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Entrevista: O Inimigo

Um papo sobre MMA, The Warriors, letras filosóficas e envelhecer praguejando contra o mundo.

Se um extraterrestre chegasse hoje no Brasil e se guiasse exclusivamente pelo noticiário policial, iria imaginar que as únicas culturas jovens do país são o funk e o rap. Se esse mesmo ET caísse por aqui 30 anos antes e realizasse a mesma pesquisa, pensaria que só o punk fazia a cabeça da molecada nos grandes centros. Hoje, pixar o “A” dentro da bola e andar de moicano é até cool, mas nem sempre foi assim. E talvez o elo perdido dessa época no punk atual e que ainda faz som relevante pra “juventude de hoje” seja o Alexandre “Kalota” Fanucchi, vocalista da banda O Inimigo.

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Lá pelos idos de 1993, eu trocava fitas k-7 com ele por carta e, em 1996, quando fui pra SP, dividi um apartamento com o Kalota e mais dois caras. Nessa época, os tempos de “guerreiro das ruas” dele já tinham passado (quer dizer, nem tanto…) e ele já era uma lenda viva no meio straight edge. Já ia me esquecendo: a mudança era tanta que ele passara de punk da gangue Devastação, que dormia com uma machadinha debaixo do travesseiro, a ícone bom-moço da turma que não bebe e não usa drogas. Pra mim, intrigante era chegar em casa e ver o “José Aldo punk” deitado no colo da mãe dele e ela pedindo pra ele voltar pra casa dela…

O Inimigo é uma das bandas com o som mais “bonito” do hardcore nacional atual — se a ideia de “beleza” fizer sentido num contexto de música feia, que fique bem explicado. O último disco deles, Imaginário Absoluto, rendeu uma recente tour nos EUA e é a prova de que anos de estrada fazem muita diferença. E se punk, como fala o Ian MacKeye, é sobre construir coisas, o Kalota e sua banda são a prova disso. Fiquem com um papo sobre MMA, The Warriors, letras filosóficas e envelhecer praguejando contra o mundo.

VICE: Lembrei dia desses que faz uns anos você deu uma palestra sobre gangues punks e exibiram o Warriors
Kalota: Sim, foi no Espaço Impróprio [antiga casa de shows próxima à Rua Augusta administrada de um jeito bem punk, que já não existe mais].

Viu que o Sol Yurick, o autor do livro que deu origem ao filme, morreu recentemente?
Poxa, nem sabia. Ele já devia estar bem velho também. Uma pena, esse cara criou uma obra-prima.

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A questão é: você tá nesse rolê faz mais de 20 anos, foi desde punk "Warrior", bem treteiro, até virar vocalista da banda de hardcore mais classudo do Brasil, O Inimigo. Tem alguma saudade do tempo que dormia com uma machadinha debaixo do travesseiro? O que você aprendeu com tudo isso?
Na verdade, comecei a dar rolê com uns punks do meu bairro [periferia de Guarulhos, grande São Paulo] no início de 1987, eu tinha 13 anos. Tudo era muito insano, pura aventura 24 horas por dia. Tem a parte ruim, que foi quando começou muita treta entre gangues e a gente vivia com a adrenalina a mil por hora.

Posso te dizer que aprendi muito com tudo que passei. Foram dias mágicos, tudo era mais difícil, a informação não chegava, a gente se matava pra descolar um disco e, quando rolava, tinha que gravar pra todo mundo. Enfim, aprendi a dar mais valor às coisas e a não ser um zé-mané de escritório.

Inclusive a dar mais valor à vida, né? Você perdeu algum amigo nessas tretas?
[Risos] Sim, claro. Quase perdi a minha várias vezes, perdi um monte de amigos: uns mortos pela polícia, outros por gangues rivais. Uma merda tudo isso.

E você tinha noção exata do tipo "que rolê é esse que eu posso morrer a qualquer hora por causa de som e visual", ou era uma parada mais fluida, inconsciente?
Eu tinha noção que isso podia acontecer, mas preferia me arriscar do que ficar em casa. Não tinha jeito, se você fosse punk em SP nos anos 1980, você estava pondo sua integridade física em risco todos os dias.

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E agora em São Paulo, na periferia, tá morrendo muita gente e, vira e mexe, quem morre é cantor de funk ou rapper. Teve uma época que punk era alvo predileto de gambé, né?
Sim, você andar de moicano, coturno e roupa militar toda fodida era pedir pra tomar geral e se foder. Hoje isso não incomoda mais, o Neymar tem moicano, o Junior irmão da Sandy usa coturno e toca com o Andreas.

[Risos] Aquela ideia de "fazer do punk uma ameaça real" já era, né? Qual é a adrenalina ou o lance que faz um jovem senhor de quase 40 anos se aventurar a continuar nesse lance e manter uma banda com o sugestivo nome de O Inimigo?
Entao, já tô velho, né?! [Risos] Bom, começamos O Inimigo em 2001, e hoje esse nome prova o que somos (eu e meus comparsas da banda), que a minha ideia contraria a tudo o que acho errado. A gente vai ficando flexível em várias coisas, flexível de uma maneira “ok”, eu digo. Mas o “EU DISCORDO” continua 100% intacto.

Eu lembro da primeira demo d’O Inimigo. Mas vocês deram uma paradinha não?
Sim, tocamos alguns shows e paramos, voltamos alguns anos depois, tipo em 2006, com um EP novo, mas antes já tínhamos um disco, Cada Um Em Dois.

