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Joe Goddard, do Hot Chip, Acha que ‘Made in the Dark’ Deveria Ter Menos Músicas

Exigente consigo mesmo, o vocalista reflete como se sente em relação aos discos da sua banda hoje em dia.

Em Julgando Meus Discos, nós conversamos com integrantes de bandas que acumularam discografias substanciais no decorrer dos anos, e pedimos que os classifiquem em ordem de gosto pessoal.

Formado em 2000, Hot Chip, o grupo britânico de dance-pop/indie-tronica/qualquer subgênero terrível que você queira mencionar, estourou com o lançamento de seu segundo disco, The Warning, de 2006, principalmente graças ao hit "Over And Over". Centrada principalmente no núcleo de compositores Joe Goddard e Alexis Taylor, a banda vem trabalhando regularmente desde então, e está prestes a lançar seu sexto álbum, Why Make Sense?, que Goddard cita como sendo a melhor obra da banda (você pode ouvi-lo aqui). Então achamos certo pedir a um Goddard surpreendentemente exigente consigo mesmo que repassasse conosco os discos anteriores da banda, para refletir sobre como ele se sente em relação a cada um deles hoje em dia.

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5. Made In The Dark (2008)

Noisey: Por que este está no último lugar?
Joe Goddard: Este disco é simplesmente longo demais, e na verdade é todo confuso. É muito irregular. Acho que na época pensávamos que, em termos de estilo, era excitante ser tão confuso assim. Ele tem umas faixas bem estranhas, como "Don't Dance", que é meio maluca mesmo, e…. Nem consigo lembrar o nome de algumas em que estou pensando. Mas é um disco estilisticamente maluco, e em termos da produção é bastante variado. Tipo, tem "Ready For The Floor", que meio que acho boa, e fico feliz que tenha feito sucesso, porque isso nos ajudou a ter uma carreira com alguma longevidade, mas, na verdade, acho que aquele disco teria se beneficiado caso contasse com duas ou três músicas a menos, e talvez com algum tipo de ajuda externa, em termos de montar tudo e fazer com que o som fosse legal. E, de fato, nesse disco novo, fizemos uma coisa intencionalmente sucinta – ele tem dez músicas, não é longo demais – e acho que é importante ter isso em mente. É bom que a jornada do ouvinte disco adentro seja, de algum modo, compreensível. A variedade não é ruim, mas não é bom que tenha muitas reviravoltas sonoras, porque aí a audição vira uma experiência confusa.

Você diz isso, mas até hoje ele é o disco de maior sucesso da banda.
Esse é o que fez mais sucesso comercial?

Foi o que obteve as posições mais altas no ranking da Inglaterra, pelo menos.
Certo. Eu não estava ciente disso. Talvez porque The Warning meio que fez sucesso, e às vezes o disco seguinte é o que se beneficia disso, em termos de posição no ranking e tal. Mas sim. Talvez a gente devesse ter caprichado mais no disco, e aí hoje teríamos mais sucesso!

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4. One Life Stand (2010)

Tendo isso em mente, o próximo disco da lista é o disco que veio depois daquele, One Life Stand.
Sim. Tem uns momentos dele que considero muito bons. Acho que "One Life Stand", a música, é muito boa mesmo, e tinha coisas como "Brothers" também, ainda sinto bastante orgulho daquela música. O meu irmão, em especial, ficou muito feliz e empolgado quando compusemos aquela música, e ele quando bêbado sempre costumava cantá-la para mim, e nos shows virava para quem estivesse perto e dizia: "Essa música é sobre mim!". Então essa música me traz uma sensação boa. E "One Life Stand" é uma música que até hoje tocamos, e o público parece gostar muito. Trabalhamos com o Charles Hayward, do This Heat, tocando a bateria em algumas das faixas desse álbum, e aquele foi um momento muito legal para a gente, mas talvez o que me descontenta um pouco é que, como disco, sinto que não é muito coerente. A gente se dedicou muito a fazer… Bom, isso vale para todos os discos, mas no caso deste, lembro de trabalhar por períodos muito longos em – na verdade, onde estou nesse momento, onde Al [Doyle – guitarra, sintetizador, etc.] e Felix [Martin – programação e sintetizadores] têm um estúdio, na Rhoda Street, ao final da Brick Lane, e lembro de ficarmos trancados lá por semanas a fio, tentando deixar tudo no ponto certo. A sensação foi de que custou um bom tempo para montar este disco. Isso foi logo antes de começarmos a trabalhar com Mark Ralph, e acho que o som ficou muito melhor depois que tomamos essa decisão, então, em termos sonoros, não acredito que este álbum seja dos mais fortes.

