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Skrillex Vai Ao Espaço

O Skrillex está lançando um satélite, então falamos com ele sobre ficção científica.

Fotos do Google/Imagem por Alex Cook

Não há lugar para cinismo no espaço. Quer dizer, tecnicamente, não há nada além de espaço no próprio espaço. Mas não só é melhor para os astronautas conservarem seu oxigênio guardando suas opiniões péssimas para si, como é complicado não ficar embasbacado ao ponto do silêncio total por conta da beleza absurda daquilo tudo. O espaço é tão vasto, tão belo, tão desconhecido, que só pode ser incrível, no sentido mais literal possível. Com suas possibilidades infinitas e promessas de mundos alienígenas inalcançáveis, o espaço é uma tela para a imaginação. Ele já nos deu fascinantes mundos de ficção científica, mitologias ancestrais e novas tecnologias. Naturalmente, o Skrillex pira num espaço também.

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Skrillex usa a palavra “incrível” frequentemente, de uma forma quase contemplativa, quando falamos ao telefone. Nos últimos cinco anos, o vocalista-de-post-hardcore-que-virou-produtor se tornou O figurão da música eletrônica, com todas as reações polarizadoras que vêm junto do título. Seu nome, engraçado de se falar e também um conjunto de sílabas com jeitão de ficção científica perfeito, é um atalho conveniente para comentaristas da mídia que dão seus dois centavos sobre as palavras-chave mais virais dos dias atuais: Adolescentes! Ecstasy! EDM! Aplicativos! Festivais de música! Dubstep! Snapchat! Adolescentes de novo!

Os fãs de música eletrônica mais puristas se mordem por conta de seu som irreverente e status como grande nome do gênero, colocando sua música sob o pejorativo gênero “brostep”, enquanto tradicionalistas do rock despirocam com o fato de um dos maiores músicos do mundo ser um cara que não toca instrumentos comuns e que atrai multidões de ravers cobertos de neon. E naturalmente, uma caralhada de gente ama ele, em partes por estas mesmas razões. Se qualquer um pode ficar meio de banda com o papel que lhe foi imposto, este é Skrillex. Ainda assim, o rapaz de 27 anos, cujo nome verdadeiro é Sonny Moore, assume uma postura de positividade radical – com relação a tudo, pelo visto.

Positividade é a atitude padrão na música eletrônica, e PLUR (Paz Amor União e Respeito, em inglês) é uma de suas crenças, mas isso nem sempre se traduz em um entusiasmo com novas ideias. A dance music, especialmente para forasteiros, pode parecer bizarramente regimentada, com sua fixação em detalhes granulares e tempos. Skrillex, por sua vez, aborda a música – e aparentemente todos seus feitos criativos – com uma premissa mais simples: o que soaria legal? Suas canções são cheias de sons que associamos com coisas como canhões de laser e tilts computadorizados – efeitos especiais de filmes de ficção científica em um esquema IMAX boladão empilhados uns sobre os outros ao ponto do absurdo. Basicamente, barulhinhos de laser são massa, mas o que é mais massa que barulhinhos de laser são mais lasers. Aquele ingrediente comum e muito malvisto do EDM dos anos 2010, o drop (cujo hit de Skrillex de 2011, “Bangarang”, ainda é a obra máxima), aos poucos cedeu espaço para linhas de sintetizador e baixo que guincham descontroladas, como um monte de meleca sendo enfiada em uma caixa pequena demais.

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Sua música é especialmente boa em interagir com o mundo pop sem necessariamente penetrá-lo. Em Recess, de 2014, Chance the Rapper faz uma participação eletrizante e totalmente orgânica com poucas linhas de voz, evitando a armadilha colaborativa em que os rappers parecem estar forçados ali só pra atrair mais fãs. O recente projeto conjunto de Skrillex e Diplo sob o nome Jack Ü faz o mesmo com 2 Chainz gritando a alegremente imbecil frase “Where Are Ü Now”, os vocais deixados à deriva sublimemente e equiparados somente pelos ruídos. Skrillex é o artista millennial perfeito: ele toma inspirações de tudo que é lugar, faz o que acha que seria divertido e vê se cola. Ele não sai juntando coisas só pra criar algum tipo de choque cultural; ele se empolga verdadeiramente com o mundo hiperativo e possibilitado pela tecnologia em que vivemos. É isso que o torna desagradável para muitos, mas também o que o faz ser foda para tantos outros mais.

