve ainda a primeira relevante entrevista com as Dominatrix, que o Arthur fez mesmo sabendo que apareceriam uns babacas machistas pra tirar uma com ele depois, além daquela que na época deixou todo mundo boquiaberto e foi reconhecida pelo povo da cena como “a melhor entrevista do Fugazi”. Segundo o Arthur, “o Ian Mackeye tava relax, era meio afim da tia do Tiago e do Lauro (Space Invaders), então foi de uma gentileza absurda com os caras. Até de Janis Joplin falou!”.

Essa era a pegada do bagulho. Com o Arthur o papo sempre foi reto. Se liga aí na entrevista que fiz com ele, a décima terceira da nossa série Zine é Compromisso, dedicada a iluminar os esforços da rapaziada que pagou muita fotocópia com salário de office boy para nos informar, de livre bom grado, sobre todas as paradas legais que a música alternativa, feita à margem da cultura de massa ou simplesmente verdadeira ao coração foi capaz de produzir. E que, sem dúvidas, mudou a vida de tanta gente.

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Encarte da k7 que cobria a história do IML/In-Tense, que ele lançou pelo seu selo de k7s, Oportunista Records.

Noisey: Em que contexto exatamente o Velotrol encontrava seu público e sua voz?
Arthur Dantas: Cara, o Velotrol é meio cria daquele espírito BHRIF/Juntatribo, meio dos anos 1990, uma época em que a música independente começou a traçar planos mais ousados e que foi rapidamente "recuperada" pela grande indústria. Não tinha ainda mp3, Napster, tava no limiar de épocas, uma galera foi logo "laçada" por esses oportunistas de sempre, estirpe Carlos Eduardo Miranda, e um grupo grande, difuso e aguerrido foi dando feição e temperamento ao que seria uma contracultura mesmo, calcada na política do faça-você-mesmo (cujo antecedente heróico no país pra nós foi o Rédson e o Cólera, obviamente). Pra quem me conhece, nem preciso dizer que estava alinhado a este último grupo. Esse ambiente e essa experiência foram decisivas para muitas escolhas suas?
Sou, ao fim e ao cabo, um punk rocker. Mesmo minha visão sobre assuntos como cultura popular e samba, que preenchem muito da minha atenção hoje, vem filtrado por essa visão de mundo, o que acaba dando em uma perspectiva interessante e muitas vezes ineficiente, admito. E o punk me ensinou a tangenciar esses centros gravitacionais de (micro)poderes. Isso tudo foi importantíssimo pra dar a cara à revista +Soma, por exemplo. Isso fez com que tratássemos rap como produção artística sem maiores mediações, sem o coitadismo ou a super-valorização que eram típicos de então. E eu não tenho a menor humildade em dizer que isso foi fundamental pro trato que a imprensa como um todo destaca pro rap: isso foi motivado por personagens como a revista +Soma, a Tatiana Ivanovici e profundamente pelo André Maleronka [editor da Vice Brasil] em diversas etapas, veículos e formas diferentes. Essas estéticas novas que um Emicida e o Criolo e tantos outros cristalizaram, tinham interlocutores à altura. Pensa na geração exatamente anterior, de Relatos da Invasão, Função RHK, mesmo o Costa a Costa… Todos sofreram porque a mídia como um todo era profundamente tacanha e racista. Na real, ainda é, mas "ficou pequeno" pra eles, tiveram que engolir e aprenderam a se dar bem com o rap. Isso tudo vem dessa percepção punk, chapa. Alguém ainda vai contar os bastidores de como jornalista musical era tanga frouxa e tratava os pretos do rap como alienígena, tipo aquela bancada do Roda Viva entrevistando o Brown, saca? Era vergonhoso!

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Flyer da festa Trânsito, que o Velot fez com o André Maleronka, quando eles editavam o blog de mesmo nome: "Muito do que a gente fez antes se desenvolveu ali e foi uma plataforma milimetricamente arquitetada pra alçarmos os rasantes loucos que demos na indústria cultural. O André entrava com o notório saber wigga, eu com política radical e ambos numa transa louca de atualizar uma contracultura possível."

Quantas edições teve o fanzine e qual foi a maior tiragem/número de páginas que a publicação já chegou a ter? Qual era o formato?
O fanzine teve três edições: o primeiro, seis páginas, o segundo, 24, e o terceiro, 32. O primeiro, gratuito, feito com o falecido Edimilton (das melhores pessoas que conheci na vida!), foi feito em gráfica, 500 cópias. Rodou Brasil e o mundo. O segundo, o que saiu na Maximun Rocknroll e na Punk Planet, teve umas 250 cópias, fotocopiado. O terceiro, o que vinha com uma fita k7, teve, no máximo, 150 cópias, fotocopiado. Todos foram já feitos no computador, com ajuda de amigos, mas no #2 e #3 usei muitas colagens para fazer jus às origens (risos). Curiosamente, o terceiro, que teve menos cópias, é o que o povo mais lembra.

