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Essa Coletânea de Shoegaze Mostra a Segunda Onda do Gênero Barulhento (e Inclui Brasileiros)

Conversamos com a organizadora da compilação, que além de pinçar 30 bandas de 16 países, ainda nos deu uma aula sobre as diferenças entre o shoegaze e o dream pop.

Não raro brota um papo de que no shoegaze o que rola é tocar encarando os pés, mas quem é que em sã consciência vai querer olhar pra baixo e não pro céu, pro teto ou pra qualquer lugar além do nosso campo de visão e de nossa existência em meio a uma hipnotizante nuvem sonora carregada de distorção e dissonância melódicas? Se no fim da década de 80 Jesus & Mary Chain, My Bloody Valentine, Slowdive, Curve, Swervedriver e tantos outros batizaram ouvidos alheios com esse protagonismo poderoso da guitarra, agora é hora de respirar a herança desses ares, e nada melhor que uma coletânea motivada a muita pesquisa musical na internet para nos indicar quem anda mantendo o shoegaze vivo no mundo.

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A canadense Shauna McLarnon é enfática em dizer que estamos vivendo uma segunda onda do shoegaze, e a prova é a coletânea Revolution – The Shoegaze Revival, organizada pela gravadora dela, a Ear to Ear Records, lançada no dia 11 de fevereiro e elogiada pelo cofundador da Creation Records, Joe Foster. São 30 bandas e 16 países, e nessa conta entram dois representantes brasileiros: a Duelectrum, que tem a responsa de abrir a compilação, e a Robsongs, que responde por uma das faixas favoritas de Shauna. Robson Gomes, da Robsongs, diz que “baixa a cabeça orgulhosamente e agradece a internet pela chance de representar o Brasil nessa empreitada mundial”.

O paulistano Filipe Albuquerque, da Duelectrum, diz que o shoegaze apareceu na sua vida com o clipe de “Just Like Honey”, do Jesus & Mary Chain, ainda na década de 80. “As guitarras altas e a ausência de virtuosismo, e o fato de ser música pop tocada com distorção e volume foram suficientes”.

A Shauna passa um bom tempo na internet conhecendo bandas com o RG bem espalhado, e é por isso que tem shoegaze do Japão, da Indonésia, do Paquistão, da França e da Austrália, pra citar alguns países. Trocamos e-mails com ela sobre o que anda rolando no shoegaze mundial, a ajuda que o cinema costuma dar ao som e até mesmo sobre as confusões com o dream pop. Você pode ler nossa entrevista curtindo essas boas canções sem fronteiras, com destaque para as faixas “She Doesn’t Feel the Sun” (Duelectrum), “Maydear” (Sharesprings), “Line” (Thud), “Dance of Angels” (Digilite) e “Morning Star” (Ether Feels).

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Noisey: Temos um intervalo de praticamente 15 anos entre o que chamamos de “primeira onda” e “segunda onda” do shoegaze. O que há de novo na safra atual e o que permaneceu desde as origens?

Shauna McLarnon: Acho que o intervalo é muito maior, na verdade. Por exemplo, o Ride celebrou no mês passado o 25º aniversário de um disco deles e a primeira onda do shoegaze nem chegou a durar isso. O que eu curto nessa segunda onda do shoegaze é o crossover. Ter crescido ou ter sido influenciado pelo shoegaze, em paralelo com outros gêneros de música (em oposição a crescer com outros gêneros e fazer shoegaze a partir deles), gera um resultado similar, porém diferente. As raízes dessa música se diferenciam, assim como o resultado. Agora mesmo, vemos muitas bandas que aparentemente tentam aderir à “sonoridade original” do shoegaze ao emular sons que se aproximam do My Bloody Valentine, Slowdive ou Swervedriver. Ao mesmo tempo, há várias outras bandas, tipicamente chamadas de “nugaze”, que estão avançando para outros territórios. A maioria delas é uma mistura de dreampop e shoegaze, o que eu prefiro chamar de “dreamgaze”. No entanto, há também aqueles que estão expandindo as fronteiras, misturando o shoegaze com eletrônica, elementos do folk, pós-punk, pós rock e outros. Há várias faixas assim na coletânea.