É por isso também, pelo jeito, que ele foi a pessoa escolhida pelo Google para ser a parceira de um novo produto Android que estão lançado chamado Editions, que aliás foi o motivo pelo qual consegui falar com ele. O projeto consiste em uma série de cases para celular criados por artistas que ativam conteúdo interativo no celular Android do usuário. Que, ok, beleza. Artistas fazem estas colaborações o tempo inteiro. Mas no caso do Skrillex, porém, envolve o envio de 13 satélites ao espaço para tirar fotos da Terra, que então serão enviadas aos telefones dos usuários como wallpapers rotativos. De noite, o telefone terá um guia geodeterminado de constelações. Espaço! Aquela fronteira final lá, o reino livre de cinismo!

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Não há lugar melhor para que Skrillex e sua imaginação corram soltas (teoricamente, quem comprar o case também receberá mídia exclusiva periodicamente, incluindo música, porém quando pergunto se isso quer dizer um disco novo, Skrillex afirma: “Não quero começar esse boato”). Ao longo de nossa conversa, Skrillex fala com a empolgação de um amigo descrevendo seus filmes favoritos (coisa que ele faz duas vezes), mas parece só ser o jeitão dele mesmo. Quando falamos sobre sua empreitada na estratosfera, ele mantém a mesma atitude topa-tudo característica: “A parada era essa mesmo: enviar um satélite pro espaço e tirar umas fotos bacanudas”. Animal.

Noisey: Você foi um desses moleques pirados em ficção científica?
Skrillex: É engraçado. Curto isso mais do que quando era novo. Eu não, tipo, adorava Jornada nas Estrelas. Eu gostava de Guerra nas Estrelas, mas não era piradão. Curtia a arte do H.R. Giger e Alien quando era novo. Aquele filme foi incrível pra mim. Mas amo o espaço. Até mesmo mais que o lado alien das coisas, gosto de ver fotos do espaço e documentários sobre ele. Você já viu aquele filme Missão: Marte?

Nem vi.
Não é tipo o filme mais foda do mundo, mas rola essa cena no final que é bem massa. Basicamente eles vão até Marte, dentro daquele rosto de Marte, e descobrem que é uma nave antiga de uma galáxia muito distante. Uma pá de naves foi até Marte bem antes da Terra ser um planeta habitável e Marte foi a primeira Terra e tal. Daí deu ruim em Marte, todo mundo vazou e deixaram seu DNA na Terra, e foi assim que surgiu o DNA humano. Daí que o rosto em Marte foi uma das naves que ficou pra trás. Então a última cena é uma puta cena doida que meio que explica como nós chegamos aqui e pá. Não sei nem porque comecei a falar desse filme [risos]. Foi um lance bacana quando era moleque, assistir àquele filme. E isso ficou na minha cabeça, em termos de ficção científica.

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Você tem alguns fatos sobre o espaço favoritos pra citar?
Não necessariamente. Só acho que o espaço é demais. Gosto do fato de ser algo tão grande e parecer tão assustador e complicado de entender, mas ao mesmo tempo ser constituído dos mesmos componentes que temos aqui na Terra. H2O e moléculas – a mesma merda que rola aqui. Não é incompreensível como as pessoas pensam. Obviamente tem essas paradas de buracos negros e dimensões paralelas e essas ondas todas que não manjamos, mas ao mesmo tempo é como se todas as partes físicas do espaço pudessem ser encontradas aqui, somos feitos disso. E isso é demais.

