FYI.

This story is over 5 years old.

Música

O Brian Fallon Do Gaslight Anthem Só Quer Levar Uma Vida Normal

A julgar pelo seu novo carro, Brian Fallon tá bem sussa de estrelato. Ele até se mudou pra um bairro afastado pra não precisar dar tanto autógrafo.

Fotos de Dan Ozzi

Brian Fallon fala de seu último carro da mesma forma que a maioria das pessoas fala das fotos de seu anuário dos tempos de colégio. “Tive que vender o Challenger, cara. Ele não era nada prático. Todo mundo sabia que era o meu carro”, ele se retrai. “Além disso, me sentia um panaca dirigindo-o”.

Há dois anos atrás, o frontman do Gaslight Anthem levou a repórter do New York Times, Lizzy Goodman, durante um tour guiado de sua cidade natal de Jersey Shore em seu carrão – um Dodge Challenger preto. Mas quando Fallon me busca na estação de trem de Asbury Park, ele pilota um Volkswagen GTO de quatro portas muito mais discreto. “Não combinava mais comigo”, diz. “Eu quero um carro normal. Uma vida normal”.

Publicidade

Dobramos na Cookman Avenue, que fica próxima ao litoral, que Fallon eternizou na música “Blue Jeans & White T-Shirts”. Mas a viagem é menos um desfile e mais uma visita ao cemitério. Fallon não parece se sentir mais confortável nesta área, ou talvez o problema seja que ele se sinta confortável demais, já que todos sabem seu nome. Atualmente ele mora a 30 quilômetros de distância da costa, em Monmouth County, um lugar em que recebe menos pedidos de autógrafos.

Enquanto nos sentamos em um restaurante na cidade, há um vago olhar de reconhecimento por parte de uma das garçonetes. É difícil confundir Fallon, com dois braços cobertos por tatuagens e “Bell bottom blues, you made me cry”, trecho de uma canção de Eric Clapton, registrado em seu pescoço. A pequena tatuagem de âncora na base de sua garganta parece ter sido colocada ali estrategicamente para acentuar as camisetas brancas com gola em V que ele tanto gosta. Com um visual americano 50s, ele parece uma pintura ambulante de Norman Rockwell.

Parte de sua recém-descoberta fama pode ser ligada ao artigo que Goodman escreveu para o Times, publicado na mesma época que o último disco do Gaslight Anthem, Handwritten, estava sendo lançado. O texto referia-se à Fallon como “o legítimo sucessor de Springsteen”, comparação esta que já havia sido feita por fãs anteriormente, ainda mais levando em conta que Bruce Springsteen, tido praticamente como parte da realeza em Nova Jérsei, já fez participações em shows da banda diversas vezes ao longo dos anos, tocando músicas como “American Slang” e “The ’59 Sound”. Mas de repente isso estava publicado em jornais. Para um nativo de Jérsei com um histórico no punk como Fallon, foi uma benção e uma maldição.

Publicidade

“Um repórter me disse – me ligou – e a primeira coisa que saiu da boca dele foi: ‘Só pra você saber, não acho que você jamais tenha composto algo tão bom quanto ‘Rosalita’ ou ‘Born to Run’, e eu respondi ‘Nem eu!’”, ri Fallon, enquanto bica uma porção de fritas. Com o Gaslight Anthem atingindo novos níveis de fama, com o single de Handwritten, “45”, chegando ao 11º lugar da parada de música alternativa da Billboard, a comparação com Springsteen era como uma placa no pescoço de Fallon, uma que ele não tem como tirar. No último verão, durante um show ao ar livre, ele claramente frustrou-se com público nova-iorquino que pedia covers e entoava “Bruuuuuce!”. Pouco depois disso, ele escreveu no blog da banda: “Não venham ver o Bruce, ele não estará lá. Não venha para ouvir um cover, provavelmente não vai rolar. Não grite comigo quando estou tentando compartilhar algo com público para falar a eles sobre algo que sinto que mexe comigo”.

“Esse foi o ápice de não saber o que fazer com a minha vida”, diz Fallon. “’Talvez eu não seja durão o suficiente pra isso’, pensei”. Após o incidente, o perfil público de Fallon se apagou. Ele parou de postar no blog e deletou sua conta no Twitter, algo que muitos interpretaram como um desejo de fuga das exigências cada vez mais raivosas de um público crescente. De fato, Fallon buscava mais escapar de si mesmo.