Como conheceu o Duelectrum e o Robsongs? Por que essas duas bandas foram selecionadas?

Conheci o Robsongs com o The Blog That Celebrates Itself, do Renato Malizia. Ele é um dos blogs independentes mais legais do Brasil (ou de qualquer lugar), e são sempre um ótimo jeito de descobrir música indie de todo o mundo. Foi assim que conheci o Robson Gomes, seu projeto solo Robsongs e a banda The Concept. Em 2013, o Robsongs lançou uma sequência de 3 EPs, todos cantados em português e todos fantásticos. Me apaixonei pelo som na primeira ouvida. Quando ele gravou “Essa Grande Falta de Você”, fiquei muito empolgada. Acho que o Robsongs é uma das bandas mais inovadoras no rock psicodélico, com uma boa mistura de contemplação e sintetizadores. Ouvi o Duelectrum recentemente e fiquei surpresa de saber que estava conectada aos membros da banda no Facebook. Gosto muito das bandas brasileiras, especialmente Bela Infanta, The Sorry Shop e Loomer. Como pude ficar sem conhecer essa banda tão fantástica que é o Duelectrum? Ficamos sabendo tão pouca coisa do Brasil. De qualquer maneira, é por isso que organizamos essa coletânea, porque isso não acontece só com artistas brasileiros. Várias bandas underground de todo o planeta não estão sendo ouvidas pelas pessoas que poderiam curtir a música delas. Reunimos o que acreditamos ser o melhor shoegaze independente dos quatro cantos do mundo. Isso deve virar uma tradição, fiquem ligados.

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Duelectrum

Como é ter bandas de shoegaze em países tropicais e ensolarados, considerando que o gênero foi criado e desenvolvido em regiões tipicamente nubladas e com neve?

Para mim, a geografia não faz diferença nenhuma. Um gênero não precisa começar e prosperar em um mesmo local. Admito que é bem improvável você encontrar o som da Motown na Tailândia ou na Sibéria, por exemplo, mas o shoegaze, assim como o dream pop, o pós rock, o pós-punk e outras formas modernas de música baseada na guitarra são encontrados em vários locais do planeta. O shoegaze surgiu a partir de um som relativamente ao vivo que, de certa forma, pode ser recriado em um estúdio caseiro. Isso parece ser um dos fatores que permite os milhares de projetos existentes ao redor do mundo. Alguns o fazem ao vivo, outros não. Eu assisti a poucos shows de bandas shoegaze, então posso apreciar música excelente vinda do Brasil, Peru, Chile, Indonésia ou Paquistão a par com qualquer música desta qualidade feita na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos, por exemplo.

Há quanto tempo você vem garimpando as bandas pelo mundo? O Facebook foi seu melhor amigo nessa missão?

Bom, como uma pessoa que faz música, promove eventos e é blogueira, tenho acompanhado o que está rolando na cena shoegaze e dreampop ao longo dos últimos anos. Tem muitas músicas disponíveis online e nunca me importei com o país de origem delas, desde que fossem boas. Ao mesmo tempo, decidimos colocar nossa música [Ummagma e Sounds of Sputnik] na internet e ficamos surpresos com os gêneros em que éramos classificados – dreampop, nugaze, indietronica, pós punk e pós rock. O Facebook também ajudou muito a fazer contato com as pessoas que ouvem, escrevem sobre ou tocam shoegaze em todo o mundo. Foi assim que aprendi sobre tantas outras bandas em tantos lugares diferentes. Agora é fácil encontrar a música que você quer ouvir.

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Robsongs

Onde o shoegaze acaba e onde começa o dream pop?