Deve ser louco passar por grind, metalcore etc., e encarar um grupo meio de "all-stars" [membros do Ratos de Porão, Presto?, Againe e Kangaroos In Tilt] do hardcore fazendo um som superelaborado.
Toquei em muita banda barulhenta, minha primeira banda foi o No Conformity em 1994, grind puro, tipo Napalm Death. Teve o I Shot Cyrus, que também fez bastante barulho e durou uns bons dez anos, sem contar o Point Of No Return. Mas eu sempre curti muito um som mais pro lado [das gravadoras] Dischord e SST, como Black Flag, Husker Du, Minor Threat, Embrace, Minutemen etc. Esse tipo de música sempre me inspirou muito e tá rolando hoje com O Inimigo.

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Tem coisa que você cantava no Self Conviction [banda de rapcore sXe na qual o Kalota cantou] que fatalmente não entra n'O Inimigo e vice-versa, certo? Não consigo imaginar você cantando “O silêncio se quebra / o silêncio descansa / quando percebo que o que odeio é o que sou” em outras bandas tuas…
Verdade, as letras d'O Inimigo muitas vezes são de confrontos internos, coisas mal resolvidas, superadas e destrutivas, mas destrutivas mesmo. Apesar da nossa música ser, digamos, "bonita", nossa missão é de destruir essa estética, nossas letras incitam a destruição. Não somos pessoas boazinhas [risos].

Explica qual é a dessa letra que eu citei. Tem ainda nessa mesma letra um verso “O inimigo mental / o inimigo fatal!”. Sou burro e não entendo direito o que você tá dizendo ali, só conseguia pensar: Será que o Kalota tá mexendo com psicotrópicos depois de velho?
[Risos] Então, eu escrevi uma frase no encarte do disco, exatamente próxima da música "O Imaginário Absoluto", onde se encontra o verso "o inimigo mental, o inimigo fatal", e essa frase diz: "O seu maior inimigo é a sua ignorância e o próprio ego". O ego e a ignorância podem se tornar seu pior inimigo e eu quis dizer meio que isso. Às vezes, a gente faz merda, várias vezes penso nas que eu fiz.

Pô, você é um cara que não qualificaria em termos como “egocêntrico” ou “ignorante”…
Mas todos temos um pouco disso, e tudo depende se você sabe lidar com isso. Tem gente que se autodestrói por não se controlar.

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Muitas das tretas que eu vi no hardcore/punk eram 80% ego ferido e 20% ignorância, né não?
Exatamente, eu digo foda-se pro ego, mesmo ele me perseguindo, sempre.

Falando em treta tem uma letra aqui que imagino que não era a intenção, mas com certeza lembra o Kalota dos velhos tempos [risos]: "Atire o que quiser em mim / escolha suas armas / estou preparado / me derrubar não vai ser fácil". É quase uma letra de rap gangsta!
[Risos] Dá pra ser, é só meter um sampler e tá tudo certo. Depois de tanto tempo vivendo uma coisa, você acaba virando essa coisa e isso me fez escrever esse som "Aço". Acho que vale pra todos da banda, todos estamos faz muito tempo tocando, persistindo nas coisas que achamos que funcionam, e às vezes você tem que ser agressivo, radical e potente pra segurar a onda.

Uma pergunta rápida: eu lembro que depois que você deixou a vida de Éder Jofre das ruas, começou a lutar jiu-jitsu em academia. Ainda luta? Gosta de MMA etc?
Putz, pratiquei jiu-jitsu por seis anos, mas já estou há muitos sem treinar. Mas continuo achando a "arte suave" algo muito louco e pretendo voltar assim que possível. Sempre gostei de praticar alguma luta. Tem um monte de retardado que usa isso pra fazer merda, eu sempre usei pra ficar mais rígido, desenvolver concentração e força interior. Curto assistir um MMA sim, o bagulho é bruto, meio bárbaro até [risos].

Vou te dar uns nomes de lutador de MMA e você fala que banda seria e o porquê.
Wanderlei Silva — O Wandeley seria o MadBall, porque ele é insano, tem o apelido de "cachorro louco" e poderia muito bem se integrar à DMS Crew e fazer sucesso nas ruas de NY.

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José Aldo — Seria mais pro punk nacional. Ele tem a cara queimada, isso é muito punk nacional, poderia ser o Olho Seco. Imagine ele cheio de queimaduras e jaqueta de couro cantando "A bomba de Neutron é muito avançada pra minha cabeçaaaa!"?

Anderson Silva — Seria um Bad Brains porque o cara apavora e o Bad Brains apavora todo mundo.

Minotauro — O GISM do Japão, mesmo porque ele já foi o rei do PRIDE por lá, tipo um samurai pros japoneses.

Vitor Belfort — O Vitor seria uma banda punk que no futuro viraria uma banda de Cristo. Tipo Christ on Parade.

Pra encerrar, imagino que o Kalota de 1987 dificilmente iria trincar no som d'O Inimigo. Qual o perfil da galera que você sente estar ligada ao som de vocês?
Em 1987, eu só queria ouvir Discharge, Ratos de Porão e Black Flag. Posso te dizer que O Inimigo continua sendo uma banda 100% hardcore e muita gente desse meio continua indo em nossos shows. Por outro lado, vão pessoas que apenas gostam da nossa música, o que acho legal também. Não consigo estabelecer um perfil, tem show que vai um pessoal mais velho, tem show que só vai molecada. Sim, me sinto o tiozão do bar às vezes, contando histórias, vivendo da nostalgia, tipo: "No meu tempo tudo era melhor do que hoje em dia" e por aí vai [risos].

Ouça O Inimigo.

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