Fallon muitas vezes sofre da síndrome de meter os pés pelas mãos, algo que o sucesso parece só piorar. Em uma entrevista concedida à Red Bull Academy Radio em 2012, por exemplo, ele conseguiu virar o público presente no estúdio contra ele ao atacar clássicos adorados como o The Replacements e Jawbreaker, insinuando que as bandas eram superestimadas e “não tão boas assim”. Fallon balança a cabeça e ri de si mesmo ao lembrar disso, atribuindo o ato a uma tentativa de estragar sua própria popularidade. “Eu estava tentando frear o trem. E disse, ‘aposto que se eu falar algumas coisas pra deixar as pessoas com raiva, isso daria uma parada.’ E esse não é o jeito certo de fazê-lo”, reconhece. “Mas na época, eu falei um monte só por estar frustrado”.

Publicidade

Então, para se salvar de si mesmo, Fallon desligou seus perfis em redes sociais e sumiu durante boa parte do ano passado. “Já tinha cansado de mim”, lembra. “Eu pensava ‘você é um idiota. Fica falando pra caralho e só fala coisas que não quer dizer. E você as diz porque está puto e se deixa levar pelo momento. Então quer saber? Vou parar com isso. Preciso calar a boca’”.

Foi por volta desta época longe dos olhares do público que Fallon começou a trabalhar em Get Hurt, o quinto disco da banda. Na mansão Gaslight, Get Hurt é o porão escuro que por vezes você tem medo de entrar. Suas 16 faixas ficam mais próximas de um blues pesarosos do que o lado rock’n’roll divertido da banda. Trata-se também de um disco mais pessoal e não conta com tanta da narrativa em terceira pessoa e a imagética que se tornou marca registra da banda. Quando encontrei com o Fallon no último Natal no Stone Pony, casa de shows em Asbury Park que Springsteen tornou famosa nos anos 70, ele estava no meio do processo de composição do álbum. Meio que de brincadeira ele me disse que tinha um quadro no estúdio com todas as palavras que havia aposentado do léxico da banda: “Nada mais de ‘Maria’, nenhuma música nova sobre rádios”, riu.

Se Get Hurt soa como um disco de separação, é porque ele é. Fallon divorciou-se recentemente de sua esposa com quem estava há dez anos, Hollie. “Tem vezes que nem sei como aconteceu. Não sei como ficou desse jeito”, comenta, sobre a separação. “Só sei que ficou. E agora tenho que dar um jeito: o que faço agora?”. Uma coisa que Fallon não fez foi cair nos clássicos abismos pós-divórcio de drogas, álcool e farra sem limites, mesmo quando tudo estava ao seu alcance. Fallon, agora com 34 anos, tem um armário de remédios cheios de pílulas controladas que não usou. Fato este que é referenciado na faixa de abertura do disco, “Stay Vicious”: “I have pills for this/ tabs for that/ and something that used to resemble a soul.” [Tenho pílulas pra isso/ comprimidos pr’aquilo/ e algo que costumava lembrar uma alma”].Ao invés de remédios, ele tentou se forçar a adotar novos e produtivos hábitos.

Publicidade

“Defini uma rotina em que acordava às 8h todo dia, começava a compor às 9h, seguia até 15h e então fazia qualquer outra coisa que tivesse fazer pro dia – as tarefas que restavam – e voltava às 22h para compor de novo”, diz. “Era ótimo. Pra mim, não era como acordar cedo e ir trabalhar todos os dias. Parecia que eu estava aparando, talhando algo, refinando cada vez mais em busca do que queria. E eu nem sabia o que procurava. Nunca tinha passado por isso antes”. Ele até mesmo viajou à Venice, Califórnia, recentemente, para se preparar para a próxima turnê da banda, junto de personal trainers – seus dois principais vícios são Coca-Cola e cigarros, sendo que este último ele diz estar quase largando de vez, apesar de uma caixinha de American Spirits despontar do bolso de sua camisa.

