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“BH é o Texas”: O rock triste e a cena fantasma de Belo Horizonte

O espírito vanguardista do Clube da Esquina segue insuperável na capital mineira, onde no circuito atual dividem espaço bandas covers, engraçadinhas e uma nova geração indie essencialmente melancólica.

Fábio Carvalho. Foto por Raquel Rodrigues.

Depois de uma certa música do Lupe de Lupe, virou clichê dizer que há algo de podre no reino de Minas Gerais. Mas não dá pra negar que a província de Belo Horizonte é conhecida por ter muitas bandas. "BH é o Texas". "Aqui as coisas acontecem orgânica e desordenadamente, desvinculadas umas das outras” diz Marcella Lopes, vocalista da recém fundada Mietta. Marcella tem razão. De uns tempos pra cá, o cenário musical de Belo Horizonte tem divergido muito entre si. Claudio Valentin, baixista do Lollipop Chinatown, concorda que o pensamento provinciano é maioria por lá: “As pessoas parecem estar vivendo um revival de Clube da Esquina o tempo todo. Todo mundo quer viver a Tropicália, quer fazer som parecido, e não veem que isso já foi”, explica.

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Não vou mentir. De uns meses pra cá, a Geração Perdida de Minas Gerais me apresentou um punhado de bandas interessantíssimas, que me fizeram reencontrar uma identificação musical há muito tempo soterrado em novos lançamentos de música pop da internet. Então, munido de pouco dinheiro, mas muita vontade de conhecer uma das cidades mais ricas e interessantes do sudeste brasileiro quando o assunto é diversidade musical (e louco pra provar o melhor pão de queijo do mundo) visitei Belo Horizonte pela primeira vez.

Pois bem, acredita-se que o motivo pelo qual a maioria dos belo-horizontinos prefere investir na fórmula de seus antecessores é o sucesso de bandas como o Graveola e o Lixo Polifônico que, com mais de dez anos de estrada, já tem prestígio e reconhecimento nacional. Em uma entrevista para o jornal mineiro O Tempo, o vocalista José Luís Braga defende que a banda trouxe uma oxigenação para a música mineira: “Acho que a nossa importância foi ser uma espécie de chave para abrir um novo jeito de fazer música, depois da decadência das gravadoras”.

O que José quer dizer é que, em meados de 2005, o Coletivo Fora do Eixo chegou a Belo Horizonte tomando de assalto os nichos culturais da cidade, trazendo de Cuiabá ideias frescas para colocar as bandas em movimento. Dali saíram dois fortes coletivos artísticos independentes: o Fórceps e o Pegada que, graças ao conhecimento da chamada economia colaborativa e trabalho em equipe, conduziram os músicos pelos caminhos tortuosos dos editais e das leis de incentivo. O Graveola gravou assim seu primeiro e autointitulado disco, e isso fez com que muitos artistas independentes mineiros pudessem desbravar estas novas trilhas.

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(“A Monno abriu pro show do Keane.

Hoje em dia a gente sabe que o Lupe nunca vai abrir um show desses”.)

Porém, enquanto isso, em outro canto da cidade — mais para os lados da Zona Norte e da Lagoa da Pampulha, onde hoje rola umas jams ao pôr do sol movidas no binômio cerveja e amizade — meia dúzia de gatos pingados também tentavam seu lugar ao sol, só que com uma sonoridade um pouco diferente, que não se adequava a essa linha brasilidades da nova MPB graveolística. Vitor Brauer, vocal do Lupe de Lupe e idealizador da Geração Perdida explica: “Naquela época tinham umas bandas muito modinha, meio indie rock, que dava pra vender. Tinham uns eventos que eles se juntavam com o Graveola, que em BH também vende muito até hoje. Tinha a Monno, a Valv… O Lupe estava gravando o primeiro EP, o Recreio, e o sonho era ser grande igual essas bandas aí. A Monno abriu pro show do Keane. Hoje em dia a gente sabe que o Lupe nunca vai abrir um show desses”.

ACEITAÇÃO

Vitor sabia que havia muito trabalho pela frente: “O povo de BH é muito tradicional, a galera não é muito progressista. A maior vanguarda ainda é a do Clube da Esquina, pra se ter uma ideia. No começo, o Lupe estava num lugar esquisito entre o punk, o rock e o experimental. E nenhum punk ia no show, ninguém da galera experimental ia no show, então a gente teve que insistir muito. Daí tentamos transformar o show numa coisa divertida, pra todo mundo curtir e se identificar, não ser algo muito cabeçudo ou pedante. A gente percebeu que tinha que falar da gente mesmo, porque tem muita banda falando de forma criptografada, com letras todas trabalhadas nas palavras difíceis, que falam, falam e não falam nada. Daí começamos a ser aceitos, meio que por insistência”.

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(“

Triste e sem motivos, não tem coragem de desistir”)

O tempo passou, os coletivos se dispersaram, e tudo passou por uma refazenda: “Todo mundo que gostava de música assistia o programa Alto-Falante [da Rede Minas], e era assim que as bandas ficavam conhecidas. Hoje em dia, os meios como esse morreram, é tudo meio no ‘boca a boca’, isso influenciou na cena atual” pontua Vitor. Fernando Bones, baixista do Aldan, concorda: “Hoje não rola tanto espaço na mídia. O Alto-Falante sofre altos perrengues por ser de uma emissora estatal. Antigamente a gente tinha casa de show com capacidade pra mil pessoas enchendo direto, o que só foi diminuindo. Hoje a [casa de show] que tem capacidade para trezentas [pessoas] custa a encher". Como diz a música do Aldan, “a cidade de Jeca Tatu que torce pro Rogério Ceni” voltara ao seu marasmo.