Você acredita que podemos viajar por buracos de minhoca?
Provavelmente. Você assistiu Interestelar? É doido. Digo, adoraria ver alguém fazendo isso. Acho que em nossa geração veremos muito mais gente indo pro espaço com mais frequência. Agora o espaço foi privatizado, então não precisa do governo, o que acho ótimo. Agora tem essa galera tipo a SpaceX. Eles tão cagando pra tudo exceto inovar e romper barreiras e é por isso que – amo o fato de que você pode usar imagens do espaço e emojis e tudo isso, mas no final das contas, a razão pela qual temos o FaceTime em nossos iPhones é porque alguém achou que seria uma boa ideia e assistiu a Jornada nas Estrelas enquanto queimava um na faculdade e pensou ‘bicho, vamos tentar fazer isso aí um dia’. Todos os usos estéticos do espaço e tecnologia e ficção científica são os bloquinhos de construir e inspiração para que os engenheiros e inovadores que usam essas inspirações para criarem novas tecnologias. Por isso acho que é demais ter todas essas paradas.

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E por falar em emojis, o que o emoticon do alienígena significa pra você? Ele é bem ambíguo.
Provavelmente o mesmo que pra todo mundo. Digo, emoji é meio que uma ferramenta de comunicação universal. São carinhas. São emoções. Você manda uma carinha feliz pra um chinês, que não fala inglês, daí eles pensam ‘cacete, esse americano, esse cara branco, está feliz’. Daí você manda o alien e pensam ‘o que ele quer dizer?’ Acho o emoji demais, e é bonitinho.

Você está trabalhando em um disco novo? As pessoas poderiam esperar por algo novo logo?
Estou compondo muito. Estou trabalhando no disco de um monte de gente agora e acabo de terminar um com o Diplo, com o Jack Ü. Finalizamos ele tipo uma semana antes do lançamento, mas já estamos em cima de um monte de coisa nova.

Você é tipo O cara do EDM agora. Tipo, quando as gravadoras precisam de um remix eletrônico de algo, elas te ligam. Como é isso?
É bem incrível, na real. Posso fazer o que amo e as pessoas curtem das mais variadas formas. Acabo conhecendo e trabalhando junto com gente que nunca sonharia ou esperaria. Nem nos meus sonhos mais loucos – até com o Google, nunca achei que a música me levaria até ali. Trampar com o The Doors ou mesmo KoRn, banda que cresci ouvindo, é louco. Sempre fiz meu lance, que é sempre tentar criar algo novo com muita energia, foi o que sempre tentei fazer. E isso pode ser feito de muitos jeitos. Mesmo que seja um lance com Harmony Korine e Cliff Martinez e o filme Spring Breakers – Garotas Perigosas. Disso aí até produzir um disco de metal, brostep com o KoRn. Tem muitas formas que posso usar pra me expressar.

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As pessoas sempre te associam ao dubstep, mas isso não parece rolar tanto mais. Você acha que o dubstep morreu?
Não. Só evoluiu. É difícil categorizar o dubstep agora. Definitivamente ainda está vivo. Tem um monte de moleques fazendo a parada a ponto de parecer que o Skream ainda faz dubstep mas com uma pegada mais atual. Quase como um lance mais alta classe, mas ainda soando old school. Tem muita coisa rolando agora. Eles chamam de riddim, que é um puta movimento. Tem uma garotada vendendo ingresso por aí tocando esse som bem underground. Então não morreu mesmo, mas acho que a percepção das pessoas mudou.

Nunca me rotulei como dubstep, mas é meio que o que rola quando você produz um disco no Beatport. Com certeza me inspirei com aquilo. Não ligava do que as pessoas me chamavam. Não ligo pra como me rotulam. Só faço o que gosto, e antes do lançamento de Scary Monsters, meu som era outro, e ele sempre está mudando e evoluindo. É natural que isso aconteça, que as pessoas usem palavras. Elas são necessárias para categorizar algo, e eu não odeio mesmo isso.