O que rolou de mais legal naquele período e que foi registrado como pauta no Velotrol? Você tem na cabeça as melhores matérias/entrevistas/críticas que gostou de ter escrito ou publicado?
Olha, eu tinha um esforço consciente pra tentar mesclar opinião, música independente e um certo espírito de "o pessoal é político" (este último, eu não fui emocionalmente capaz de realizar e, de certa forma, ainda bem!). Mesmo sem conhecer Groucho Marx nesta época, eu já era suficientemente neurastênico pra não aceitar clubinhos que me aceitassem, então isso fez eu ter um olhar mais acurado pra coisas que passavam em brancas nuvens por aqui, como toda uma movimentação ulterior ao punk que pensava a coisa toda nos ditames do Maiakóvski: não existe arte revolucionária sem forma revolucionária. Então God Is My Co-Pilot, Slint, The Ex, Make-Up, Chumbawamba, Rudimentari Peny, Dog Faced Hermans, Trumans Water… No Brasil, In-Tense, Space Invaders, Shiksa, entre tantos outros tinham lugar ali - na real, até tentei sacar o hardcore que rolava na época, mas eu girava em falso naquilo tudo, era um esforço de adequação meio patético. Era um mezzo caipira mezzo suburbano com certas ideias, por assim dizer (risos). Eu tenho muito orgulho da entrevista que fiz com o Dominatrix, era um período onde elas eram veladamente achincalhadas por certas lideranças punk/hardcore e eu tive plena convicção, desde que vi um show e escutei uma demo, que elas estavam fazendo algo realmente incrível. Foi uma entrevista longa, talvez a primeira que elas fizeram, e foi muito discutida na época. A entrevista com o Cláudio Duarte do IML/In-Tense também foi importante pra mim, porque ele era realmente um cara fora da curva da música indie, me inspirou inclusive no percurso acadêmico. Sempre fui muito gregário e transitei em diferentes rodas, era curioso pra caralho - até hoje sou. Isso tudo fez com que contasse com muitos colaboradores, dessa forma, o melhor do Velotrol eram as colaborações. Então o que eu mais curto, na real, foi a matéria do Slint no número #2, escrita pelo hoje conhecido crítico de arte Tiago Mesquita, o projeto gráfico do #3, feito pela Jan Veneziani, um texto sobre elitismo intelectual do Rodrigo "Barretos", que hoje toca no Ordinaria Hit, e a entrevista com o Fugazi feita pelo Tiago e Lauro Mesquita, que, de resto, foram caras decisivos pra minha formação e de toda a cena punk de Pouso Alegre. Foi na casa deles que eu vi, pela primeira vez, uma biblioteca particular!

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Capinhas da fita do IML/In-tense: "Arte roubada da Regina Silveira, o que mostra sem ruídos de comunicação as preocupações estéticas que me norteavam, muito além do mundinho punk."

O que motivou o fim do fanzine na época?

Eu perdi simplesmente a conexão com o punk/hardcore de então. Já tava atolado em ativismo político e com interesses culturais que não cabiam no contexto do Velotrol. Tava me reinventando como pessoa, pra ser sincero. Foi um momento, 1999, 2000, onde quem se interessava por política radical, acabava se desvencilhando de subcultura punk - rolou um descompasso. No marco da Ação Global dos Povos, de grupos anarquistas, Centro de Mídia Independente, quanto mais você se embrenhava em movimentos sociais, menos sentido fazia aquele sectarismo e elitismo (sub)cultural, aquela soberba tacanha - São Paulo tinha uma cena que era uma bosta mental só. Foi um bom período pra (re)descobrir e expandir meu entendimento sobre música negra, por exemplo. E um momento pra curtir algum tipo de hedonismo, cheguei a ser frequentador de raves e tudo mais… Juventude, essa coisa linda!