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Então é um pouco irônico que vocês tenham trabalhado mais tempo justo neste disco!
Sim. Mas às vezes fazer um disco é melhor quando você trabalha rápido. Quando se tem mais tempo, é muito fácil trabalhar demais a coisa, produzir mais que o necessário, e o nosso método de trabalho nesses dois últimos discos tem sido agir com muita rapidez. Eu gosto da sensação que a música passa quando o ritmo de trabalho é veloz. Gosto de como os sons parecem novos, e do fato de que as coisas ficam menos quantizadas e menos elaboradas, menos raciocinadas. Para mim, na música em geral, o feeling das coisas é melhor quando são feitas com velocidade.

Você se arrepende de ter feito One Life Stand do jeito que fez, e de utilizar todo aquele tempo?
Quando ouço alguns desses discos antigos, The Warning inclusive, e este, às vezes acho só que a gente era muito jovem, bastante inexperiente, e não trabalhávamos num estúdio profissional, nem com engenheiros profissionais ou nada do tipo, e talvez, se tivéssemos trabalhado com Alan Moulder ou Flood ou com gente que sabe como montar músicas e discos, aí talvez as músicas teriam saído melhores. Essa é uma possibilidade que passa pela minha cabeça, porque hoje sabemos um pouco mais sobre fazer um álbum, e fico imaginando. Tendo dito isso, não é algo que me faça perder o sono também. Minha opinião é que em geral é preciso dar o seu melhor, e depois seguir em frente. Na verdade, isso foi uma coisa que Kieran Hebden me disse quando eu era um adolescente. Talvez fosse em relação à música que ele fazia, ou então eu costumava mandar umas demos para ele quando estudávamos juntos, e ele sempre dizia para que eu não me demorasse demais numa coisa – você faz e segue em frente. E eu levei esse conselho a sério.

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3. The Warning (2006)

Fico surpreso de não ver este disco numa posição mais alta.
Na percepção do público, este é provavelmente o melhor, o favorito. E gosto dele, só não coloco na mesma ordem que o público escolheria. Mas é bastante bom. Tem, é claro, a "Over And Over", que é nossa música mais conhecida, e fico muito, muito contente com a existência dessa música. Não me ressinto dela nem nada assim por ela ser o mais perto que chegamos de um hit. Ainda gosto da música e fico muito satisfeito que ela exista. Ainda a tocamos nos shows, e não encaro isso como um fardo – me sinto grato por termos conseguido criar uma coisa que as pessoas curtem. E o som do disco me agrada. Quando fizemos The Warning, foi a primeira vez que o pessoal da DFA mostrou interesse por nós. Eles ouviram demos de "Over And Over" e "And I Was A Boy From School" e começaram a falar conosco, e aí saímos em turnê com o LCD Soundsystem pelos anos seguintes, e eles nos ajudaram muito, de muitas maneiras mesmo. Então, para mim, foi uma época muito divertida e positiva, e era empolgante estar na EMI naquele momento. A EMI tinha contratado a DFA Records inteira, então, no início, dava mesmo aquela sensação de que éramos uma gangue. Saímos em turnê por Espanha e Portugal com o Black Dice e com The Juan Maclean e Tim Sweeney, e foi muito, muito divertido. Isso acabou bem rápido, porque a EMI percebeu que não sabia que porra fazer com o disco do Black Dice, mas durante um tempinho foi uma coisa muito legal.