Conversando com Fallon durante o almoço, percebo que ele sorri mais do que no ano anterior, como seGet Hurt fosse o exorcismo de um ponto negro em sua alma. “Brian não fala muito sobre essas coisas”, diz Benny Horowitz, baterista do Gaslight Anthem. “Mas da forma que eu vejo, acho que houve algo de catártico neste disco. Acho que pra ele, havia algo a mais em jogo. Talvez compor tenha sido necessário para que ele se sentisse melhor”.

Especialmente catártico é o último verso de “Have Mercy”, última faixa de Get Hurt, que ecoa até Fallon soar purificado e livre das dores dos últimos dois anos e finalmente em paz com o futuro: “Now your pretty horses run wild and free/ You can go and find a lover, baby, better than me/ I’m talking snow for days with your friends in LA/ Have mercy.” [Agora seus belos cavalos correm selvagens e livres / Você pode ir atrás de um amante, querida, melhor que eu/ Estou puxando o saco com seus amigos por dias em LA/ Tenha misericórdia].Fallon crê que os fãs passarão a aceitar o disco e entender seu lugar na progressão do Gaslight Anthem, especialmente se eles acompanharam seu projeto paralelo, chamado Horrible Crowes. A imprensa, por outro lado, ele crê firmemente que odiará o álbum. “Uma de cinco”, declara de forma profética. “Eu apostaria uma grana nisso – de que a cada cinco resenhas, uma de cinco será positiva. E duas odiarão veementemente”.

Publicidade

Mas pouco importa como Get Hurt será recebido, o álbum é algo que Fallon precisava ter feito pra sim mesmo. “As pessoas não entendem quando você faz algo apenas como ‘não sei porque estou fazendo isso, mas preciso fazê-lo’”, diz. “Tipo aquela galera que parte em uma jornada espiritual para a Índia. Não sei porque eles fazem isso. Eles também provavelmente não. Mas o fazem. E no final, entendem o porquê. Então eu precisava fazer isso, e não sei o porquê. No próximo disco talvez volte ao som de 1959, 69, 79. Talvez seja Brian Fallon e a B Street Band, não sei”. Não houveram desvios neste disco, afirma. “Você tem que passar no meio de tudo pra chegar do outro lado, bicho. Tem mesmo. Eu tinha que provar a mim mesmo que era capaz de mais do que isso”.

Fallon passou a aceitar a fama que vem junto com a música. “Aquela carta do ‘ai de mim’ não pode mais ser jogada. Eu entrei nessa. Ninguém me descobriu no metrô e mandou umas de ‘cara, você soa como o Bruce Springsteen, vou te colocar na MTV!’ Eu corri atrás. E corri mesmo”. Ele até tolera as comparações com seu ídolo. “Durante meu tempo afastado, passei a lidar numa boa com esse lance do Springsteen”, diz com um risinho e um toque de vergonha. “Tipo, com o que que cê tá chateado? Por que isso é ruim?”. Ele menciona admirar o Boss não tanto pela sua habilidade musical e mais pela durabilidade e versatilidade de sua carreira e também sua habilidade em cultivar uma persona no palco. “Aquele cara é profundo, mesmo”, diz a respeito de Springsteen. “Ele tem uma sabedoria que não muitos encontram neste mundo. E é esse cara que eu quero ser. Não sou como ele, mas quero ser”.

Publicidade

Terminamos de comer e pagamos a conta. Antes de sairmos do restaurante, a garçonete para Fallon e pede uma foto. Ele agradece e caímos fora.

Na estrada, Fallon para no farol vermelho e olha pelo para-brisa antes de seus olhos azuis encontrarem o retrovisor. Ele dá uma tragada leve no cigarro e joga a metade fora pela janela do GTO. O cigarro faísca no asfalto atrás da gente. Fallon coloca a mão no volante de novo, com as tatuagens nos dedos que dizem “Stay Free” apontando em direção ao sol de verão. Mal dá pra ver o primeiro “e”. “Só tô tentando entender tudo, cara”.

Dan Ozzi dorme na praia mesmo se não conseguir carona. Siga-o no Twitter - @danozzi

--

Quer mais textos longos sobre punk, skate e tal? Quer sim:

Touché Amoré Fala sobre Nudez em Público, Burritos e Banhos de Leite

O Chuck Ragan do Hot Water Music Tirou os Sapatos dos Pés e me Deu Eles de Presente

A História do Hardcore Brasileiro Contada pelas Coletâneas do Nenê Altro

Tradução: Thiago “Índio” Silva