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Entrevistamos os Paulistanos do Noala e Conseguimos um Streaming Exclusivo

A banda paulistana lançou um petardo sludge/post metal chamado Humo.

Este ano tem sido uma boa época para o metal nacional. Aquele mesmo que morreu um tempo atrás, segundo o Edu Falaschi. São Paulo tem rendido uma boa safra de sons pesados, e em outras oportunidade já abordei o assunto por aqui.

Uma das bandas que está no centro de todo esse papo é o Noala. Formada em 2009 por uma galera que já corria loucamente pelo underground paulistano, a banda começou devagarinho, aos poucos fazendo esparsos porém intensos shows, apresentado as músicas novas uma por uma.

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Integram a banda os seguintes meliantes: Alessandro França Soares (O Cúmplice, Diáspora, Intifada) nas guitarras, Estevão Trabbold nos teclados e barulhinhos, Marcos Felinto (Afro Hooligans, Abske Fides e também no Intifada), Rodrigo Japa (Presto?, Are You God?) arrebentando a bateria e Sandro (Intifada, Queda e Morsa) no baixo.

O som deles, as más línguas diriam, poderia ser um post-metal. Mas esse rótulo carrega em si aquela xaropice pretensiosa do post-rock de skatista. O twist do Noala é, sem muita cerimônia, pegar elementos dessa linguagem e aplicar de forma bastante energética, com o Japa esmurrando a batera sem dó, timbres modernos à lá Stephen Carpenter (Deftones), tempos quebrados e krautrockismos Neurosis/Pink Floyd. Fora os performáticos dreads esvoaçantes do Marcos.

Recentemente os caras lançaram o seu primeiro disco, Humo (como em húmus ou “fumos”), lançado em parceria pelos selos Equivokke Records, Karasu Killer e Loja 255. Desde 2012 a banda está compondo, gravando e produzindo o disco, que eles gravaram duas vezes. “Na primeira não nos reconhecíamos ao ouvir, jogamos tudo fora e gravamos novamente e então chegamos em nós mesmos”, explica Felinto.

Eles, antes do lançamento, tinham colocado para streaming o som “Snake Skin”. Amigavelmente pedimos para eles liberarem outro som para o Noisey, e fomos presenteados com “Humano Vinga Na Historia do Impossível”, que também está no Humo e mostra o lado mais direto da banda, menos sludge mas sem deixar as harmonias etéreas e os tempos ímpares de lado. Ouça abaixo.

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Enquanto ouve, leia o papo que tive por email com os caras, onde eles contam a história da banda, as influências, falam sobre o metal, a suposta cena instrumental e mandam beijo e abraço para metade do metaleiros do Brasil.

Noisey: Como surgiu o Noala?
Marcos Felinto: Por incrível que pareça somos um desdobramento de outros projetos, com raízes fincadas no grind/crust core, black metal e até no indie e 80’s. Alessandro e eu trabalhamos juntos a nossa linguagem e entrosamento musical há mais de uma década e de certa forma a Noala é resultado do esforço que fizemos para continuarmos tocando juntos. Sandrinho foi um acertado furto que fizemos, na época ele tocava comigo em outra banda. Logo que notei o talento tratei de puxar para a Noala. O Rodrigo Japa veio em outro hiato, no qual estávamos por pendurar as botas e desistir da vontade de manter o projeto. Ele veio ninja demais, com uma vontade atropelada de tocar e o braço pesado. Já possuíamos uma identidade musical formada, mas foi a partir da entrada dele que passamos a exercitar de modo mais fluente a nossa sonoridade atual. Depois ainda veio Stê, nosso cientista maconheiro, que nos fez readaptar a linguagem a suas propostas. O resultado foi dos melhores, ele expandiu as nossas possibilidades sônicas num nível que nunca havíamos experimentado.