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Você tinha noção na época de que esse seria um momento de virada para vocês, ou foi só depois de "Over And Over" fazer sucesso mesmo que percebeu que algo incrível estava acontecendo?
Lembro que a gente tinha tentado fazer umas mixagens de faixas com o Kieran [Hebden] do Four Tet, que é um velho amigo meu, e entramos em estúdio e fizemos algumas mixagens, e também, ao mesmo tempo, a gente tinha se juntado ao Tom Elmhirst – que é um engenheiro de mixagem muito famoso, que depois veio a mixar hits de enorme sucesso, como os discos da Adele – e ele fez uma mixagem de "Over And Over" para a gente; lembro de estar na [casa de shows] Koko, em Camden, e Kieran estava lá, e nós testamos várias mixagens diferentes, e lembro de tocar "Over And Over" – isso antes da música ser lançada – e dava para perceber imediatamente que a música soava muito forte e poderosa, e dava para ver as pessoas no público reagindo bem à música, mesmo sendo uma música desconhecida. Lembro de isso me deixar muito, muito entusiasmado, e de sentir tipo: "Ih, caralho, isso aqui tem potencial de fazer sucesso". Nesse ponto, a gente ainda não sabia o que isso significava. Não era a nossa ambição que ela chegasse no Top 10, e não esperávamos isso, mas dava para ver que era uma música que ia pegar, e a mixagem era boa.

Mas nunca houve uma intenção clara de entrar para o mainstream?
Bom, ambição a gente tinha. Não creio que tivéssemos objetivos específicos, mas queríamos ser uma banda de grande porte, sim. Mas não sei. Acho que, como as pessoas que nos inspiraram eram em geral artistas de grande porte, tipo Prince ou Timbaland ou Destiny's Child, ou qualquer um desses grandes, nosso interesse era tentar alcançar uma grande quantidade de pessoas, e ser uma banda pop. Não víamos nada de errado em ter interesse na música pop, e em tentar alcançar muitas pessoas. Então esse era o nosso objetivo, acho eu. Não tipo num sentido horrível, corporativo, mas queríamos tocar para multidões, e que fosse uma coisa boa, entende?

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E não há nada de errado nisso, se a coisa é feita com integridade.
Exato. Acho que no nosso caso também, antes que o Hot Chip começasse a soar mais eletrônico, mais pop, mais R&B e tal, passamos um bom tempo muito interessados em música indie. Éramos muito fãs de Will Oldham e Pavement, e de outras coisas bem mais para o lado indie, mas acho que começamos a nos sentir um pouco sufocados por aquele mundo durante um tempo. Para continuarmos a ser quem éramos – garotos brancos de Putney e Wandsworth e Fulham – ter a ambição de entrar naquele outro mundo, de música americana, de grande sucesso, quer fosse hip hop ou R&B e tal, parecia mais empolgante e diferente, em relação ao que esperavam de nós. Isso é que foi empolgante, tentar tirar a inspiração desse outro mundo. E parte desse mundo é tentar fazer a coisa funcionar no mainstream, mas manter um quê de estranheza, e tentar ser original, mas fazer uma música para o povo.

Em que sentido as coisas mudaram para vocês depois do sucesso deste álbum, e de "Over And Over" em especial?
Foi uma coisa que deu para perceber em termos de show. Essa é a maneira mais evidente de perceber o que está acontecendo na sua carreira. Passamos a tocar para públicos maiores, e virou essa coisa de que as pessoas tinham muita vontade de dançar nos nossos shows. Acho que em parte isso se deveu à ligação com a DFA também, porque foi naquela época que a DFA era tendência, muito popular, então as pessoas apareciam para se divertir, e dançavam. Percebemos que um público mais amplo nos conhecia, mas não consigo lembrar de uma grande coisa que simbolizasse a mudança do nosso status.