Fiquei sabendo que, antes de toda a sua saga zinística-jornalística-punk-rocker, você era um cara do ABC, colecionador de gibis e fã dos Garotos Podres. Daí me contaram que você chegou em Pouso Alegre e virou tipo um frequentador assíduo de bancas de jornal. De que forma esse simples hábito te colocou em contato com a galerinha que curtia som na cidade? Naquele tempo já rolavam umas bandas como SRD e Os Neuza, não é?
(risos) Tava falando com uma amiga: com 13 anos, eu queria ser o Mao do Garotos Podres, com 14, o Johnny Rotten, e com 15, o Jello Biafra (risos). Aos 16 eu já achava que era mais jogo ser eu mesmo. Mas sim: Garotos Podres moldou inclusive uma sensibilidade classista que tenho até hoje. Sou apegado ao meu bairro na periferia de Pouso Alegre (viva Árvore Grande!), desconfio profundamente de gente rica e continuo achando que playboy bom é chinês. E quadrinho foi o que me aproximou da galera quando mudei pra Pouso Alegre. Tinha muita gente em Pouso Alegre que curtia HQ e rock. Tava conversando com o Lauro Mesquita (d’Os Neuza e Space Invaders; esta última, minha banda predileta de rock brasileiro) e chegamos a um consenso: muito desse caráter alienígena da cena de Pouso Alegre em relação ao resto do país, e nossa pouca confiança com os troços que vinham dos grandes centros, encontrava ressonância na revista Animal, que era um troço muito vanguardista pra época. Acho que éramos um pouco como aqueles quadrinistas italianos de Bolonha: tínhamos muita vocação para desafios intelectuais, tocávamos o foda-se e tínhamos uma espécie de soberba que caracteriza até hoje a produção musical mais fodona da cidade. A diferença é que ninguém tomou pico de heroína na veia (risos). Outra coisa louca de Pouso Alegre é que a galera endinheirada se entrosava com a plebe numa boa, de igual pra igual, o diálogo era simétrico. A convergência estava em ter um desdém pela elite conservadora e odiar/avacalhar os "goiabas" (neo hippies) e metaleiros de ocasião (era uma moda de playboy na cidade). SRD (que depois virou Puro Lixo), era a banda mais péba, tinha dois integrantes da minha região; Os Neuza (depois Space Invaders), era a banda da galera com mais cascaio no bolso. Se isso ditava horizontes culturais, na prática era algo bem fraterno, era uma época onde o povo que tava "fora de compasso" tinha que se enxergar um no outro, porque a vida vivida era cabreira. Imagina: a polícia "recolhia" skate de quem andava na rua, o catolicismo permeava tudo, era uma cultura de resistência no sentido mais existencial. E me influenciou horrores, toda essa galera. Eram meus amigos e meus heróis, pra usar um termo brega.

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Velotrol #2 - duas capas, dois editoriais, e uma matéria boa sobre o Slint do Tiago Mesquita, que viria a se tornar um conhecido crítico de arte, mas que veio do mesmo caldo cultural que o Arthur.

O Velotrol tinha umas seções ou abordagens diferentes, incomuns de se ver em outros zines brasileiros? Eu me lembro de uma coluna que resenhava outros zines com o mesmo rigor de uma crítica musical, não é? Ou tô viajando?
Cara (risos), o povo lembra muito desse lance das minhas resenhas serem meio "pesadas" - eu pra falar a verdade nunca pensei dessa forma. Acho que quem conhece minha família entende melhor isso: ninguém "alivia" pra ninguém lá. Tudo que eu mais amei na vida era lixo pros meus pais - e sempre foi o que garantiu meu ganha pão, na real: política radical, cultura pop, punk, quadrinhos, música. E a gente é muito papo reto um com o outro - isso talvez tenha a ver com esse lance de não saber receber elogios até hoje. Desde meus avós, minha família é de operários - antes eram do campo. Eu fui o primeiro a quebrar essa sina, fui realizar trabalho "intelectual". Visualiza: puta lance de "viado", saca? Essa cultura familiar me dava uma falsa noção que as outras pessoas lidavam bem com "crítica". E se eram pesadas, sempre tinha uma dose enorme de amor. Amor é o coração de todas as coisas na contracultura, cara. Quando conheci o mundo dos fanzines, passei a desprezar totalmente o mundo das revistas de música. Sério. Esse papo de que minha geração tem a MTV e a Bizz ou quetais como porta-voz é a maior cascata. Vou te falar qual foi minha "iluminação" juvenil: eu entendia de poucas coisas, mas se das poucas coisas que eu entendia a imprensona só falava MERDA, do que eu não entendia deviam falar merda também! Daí preferia ficar com fanzines, onde na minha cabeça a franqueza e o amor eram fundamentais. Simples assim. Eu prefiro pensar que meu fanzine apresentou Slint ao Brasil, que consegui tratar de política e música de forma que nem uma nem outra ficassem condicionadas a nada. Quanto mais o punk é free jazz, mais legal e produtiva se tornam as coisas.