De onde vem o nome da banda?
Alessandro França Soares: Essa pergunta sempre nos pega. O nome da banda vem de uma gata. Sim, de uma gatinha que morava comigo em meados de 2006/2007. Ela veio a falecer. Nessa época tinhamos o Intifada, e quando esta banda acabou, pensamos em uma variedade de nomes.

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Marcos: Descartamos sugestão após sugestão até que apareceu o nome Noala. Acho que no contexto cada um de nos pronunciamos o nome internamente, tornamos verbal e notamos surpresos que a palavra soava bem ao sair da caixa craniana, cabia na boca, possuía desenho e um volume sutil.

Sandro Dias: O Noala também tem como referência a princesa Nuala, do Sandman.

Como foi criado esse som de vocês? Era algo que vocês programaram ou ele simplesmente surgiu naturalmente?
Alessandro: O Noala nasceu no fim do Intifada. Nessa época já experimentávamos trabalhar com a sonoridade que hoje tocamos. Era uma colcha de retalhos de bandas que curtiamos na época, as coisas giravam em torno de Neurosis, Black Sabbath, Amebix ,His Hero Is Gone, Extreme Noise Terror, Entombed e mais um monte de outras bandas. É uma mistureba maluca hahaha. Quando o Intifada terminou, resolvemos continuar com a proposta que já vinha sendo desenvolvida naturalmente. Não programamos o que íamos tocar, simplesmente soa assim, pois gostamos de fazer música lenta, em determinados momentos quebrados e por aí vai.

Marcos: Fazer música sempre guarda algo de incontrolável, as ideias em rascunhos possuem uma carga que é completamente transformada quando a trocamos com outros membros da banda. Muitas vezes compúnhamos a partir de esboços fechados que fazíamos em casa, quando tínhamos tempo para tocar em casa. Consumidos por outros afazeres, passamos a compor nos próprios ensaios e tudo ficou muito mais dinâmico, mais representativo do grupo mesmo. Muitas vezes o Alessandro descontrói alguns riffs que eu faço a partir do erro de execução, a prática fica corrente e o erro deixa de existir, acaba virando o complemento que torna a composição mais completa.

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Vocês acabaram de lançar o disco Humo. Primeiro: por quê esse nome?
Sandro: Humo é o mesmo que húmus, o estado de descomposição da terra que a deixando escura. Acho que remete ao som da banda esse estado lento causado por bactérias do solo. Também pode ser ‘fumo’, para os entendidos da coisa.

Como foi o processo de composição e gravação do disco? Todo mundo palpitou, compuseram no estúdio já ou em ensaios?
Alessandro: O processo de composição ao meu ver é simples. Normalmente alguém chega com um riff e começamos a desenvolver coisas a partir da ideia inicial nos ensaios. A gravação fizemos com alguns amigos nossos do Estúdio Improviso. O Kexo do Infamous Glory, o Gabriel “Valvulas” Peret e o Kiko do Reiketsu que produziram e nos ajudaram nessa empreitada.

Marcos: A composição não é tão simples não, primeiro vem o ensaio e lá tudo é lindo e pesado, como deve ser. Já no estúdio, gravamos pela primeira vez as músicas que nunca tínhamos ouvido fora dos ensaios e fomos obrigados a preencher os buracos e recompor trechos que no fone de ouvido pegavam muito mal, por serem inexpressivos ou por circular em um campo harmônico que não havíamos percebido enquanto bangueávamos felizes no estúdio. Kiko, Kexo e Gabo nos ajudaram muito, foram fundamentais, cada qual com seus vícios e suas chatices nos podaram naquilo que era excesso. Gravamos o disco duas vezes, na primeira não nos reconhecíamos ao ouvir, jogamos tudo fora e gravamos novamente e então chegamos em nós mesmos.

