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“A Outra Mulher” Dentro de Nina Simone: Porque a Alta Sacerdotisa do Soul Está Voltando

O novo documentário do Netflix lança um olhar magistral na complicada dualidade da lendária cantora.

A voz profunda e quase andrógina de Nina Simone era capaz de preencher um cômodo até o teto e faz exatamente isso em seu cover de 1958 para “The Other Woman”. A canção é de uma tristeza penetrante – Nina canta sobre a vitória silenciosa de uma esposa sobre a amante de seu marido, acreditando que seu homem sempre voltará para ela. Além de ser indicativo de um humilde triunfo nas dinâmicas entre homem e mulher da época, a música também pode aludir às batalhas internas da vida de Nina entre duas mulheres – a bem-sucedida e inovadora “Alta Sacerdotisa do Soul” e a bipolar imprevisível que sofria com testes de saúde mental bem antes de doenças como estas serem diagnosticadas normalmente.

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A vida genial e trágica da cantora passa por um momento de reapreciação popular, com um filme biográfico controverso, Nina, e um disco-tributo com nomes como Ms. Lauryn Hill e Usher. Mas ela está exibida quase por completo no documentário do Netflix, What Happened Miss Simone?, que estreia nesta sexta (26). Dirigido pela diretora indicada ao Oscar Liz Garbus, o filme é repleto de entrevistas com amigos, familiares e a própria Nina em gravações inéditas.

Continua…

O documentário pinta com talento a dualidade de Nina Simone – de um lado temos a pioneira dos direitos civis que nasceu como Eunice Kathleen Waymon na época da segregação racial americana, e do outro a maníaco-depressiva louca que surtava com amigos e fãs. What Happened, Miss Simone? acompanha a carreira da musicista e seu envolvimento com o movimento em prol dos direitos civis com a canção “Mississipi Goddam” nos anos 60, passa pelo exílio imposto a si mesma e a luta contra o vício no decorrer das próximas décadas, chegando à redenção final e aceitação crítica renovada nos anos que precederam sua morte, em 2003.

O que mais importa em Nina Simone, e é capturado com sucesso no documentário, é que ela não só era uma musicista genial, mas também uma musicista negra genial. Para ela, sua própria negritude era saturada e inevitável. No começo da carreira, antes de sua música tratar de raça pública e explicitamente, ela lutava com sua aparência. Após alguns trechos de seu diário serem revelados ao público, esta batalha ficou ainda mais clara. Em dado momento, ela escreveu para si mesma.

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Não posso ser branca e sou o tipo de menina de cor que parece com tudo que os brancos desprezam ou foram ensinados a desprezar.

Se eu fosse um garoto, não importaria tanto, mas sou uma garota e estou diante do público o tempo todo para que possam zombar e me aprovar ou desaprovar.

Por mais que o diário de Nina fosse algo privado, seus shows e canções não eram. Em meio a uma nuvem de fumaça, o bombardeio a uma igreja que matou quatro crianças negras em Birmingham Alabama em 1963 mudou a vida da cantora para sempre – assim como a de muitos outros negros norte-americanos.

Nina Simone sentou e escreveu “Mississipi Goddam” em uma hora. Após seu lançamento em formato de single, a música foi boicotada em alguns estados do Sul dos EUA, e cópias promocionais foram destruídas por estações de rádio em outros locais. Na época, o público norte-americano mal tinha ouvido um palavrão no título de uma música ou qualquer condenação explícita de violência contra negros. Mesmo com a controvérsia chegando às manchetes, a estrela de Nina brilhou ainda mais.

Ainda assim, enquanto ela se aproximava de ícones da luta pelos direitos civis e aos poucos se tornava uma, com shows em eventos como as marchas de Selma a Montgomery, sua vida pessoal seguia em frangalhos nos bastidores. Como mostrado no documentário, enquanto fazia turnês incansavelmente, ela escreveu para si mesma: “Preciso tomar pílulas para dormir e pílulas amarelas para subir no palco”. Nina bebia, tomava remédios e se valia do sexo para se manter sã, tudo com graus variados de fracasso. Ela passava por crueldades físicas, além das mentais: ao longo de seu casamento com o ex-sargento da polícia de Nova York Andrew Stroud, Nina era frequentemente agredida, sem qualquer razão, e sem qualquer piedade. No papel de marido e agente, Stroud controlava cada detalhe de sua vida.

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Ao passo em que a dedicação da cantora à causa dos direitos civis aumentava, seu elo com Stroud enfraquecia. Enquanto ela escrevia música após música sobre ser negro nos EUA, Stroud via estas canções como obstáculos para o sucesso contínuo no mainstream. Para nossa sorte, a Nina Simone retratada no documentário de Garbus é a heroína negra falando diretamente com seu povo perseguido.