“O público roqueiro de BH ficou muito conservador. Hoje tem show de banda cover com mais de 600 pessoas. Daí a gente acaba tendo que ganhar relevância em cima da popularidade dos outros” conta André, ex-Cães do Cerrado e atual vocalista do Jota Quércia, um duo de rock zuera que faz música sobre o Eymael (o democrata cristão), paródia com o jingle do Itaú e fica de cueca no palco. Na mesma noite em que André me falou dessa cena cover de BH, eles fizeram um show n’A Obra, uma das casas mais famosas da capital, pra pouco mais de 20 pessoas.

INCONFORMISMO

Porém, foi seguindo os ensinamentos de persistência do Lupe de Lupe, somados com inconformismo e aquela sensação antiga de não-pertencimento que a geração indie mineira dos vinte e poucos anos tomou as rédeas do rolê com o autoproclamado Rock Triste: um tipo de post-hardcore com influências de folk e math rock que acende a chama do emo revival. Jonathan Tadeu, ex-Quase Coadjuvante, membro da Geração Perdida e um dos caras mais requisitados da cidade quando se trata da velha máxima do faça você mesmo, explica: “Eu tenho dificuldade pra falar que existe uma cena de rock em BH, porque são vários grupos que fazem coisas diferentes. É tudo muito fragmentado e as cenas não dialogam. Mas acho que, pela primeira vez está acontecendo um rock muito influenciado pela Lupe, pelo emo, pelos anos 90 e pelo experimental”.

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(“Talvez seja melhor aprender a lidar com a própria solidão antes de viver a dos outros”)

Foi assim que Diego Arcanjo, baixista da El Toro Fuerte, sacou de prima esse deslocamento e começou a se mexer. Eles acabaram de debutar, em março deste ano, o elogiado single “Se A Gente Tivesse Se Conhecido”, pela Bichano Records, e isso o motivou a organizar “na tora” (que significa “na raça” ou “por conta própria”) o Bichano Fest BH, na Casa do Jornalista, que juntou a El Toro Fuerte e Fábio de Carvalho aos paulistanos da Raça e da Ombu, estabelecendo uma conexão MG-SP, com este repórter como testemunha ocular.

Entre latões de cerveja a seis reais (o preço mais justo que eu já vi), Diego me contou que só a vontade de ver suas bandas preferidas tocando era suficiente pra fazer dar certo: “O Jonathan [Tadeu] nos colocou em contato com a Casa do Jornalista e deu todo o suporte no que a gente precisava pra marcar a data e correr atrás de divulgação. Daí fomos atrás da Bichano Records e aí a recepção da ideia foi ótima. Com um mês e meio de antecedência começamos a divulgar. Fechamos com os meninos de SP e eu literalmente coloquei todo mundo na minha casa”. O show atingiu a marca de mais de 150 pessoas, lotando a casa — uma conquista ao levarmos em consideração que naquele mesmo sábado de abril (um dia atípico para shows indie) o próprio Graveola se apresentava gratuitamente numa praça da cidade.

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(“Existe uma particularidade nas festas da juventude que nasceu no fim do século XX”)

Quem abriu o show foi o Fábio de Carvalho. Ele tem 19 anos e é uma das promessas dessa nova geração de rock triste. Suas letras melancólicas sobre dilemas existenciais que vão muito além de sua idade encaixam perfeitamente em suas melodias e lembram muito o Bob Dylan em seu ápice. Seu disco de estreia, Tudo em Vão, foi apadrinhado por Vitor Brauer: “Quando eu conheci a Geração Perdida, comecei a entender esse jeito meio confuso de fazer música. Foi ali que eu me encontrei e assumi que eu queria fazer isso. Em BH é tudo muito estranho, as pessoas não têm muito interesse nas coisas, todo mundo é muito fechado num mundinho. É muito fácil se alienar nessa cidade, parece um conformismo”, explica.

João Carvalho, vocalista da El Toro, também é fã de Lupe de Lupe e tem o mesmo pensamento de Fabinho: “Eu acho que o Lupe condensou as influências todas num lugar só, sabe? Pavement, emo, noise. Acho que eles foram a primeira dessas bandas que a gente não sabia explicar direito o que era, mas que, por conta disso, teve uma afetação emocional muito grande na gente. De alguma forma, isso uniu a gente, sabe?".

REGULARIDADE

Conectando tudo isso está a Bichano Records: um selo carioca fundado em janeiro de 2014, que serve como vitrine para bandas e artistas que têm esta cara de emo revival, como Gorduratrans e Nvblado — as meninas dos olhos do catálogo. Para Fred Zgur, um dos idealizadores, tudo está rolando bem demais: “Poder viajar pra colar em um rolê que leva o nome da Bichano, e que funcionou da forma que funcionou, é uma sensação de satisfação muito grande. Acho sim que de uns poucos anos pra cá a coisa tá cada vez mais alastrada, com mais gente ativa se organizando. O rolê está se tornando regular de fato, que é o sonho e o objetivo de todo mundo. A Bichano existe unicamente pra fomentar, integrar e tentar fazer isso tudo girar”.

Jonathan Tadeu acredita que a Bichano tem um futuro brilhante pela frente: “Eu me empolguei muito quando o Fred me falou que queria fazer esse rolê em BH. Eles têm um catálogo gigante e um público fiel. Até antes de eu conhecer os caras eu já ouvia o que aparecia por lá. Eles já criaram uma credibilidade e eu acho que a Bichano é um negócio pronto pra explodir”. Dá pra perceber. Porque tudo que motiva estes jovens é a pura vontade de ver acontecer. Então, mesmo prevendo tempestades à frente, eu não temo mal algum, porque pelo menos se tratando de som, é um tempo lindo para estar vivo.

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