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Eu conheci o som de vocês através de um pessoal falando que vocês eram o Godflesh brasileiro, o Neurosis tupiniquim etc. É por aí mesmo?
Alessandro: Acho que pode ser por aí sim. Inegavelmente somos influenciados por Godflesh e Neurosis. Mas não só por isso. Gostamos muito de Black Sabbath, Amebix, Led Zeppelin, Killing Joke, Depeche Mode, Pink Floyd, Beatles, King Crimson, trilhas sonoras (Philip Glass, Morricone, John Carpenter) e mais um monte de outras coisas que não me lembro agora. Enfim, somos produto destas referências e de muitas outras. Claro que Neurosis e Godflesh figuram como importantes influências como dito anteriormente, mas não ficamos restringidos à isso.

Marcos: Cheguei num ponto de limitação na capacidade de receber novas influências muito cedo. Talvez até hoje eu tenha de modo pronunciado as mesmas influencias que tive há 10 (ou mais) anos atrás, não tanto no que se refere a sonoridade dos riffs mas a montagem da ossatura das musicas, nas sutilezas, texturas, melodias e passagens. Radiohead, Dead Can Dance, Portishead, Alice in Chains e Depeche Mode sempre influenciam meu modo de pensar composição em quase todos os projetos nos quais me envolvi. É dessa base que acabo pensando adaptações que dialogam com outras influências. Na real temos muitas referencias, as vezes elas partem de imagens as vezes de sons.

Já ouvi muito, mas hoje em dia acho post-rock (e, no limite, o post-metal), coisa de bundão. Vocês se sentem confortáveis com essas caracterizações quando são usadas para descrever o som do Noala?
Alessandro: Não vemos problemas com caracterizações de nosso som. Quem quiser taxar de pós ou pré pode taxar. Não temos muitas preocupações com essas nomenclaturas. A princípio, nos vemos como uma banda de metal, mas essa não é uma preocupação nossa saber se somos realmente true metal ou pós rock/metal.

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Marcos: Talvez taxar seja importante em um sentido, isso ajuda muitas pessoas a organizar os gostos, a procurar no lugar certo. Há algo limítrofe nisso também, mas prefiro olhar pelo lado positivo. O post-metal tem algo de equivocado pois nele se encontra “toda” banda que toca algo pesado lento e com reverb. Nós simplesmente gostamos de peso, lentidão, reverb e repetição. Não fazemos questão de nos aproximar ou afastar de qualquer gênero ou cena, e neste sentido somos um tanto indiferentes ao modo como nos categorizam. Queremos tocar apenas, no estúdio, nos palcos, no chão, nos nervos e no peito, no topo do crânio. Depois de tudo isso as coisas fogem do nosso controle e essa parte do processo não queremos administrar. O tempo sempre se encarrega de moldar as percepções, de apresentar as especificidades dos grupos.

Vocês usam vocal, mas de uma forma bastante esparsa, etérea, quase como um drone. Nos últimos anos, o som instrumental, mesmo o mais pesado, tem espocado de forma criativa pelo Brasil. Tem Elma, Pata de Elefante, Fóssil, Marginal's, Bemônio, e outras boas bandas rolando. Existe uma "cena instrumental" brasileira?
Alessandro: Olha, conheço essas bandas e alguns de seus integrantes. Já vimos shows de quase todas elas e sinceramente não sei nem se existe uma “cena independente/instrumental” em São Paulo. Observo que há tentativas de fomentar/produzir algumas coisas, e as bandas correndo com seus materiais de divulgação e afins. Alguns festivais vieram à tona e sumiram, como já rolou. Mas não sei se o problema é o termo cena/cenário independente que dá a impressão de algo, ou melhor de uma engrenagem mais funcional.