No disco Let It All Out, de 1996, a décima faixa chama-se “Images”. Cantada à capela, a música é baseada em um poema do poeta afro-americano Waring Cuney. Curiosamente, o disco também conta com “The Other Woman”, oito anos após Nina tê-la tocado pela primeira vez. Assim como a narradora daquela canção falava de seu sofrimento com o fardo de ser esposa de um marido adúltero, “Images” também tem uma Nina Simone cantando diretamente ao público feminino. Porém, desta vez, ela fala diretamente da mulher negra e seu orgulho cada vez menor. De diversas formas, ela canta para o seu antigo e vulnerável eu:

She does not know her beauty
She thinks her brown glory
She thinks her brown body has no glory

If she could dance naked under palm trees
And see her image in the river she would know
Yes, she would know

But there are no palm trees in the street
No palm trees in the street
And dishwater gives back no images

[Ela não conhece sua beleza

Ela pensa que sua glória marrom

Ela pensa que seu corpo marrom não tem glória

Se ela pudesse dançar nua sobre as palmeiras

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E ver sua imagem refletida no rio, ela saberia

Sim, ela saberia

Mas não existem palmeiras nas ruas

Não existem palmeiras nas ruas

E a água da louça não reflete nada]

Antecipando sua própria decisão de sair dos EUA por conta de impostos cada vez maiores e sua desilusão com o progresso dos direitos civis, Nina romantiza o retorno de seu povo à África. Usando imagens de palmeiras e “o rio”, ela abraça seu papel como mãe às mulheres negras equivocadas. Como de habitual, sua significância cultural lançou uma sombra sobre seus problemas pessoais, que ainda seguiam nos bastidores.

O que torna o legado de Nina Simone tão desafiador é o período mais obscuro de sua carreira. Após sair dos EUA em 1974, ela foi da Libéria à Suíça e então França, com pequenas paradas entre um país e outro. Em determinado momento, já quase indigente, ela foi encontrada vagando pelos saguões de um hotel, nua, faca em punho. Depois, ela atearia fogo em sua casa na França. Amigos a encontraram em frangalhos e aos poucos ajudaram a reconstruir sua vida e carreira. A outrora poderosa “Alta Sacerdotisa do Soul” havia chegado ao fundo do poço, mas ao voltar a cantar nos anos posteriores de sua vida, ela recuperou parte daquilo que havia sido perdido.

Exilada, Simone escondia-se nas sombras de sua doença mental. Como a amante ilegítima em “The Other Woman”, Simone passou boa parte de sua vida sozinha e sem um parceiro duradouro.

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The other woman enchants her clothes with French perfume
The other woman keeps fresh cut flowers in each room
There are never toys that's scattered everywhere

And when her own man comes to call on her
He'll find her waiting like a lonesome queen
Cos when she's by his side
It's such a change from old routine

But the other woman will always cry herself to sleep
The other woman will never have his love to keep
And as the years go by the other woman
Will spend her life alone

[A outra mulher encanta suas roupas com perfume francês

A outra mulher deixa flores novas em cada cômodo

Nunca há brinquedos espalhados por aí

E quando seu homem chega junto dela

Ele a encontrará lhe esperando, como uma rainha solitária

Porque quando ela está ao seu lado

É uma mudança da velha rotina

Mas a outra mulher sempre chorará até dormir

A outra mulher nunca terá seu amor para guardar

E com o passar dos anos, a outra mulher

Passará sua vida sozinha]

Na vida real, Nina Simone acabaria sendo essa “rainha solitária” a qual cantava sobre. A queda em sua carreira foi imposta por si mesma por conta de sua recusa em gravar músicas sem mensagens sobre direitos civis – algo que ela acreditava piamente. Em meio às lutas da cantora e o fracasso nos anos 70 e 80, há o triunfo silencioso de nunca ter aberto mão de seus ideais. Ela mostrou aos negros, e às mulheres, e à comunidade lésbica e gay crescente que era atraída por ela, que não deveriam ceder em nada, uma mensagem que ressoa até os dias de hoje.

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É apenas justo que ela ganhe reconhecimento novamente por meio do documentário What Happened, Miss Simone?, o controverso filme autobiográfico Nina estrelando Zoe Saldana com uma prótese no nariz, e o disco-tributo Nina Revisited: A Tribute to Nina Simone. O álbum conta com a semelhantemente guerreira Lauryn Hill cantando “Feeling Good”. É no mínimo adequado que Laurynl esteja no disco com sua voz sombria, já que provavelmente foi Nina Simone quem deu as bases para que mulheres poderosas e de opiniões fortes como ela surgissem.

Independentemente de ser inovadora ou surtada, Nina Simone vivia nestas duas personalidades, muitas vezes ao mesmo tempo. Ela era, inegavelmente, uma mulher dinâmica em uma época em que era difícil ser uma. Adicione ao caldo a identidade negra a qual relutava e depois defendia, e ela não é só Nina Simone – é um ícone cultural. E mais importante, ela serviu de base para muitas mulheres e negros norte-americanos ao provar que eles poderiam ser brilhantes, mesmo que imperfeitos aos olhos dos outros.

Austin Bryant é jornalista e mora em Boston. Siga-o no Twitter.

Tradução: Thiago “Índio” Silva