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2. Coming On Strong (2004)

Este foi o primeiro disco de vocês. O que faz com que ele se destaque para você nesse momento?
Acho que hoje tenho um sentimento positivo em relação ao Coming On Strong porque, no disco novo de agora, estávamos tentando revisitar algumas coisas que nos interessavam no primeiro álbum. Ele tem menos a ver com um amor pela house music, e mais a ver com… Eu estava lembrando disso outro dia, mas quando gravamos o primeiro disco, havia alguns dos pontos de referência dos quais as pessoas já falaram, como The Neptunes, por exemplo. E havia também coisas como Slum Village e JD e Minnie Riperton, esse tipo de música soul suave, sonolenta. Essas eram algumas das coisas às quais tentamos fazer referência no primeiro disco, e até mesmo Stevie Wonder e coisas do gênero – um soul e R&B bem clássico, numa faixa como "Keep Fallin'". Era desse tipo de coisa que a gente estava atrás, e o resultado saiu de um jeito bastante incomum, fragmentado, esquisito, mas era essa a sensação que a gente queria. E, nesse disco novo, nosso objetivo era criar mais dessa mesma sensação. É menos influenciado pela dance music, e mais pela música negra americana tradicional, R&B e soul e tal. Então venho pensando mais sobre o primeiro disco recentemente, mais nele do que em alguns dos outros.

Já se passaram 11 anos. Parece um passado muito distante?
Sim! E também porque algumas das músicas do álbum de estreia foram compostas bem antes de ele ser lançado. Então parece um passado muito distante, e não sei mesmo como se passou tanto tempo assim. Éramos pessoas tão diferentes naquela época. Fizemos aquele disco no meu quarto, na casa dos meus pais, em Fulham, quando eu ainda morava em casa. Eu não tinha conhecido a minha mulher, e obviamente não tínhamos filhos – parece uma vida completamente diferente. Mas há muita continuidade também, em termos do que é interessante para mim e para Alexis, e até mesmo na maneira que trabalhamos juntos. Os métodos de trabalho são muito parecidos hoje com o que eram naquela época.

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Você lembra de quais eram as suas ambições para este disco?
Não consigo lembrar de uma ambição específica, mas eram aqueles clichês de gente que está começando uma banda – você fica empolgado com o simples fato de que existe um CD. Alexis e eu viemos de um background de gravadoras independentes, minúsculas. Antes da Moshi Moshi, houve um lançamento por um selo ainda menor, então, naquele ponto, os passos eram muito pequenos. E acho que nossas ambições eram ser uma banda ao vivo fodona, e sair em turnê, e, sei lá, fazer o melhor que podíamos. Mas não acho que entendíamos de verdade que tipo de objetivos devíamos ter naquele momento.

1. In Our Heads (2012)

E aí, por que este álbum ficou em primeiro?
Ele tem faixas como “Look At Where We Are” e “Flutes”, que são músicas de que tenho muito orgulho. Quando ouço "Flutes" hoje em dia, sinto que é uma música muito bem-sucedida e interessante, em especial a maneira que ela começa bem pequena, e vai crescendo e crescendo. Ela tem uma propulsividade que acho muito boa mesmo.

Esse foi o primeiro disco de vocês para a Domino, depois da entrada na EMI – isso chegou a mudar alguma coisa?
Para ser sincero, a EMI manteve distância e foi bem respeitosa conosco quando fizemos discos para eles. Eles não nos pressionaram a fazer nada que fosse particularmente diferente, e não colocaram pressão para que fizéssemos músicas mais pop, ou usássemos outros produtores, nem nada disso. Deixaram a gente fazer o que queria, e com a Domino foi a mesa coisa. Então, não fez muita diferença na feitura do disco, mas acho que na Domino existe uma certa camaradagem, porque o pessoal de lá era amigo nosso anos antes de fecharmos com eles. São pessoas com quem a gente socializa, com as quais temos um pouco mais de ligação, e com as quais podemos conversar um pouco mais sobre música. Mas, em termos de fazer a música, nunca sofremos essas pressões externas da parte de nenhuma das duas gravadoras.

O Hot Chip me parece ser uma banda que sempre criou o próprio caminho, então isso deve ter ajudado vocês nesse sentido.
Sim. Para nós é importante seguir nosso próprio caminho, e ir atrás do que nos interessa. Esse provavelmente é um dos motivos de ainda estarmos nessa.

Tradução: Marcio Stockler