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Marcos: Concordo com Alessandro sobre as dificuldades em se definir uma cena em torno da musica instrumental, não creio que exista algo em termos de estrutura, de forma consolidada, o que existe são focos múltiplos, difusos e muitas vezes desencontrados. Cada banda cria o seu circuito e às vezes um tangencia o outro em algum evento de porte maior, e que foge da possibilidade logística dos circuitos menores. Ainda gostaria de ver o Tigre Dente de Sabre compartilhando o palco com Elma ou Labirinto. Todas estas bandas citadas possuem membros com idades similares, isso faz parte de uma maturação. E não digo isso sugerindo que a música instrumental é um ponto mais alto, talvez seja mais uma fase da exploração da linguagem dos sons, isso uma hora pode levar à outras necessidades, como explorar a linguagem visual ou corporal em conjunto com a música.

Mais especificamente, há espaço no circuito underground para o "metal instrumental" (ou quase instrumental)?
Alessandro: Sim, há espaço para qualquer tipo de expressão musical/artística. De uma maneira ou de outra, é possível fazer algum evento e se mostrar para as outras pessoas. Mas isso não quer dizer que haverá sempre público afim de te ver hahaha.

Vocês fazem um número razoável de shows para uma banda que lançou o primeiro disco recentemente. Como vocês preenchiam o set?
Alessandro: Sempre tocamos algumas músicas que compõem esse disco e outras que tínhamos lançado apenas na internet. Neste segundo semestre iremos gravar mais um material e esperamos tê-lo em 2014.

Rodrigo Japa: Devido ao tamanho das músicas, nunca tivemos problema em preencher o set. O set geralmente é composto de três à cinco músicas hahaha.

Como esses shows ajudaram a dar forma para o som de vocês e, consequentemente, o disco?
Alessandro: Os shows ajudaram na nossa performance de tocar as músicas. Mas mais especificamente, na nossa logística e organização enquanto banda, pois sempre dependíamos e dependemos de nossos amigos para nos ajudar a trazer, carregar amplificadores e afins.

Agora com o disco em mãos, quais são os planos para o futuro (a curto e longo prazo) do Noala?
Alessandro: Inicialmente é tocar, fazer coisas. Expôr nosso disco para as pessoas que gostem e tenham paciência para ouvir nossas músicas. A longo prazo, continuar tocando, fazer uma tour internacional e comer rosquinhas e tomar muita cerveja de trigo alemã ou belga.

Marcos: Para agora, queremos tocar, circular por outros estados, pela nossa cidade, conhecer gente criativa e de bom espirito, pensar colaborações, ajudar a os selos a desovar os futuros calços de mesa que eles lançaram. Para o futuro, pretendemos gravar, fortalecer a fraternidade entre nós e quiçá nos tornarmos rockstars, para que o Alessandro tenha uma vulva por dia para chafurdar o nariz.
Alessandro: É mentira isso aí em cima hahaha.

Aqui vocês deixam um recado para os fãs, xingam alguém, sei lá. Fiquem à vontade.
Alessandro: Primeiramente obrigado pelo espaço cedido, quem quiser entrar em contato conosco basta procurar nossa fanpage no Facebook ou escrever para . Reiterando os agradecimentos, não poderíamos deixar de citar as bandas e amigos que nos ajudam. Um abraço para Kexo e Infamous Glory, Kiko e Reiketsu, Filipe Equivokke e Karasu Killer Recs , Rodrigo Smile, Cauê Nascimento, Gabriel e James Peret, Ailton e Cleyton 255 e Travolta Recs, Eduardo Vaz e Flávio Bá, Marina Arruda, The Black Coffins, O Cúmplice, Afro Hooligans, Deaf Kids, Meant to Suffer, Lados Opostos, Projeto Trator, Black Embers Recs, Intervalo Banger, Ugra Press, Erick e Labirinto, Test, Augusto e Mito da Caverna, Crânula. Aos velhos e novos amigos que estamos fazendo nessa jornada.

Marcos: Quero deixar uma mensagem misteriosa, endereçada ao Kexo, uma das cabeças por detrás do disco, mas não só. Quem chegar próximo do sentido da ideia ganha um pack Noala. A mensagem é “2021”. Beijos seus putos.