O shoegaze e o dream pop estão intrinsecamente ligados e muitas vezes são um crossover. Sério, são como fogo e fumaça, em que não existe um sem o outro. A maior banda de dream pop da história é o Cocteau Twins, que também são citados entre os antepassados do shoegaze, porque sem bandas como essa ou, pelo outro lado, como o Jesus & Mary Chain, o shoegaze como um gênero separado nunca teria nascido. Você pode até descrever o shoegaze como filho dessas duas bandas. Hoje, os termos “shoegaze” e “dream pop” estão sendo banalizados, então os shoegazers mais hardcore que pertencem à velha guarda dizem que os “nugazers” não têm lugar em suas casas. Ao mesmo tempo, o dream pop passou a ser usado para abarcar tudo, do synthpop ao indie pop e também o jangle e o twee. Isso começou na onda da música etérea, na época do Cocteau Twins, então não é uma surpresa que o shoegaze e o dream pop se misturem. Se você realmente quiser uma distinção entre esses gêneros, vamos dizer que o shoegaze ainda tem uma atmosfera embaçada e, por vezes, uma parede de barulhos, enquanto o dream pop acaba focando nas texturas oníricas e na melodia.

Você também faz parte do Ummagma, certo?

Sim, sou a vocalista do Ummagma e também do Sounds of Sputnik, que participam dessa compilação. Mas são projetos separados. No Ummagma somos eu e meu marido. Estamos fazendo música desde que nos conhecemos, em 2003. Já o Sounds of Sputnik tem também o Roman Kalitkin e é baseado em Moscou – na verdade, o Ummagma coproduziu, co-escreveu e tocou em todo o disco de estreia, que foi lançado pela gravadora Ear to Ear no ano passado e ganhou um Russian Indie Music Award. Na coletânea, o Ummagma aparece com “Live and Let Die”, que foi lançada em 2013.

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Nos anos 2000, vimos o cinema disseminar o shoegaze, a exemplo do Kevin Shields na trilha de Encontros e Desencontros, e das trilhas sonoras dos filmes do Gregg Araki, que iam de Slowdive ao Curve e ao Cocteau Twins. Você observa a presença do estilo nos filmes de hoje?

Sim, definitivamente. Antes, isso rolava vez ou outra. Acho que o maior exemplo disso é a colaboração recente entre Robin Guthrie [do Cocteau Twins] e Harold Budd. Eles assinam a trilha sonora do filme Pássaro Branco na Nevasca, com a Eva Green [esse filme também é do Gregg Araki]. O disco foi um dos meus favoritos de 2014. É espetacular. Acho que esse é um dos trabalhos mais legais de Robin, apesar de que também adoro a música que ele compôs para o filme indie 3:19, da Espanha. Se você não ouviu o álbum, recomendo. Certamente é mais dream pop e ambient do que shoegaze, mas olha, é o Robin. Vale a pena ouvir tudo que ele compõe.

Embora tenha representantes de 16 países, a coletânea é praticamente toda cantada em inglês. Esperava isso? Como acha que o shoegaze soa em outras línguas?

Sim, tem bastante música em inglês aqui, mas também algumas faixas muitos especiais em outros idiomas. Há 8 bandas cuja língua nativa é o inglês e uma banda francesa fazendo um cover do Cure, então é compreensível. A faixa do Puna é instrumental. Duas das três bandas japonesas cantam em japonês. Metade das bandas indonésias cantam em sua língua nativa, o Robsongs canta em português e Stella Diana, em italiano. Não fiquei surpresa com a predominância do inglês, o que pode ser explicado pela origem do shoegaze, mas possivelmente também pelo fato de que os vocais costumam ser sobrepostos por toda a distorção e barulho, e você nem consegue distinguir os sotaques. Minhas faixas favoritas são a de Robsongs e Stella Diana, o que mostra que o shoegaze pode ser maravilhoso em qualquer idioma.