Por falar em palavras, você cantou um pouco no disco do Jack Ü. Você tem interesse em voltar a cantar, com banda e tal?
É engraçado porque quando entro no estúdio para colaborações, não planejo nada. Tudo acontece espontaneamente. Não que eu queira soar vago ou ambíguo. Mas quando fizemos aquele disco não foi nada do tipo ‘ok minha ideia é voltar às raízes e cantar’. Só estávamos lá e eu cheguei – ajudo com letras nas músicas da galera que trabalho, então só estava cantando, aí o Diplo disse ‘vai lá e canta’. Daí cantei e usamos. Foi aleatório assim, então pode muito bem rolar de novo.

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Soube que sua mãe morreu há pouco. Como você lidou com isso?
Não sei se você já perdeu algum ente querido antes, mas quando isso acontece, parece que tudo para e você para pra pensar mesmo e muitas emoções vem à tona, e você meio que se torna você mesmo. Não quero soar como um clichê, mas com isso você passa mesmo a dar valor à vida e quem está ao seu redor. Na pior das hipóteses te deixa triste com quão negativo o mundo pode ser e quão negativas as pessoas podem ser quando no fim do dia você está na rua ao lado de alguém negativo e vendo o mesmo mundo, mas nos olhos deles, tudo é diferente do que você vê. Depende de você como encarar o mundo e como você faz a realidade se manifestar. E acho que tenho tentado ser muito positivo ultimamente e manter as pessoas que gosto por perto e não tomar nada como certo e saber que a vida é preciosa e frágil, o tipo de coisa que acaba em um segundo e é importante aproveitá-la enquanto pudemos. Sendo negativo você só vai empurrando a coisa toda. Depende de você. Por que ser negativo com uma vida tão curta?

Sei que você é um tremendo fã de Aphex Twin. O que você achou do disco novo?
Curti muito. Amei, na verdade. Comprei cinco vinis e dei pros meus amigos. É incrível. Não sei se você é um grande fã, mas é demais. É um disco muito bom. Tem uma pegada meio Windowlicker e Druqks ali. Acho que com ele nunca dá pra saber o que esperar. Toquei com ele na Austrália e demos uns rolês, gente boa demais.

Teve um set que ele tocava que era bem mais acessível, daí rolava outro de 30 minutos só de barulho. Não dava pra saber como seria o disco. Poderia ter sido um ‘foda-se’. Mas ele, acho eu, fez um disco pros fãs. E talvez não fosse essa sua ideia. Não posso falar por ele ou como ele compõe, mas ele voltou pro esquema meio acid house e saiu um puta som de piano como ele faz em todos discos, que é o meio que que se queria – o que eu queria de um disco do Aphex Twin. Aí o bicho ganhou um Grammy.

Ok, essa é uma pergunta bem superficial, mas como que é, em termos de manutenção, manter esse corte de cabelo raspado do lado? É meio que uma marca registrada sua. Com que frequência você raspa o cabelo?
É tranquilo. Eu cuido da parte da frente e peço pra algum amigo meu durante a turnê pra me ajudar com o resto, demora tipo um minuto. Eu curto, me acostumei. Quando raspo só é gostoso de passar a mão na cabeça.

Como é ser tão fortemente associado a um corte de cabelo específico como esse?
É engraçado. Nem penso isso. Sempre tive cabelo grande, e desde que raspei a coisa ficou tão diferente, saca? Mas nunca pensei nisso assim. Em algum momento vou mudar o corte, mas tô tão acostumado e é tão simples e é tão bom raspar a cabeça, cê encosta ali do lado e pinica.

É massa. Queria ter um corte de cabelo icônico assim. Parece rolar pressão demais, mas é massa.
É natural. Rolou dum jeito orgânico. Só aconteceu, acho. Não achei que seria tão importante assim, mas é bacana.

Kyle Kramer ama o espaço. Siga-o no Twitter para fatos interessantes sobre.

Tradução: Thiago “Índio” Silva