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O que você se lembra da experiência do Garagem Zine, que você lançou no festival Hudsucker, tido como o primeiro com bandas HC do Brasil?
O pior é que antes do Garagem eu fiz um zine de "fã da Marvel" (o que era chamado de forma vergonhosa de "marvete"). Só que esse eu não mostrava pros amigos da cidade (risos). Eram quatro páginas tirando dúvidas preciosas sobre os X-Men. O Garagem foi meio assim: eu não sabia tocar nada, então tinha que fazer fanzine! Era meio que compromisso com o meio. Rolaram 3 edições. Colagem e máquina de escrever, um monte de flyer xerocado, aquele frenesi de escrever 20 cartas sociais por dia, ficar amigo do carteiro, aprender inglês e espanhol tosco pra correspondência. E divulgava loucamente as bandas locais: Human Action, Xincons Bronx, Space Invaders, distribuía demo do povo pro Brasil todo. Foi onde aprendi os paranauê básicos do faça-você-mesmo. Ingenuidade e vontade: energia ultra-jovem.

Capa e infos da k7 que vinha com o Velotrol #3, que mostrou The Ex pra muita gente no Brasil.

Você fez parte de um coletivo chamado União Libertária de Minas Gerais? Você estava junto com o Tiago Mesquita quando ele foi preso? Nessa época você era mais interessado em som ou em militância punk/anarquista?
Eu, desde que me entendo por gente, gostei de política. Morava em Santo André em 1989, no meu quarteirão tinha comitê de base do PT, todo mundo era operário no quarteirão. Aquela eleição eu vivi intensamente, lia santinho na rua, via horário eleitoral, lia jornal na biblioteca da escola. Não sei dizer o que me interessava, mas o vírus veio daí. A União Libertária de Minas Gerais (que, na real, era um troço sul mineiro) foi um lance onde vi adolescentes como eu tentando pensar política, filtrada pelo anarquismo, de uma forma mais sistematizada. Foi a formação mal e porca com que cheguei em São Paulo em 1997. Mas é preciso dizer: a galera era muito mais sagaz e lida do que a média em São Paulo em círculos semelhantes. Com relação ao punk então, nem se fala! A prisão foi engraçada: era uma panfletagem durante o 7 de Setembro na cidade, um lance que era muito comum entre as fileiras punk-anarquistas. Hoje nem existe mais essa cultura no Brasil. Nego era tão chucro na polícia (que novidade!) que a primeira coisa que o delegado falou foi "isso aí é coisa do PT" (risos). Dá pra pensar se o Brasil não se "Pouso Alegrizou" desde então. E meu interesse de então era basicamente o mesmo de hoje: política radical (desde 2003 me denomino autonomista) e arte em partes iguais.

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Em suma, você diria que o zine Velotrol surgiu como um representante dos interesses da turma de Pouso Alegre? E de onde diabos surgiu esse nome?
Cara, assim como o Ian Mackaye é um cara extremamente ligado às raízes punk de Washington DC, eu sou ligado a Pouso Alegre! O Velotrol era expressão do que rolava lá. Eu sou quem sou graças aos meus amigos de Pouso Alegre daquela época! Space Invaders era a trilha sonora com a qual filtrava o mundo. O nome foi assim: tava rolando um churrasco na casa do Edimilton, o meu parceiro que faleceu e fez o primeiro número do Velotrol comigo. O Jefferson Kaspar, de Belo Horizonte, que foi um dos fundadores da Motor Music, tava lá. E todo mundo curtia os zines que ele fazia e tal. Daí acho que ele falou que tinha um bom nome de zine. "Velotrol". Gotcha! Pegou. Na minha cabeça, tinha alguma ironia com a expressão "grandes 'veículos' de comunicação". E daí virou apelido, Velotrol, Velô, Velotas, Velot. É como o Leminski escreveu: "distraídos, venceremos". As melhores coisas da vida acontecem quando não esperamos nada (risos).

Quarta capa do Velotrol #3

Foto do fusquinha da capa: "Olha que loucura, essa é de um maluco que morou comigo na moradia da USP, Tiago-não-sei-das-quantas, de Campinas, virou artista plástico meio conhecidinho, deu várias fotos PB que revelava no laboratório da ECA."

A mítica "melhor entrevista do Fugazi".

Flyer famoso, desenhado pelo Sineval Santos, um dos mais conhecidos ilustradores de fanzines da época.

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Muito mais arte e música underground com culhão nos links abaixo:

Zine é Compromisso: Eduardo Vomitorium, do Demência Zine

Zine é Compromisso: Revelações Abissais, 'O Arauto da Má Notícia'

Zine é Compromisso: Thiago Mello, do Broken Strings

Zine é Compromisso: Bento Araújo, do Poeira Zine

Zine é Compromisso: DJ Tonyy, do Enter The Shadows

Zine é Compromisso: Douglas Utescher, do "Life?"

Zine é Compromisso: Contravenção

Zine é Compromisso: Especial Tupanzine

Zine é Compromisso: midsummer madness

Zine é Compromisso: Escarro Napalm

Zine é Compromisso: Esquizofrenia

Zine é Compromisso: Márcio Sno, do “Aaah!!”