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Gatos – e os Metaleiros que os Amam

Ninguém que escuta metal é um homem das cavernas sociopata que odeia sua família e faz eventuais sacrifícios. A prova disso é seu comportamento no mesmo ambiente que um gato.

Em sua compreensão, o metaleiro é, ao mesmo tempo, um lobo, um errante e um impenitente que compreende sobre tudo e todos que estejam ligados ao metal. Mas no momento em que você vê um metaleiro perder o controle de sua personalidade cruel e tornar-se um alegre ser emocional que faz “miau miau” para os gatos nas janelas de lojas de animais, esse é o momento em que você percebe que a crueldade do mundo do metal é apenas uma ilusão. Ninguém que escuta metal é um homem das cavernas sociopata que odeia sua família e faz eventuais sacrifícios.

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Se tem algo que aprendemos com Hesher (o filme com o Joseph Gordon-Levitt) ou com algum capítulo de Metalocalypse é que metaleiros possuem almas repletas de sentimentos. Eles choram ao terminar de assistir Diário de Uma Paixão (que eu já vi… duas vezes), são comprometidos com as pessoas que amam e se derretem em um piscar de olhos ao avistar um gatinho macio.

Alexandra Crockett, uma fotógrafa e doutoranda na California School of Professional Psychology, observou este comportamento suave dos metaleiros. Depois de passar quase 15 anos na cena metal de Seattle, ela teve a ideia de documentar os músicos extremos e seus amigos felinos e publicar o resultado: Metal Cats, uma fotocompilação com mais de 100 imagens dos representantes misantrópicos do metal e seus fofos e carinhosos gatinhos.

Com caras de bandas como Cattle Decapitation, Phobia, Morbid Angel, Napalm Death, Xasthur e Skarp, ela explorou a relação entre os mais duros e tirânicos músicos e seus amigos peludos em 176 páginas de fofura que destruiriam a imagem estereotipada de um metaleiro que conhecemos.

Conversei rapidinho com a Alexandra durante o lançamento de Metal Cats sobre a conexão entre caras do metal e gatos, os poucos cuzões que se preocupam com sua imagem e outros animais que combinam com o metal.

Se Murderface ou Hesher fossem pessoas reais provavelmente estariam chorando lágrimas de felicidade ao ver ESSES GATOS:

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Noisey: Nos anos que morei em Seattle e quando trabalhei com sua irmã, você não havia mencionado Metal Cats. Essa ideia veio para você nos últimos anos?
Alexandra Crockett: Eu comecei em 2010 e as primeiras fotos vieram, de fato, pouco tempo depois que comecei a pensar nisso, então não perdi tempo. Eu comecei imediatamente. Terminei a graduação em 2006 e não havia feito nada no período – exceto um trabalho como conselheira para viciados.

Desde quando você está presente na cena do metal de Seattle?
Meus amigos e eu já tínhamos tomado a balsa de Bainbridge para Seattle para ir aos shows muitas vezes – em algumas delas nossos pais nem sabiam disso. Algumas bandas de amigos tocavam em Seattle, Bellingham e Vancouver e eu acabei indo estudar em Seattle, na Universidade de Washington, no momento em que a cena do metal realmente estava no auge. Muitas pessoas que antes se interessavam principalmente pelo punk começaram a se interessar por metal e ir aos shows. Isso foi muito legal, porque todos nós, que viemos da área periférica, não só de Bainbridge, mas de todas essas pequenas cidades em que nada estava acontecendo, todos esses jovens se mudaram ao mesmo tempo para Seattle. Houve uma forte conexão entre as pessoas que vieram da área periférica e agora estavam viajando na cena do metal de Seattle.

Quando você percebeu que a galera do metal era amante dos gatos?
Eu acho que isso ficou claro logo cedo, porque todos os meus amigos tiveram gatos em algum momento, pelos quais eles eram obcecados e apaixonados. Mas quando eu penso melhor nisso – apesar de eu ter feito a conexão mais cedo, enquanto eu tirava fotos dos metaleiros e seus gatos – foi minha colega de quarto que se ligou nisso, porque a ideia do livro veio dela. Ela disse: “Isso é algo. Você devia fazer um livro, você já tem tantas fotos. Você podia fazer umas sessões de fotos de verdade”.

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Você também tem algumas fotos mais antigas, das que você falou, ou no livro só entraram as novas?
Não usei nenhuma das fotos antigas, elas são realmente velhas e não estão em boas qualidade para impressão – não dá para ampliá-las. Eu comecei do zero, escrevi para cerca de 30 amigos meus, dos que ainda estão na cena do metal, e perguntei: “ei, quando eu fizer isso, você se interessaria?” e cada vez eu recebia a resposta algumas horas depois, com a galera interessada e atraída por essa ideia. Eu acho que eles realmente se interessaram pela ideia, porque eles poderiam mostrar seus gatos. E daí rolou. A maioria das inscrições foi feita pela página do Facebook. Rapidamente eu consegui vários seguidores e amigos que me enviavam fotos e eu pensei: “bom, talvez eu consiga algumas fotos dos donos com eles”.

Eu também queria te perguntar se todas as fotos foram tiradas por você, ou se algumas foram enviadas.
Fiz 115 fotos para o livro. Todas as minhas fotos estão no livro e eu acho que umas 75 ou 80 foram enviadas, porque o editor disse repetidamente que eu deveria limitar isso. Mas eu recebi umas 700. Ainda recebo algumas. No começo eu mandei todas as que recebi, mas o editor disse que o livro não teria tantas páginas e eu deveria criar um limite. Daí eu disse: “ok, mas tem uma galera que eu não quero deletar”.

Quem por exemplo?
Uma galera que está em bandas realmente grandes e queriam aparecer no livro com seus gatos, mas não queriam que isso tivesse algo a ver com sua banda. Eu as queria pelo fato de serem famosos, mas queria mandar uma foto de respeito. Eu definitivamente queria manter umas pessoas no livro e aceitei imagens de pessoas que me ajudaram a realizar o projeto.

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Tem algum artista famoso que você gostou mais de fotografar?
Gostei de fotografar todos. As pessoas que fotografei foram escolhidas a mão. Se eu tivesse fotografado todo mundo que gostaria de ter sido fotografado teriam sido bem mais de 100 fotos. Mas eu realmente pensei, tipo: “Essas pessoas são um bom exemplo de como as pessoas deveriam ver a galera da cena metal. Eles são legais uns com os outros, não são racistas ou sexistas, não encrencam com outras pessoas e estão em bandas locais ou ajudando a cena”. Fiquei feliz com alguns que estavam ali, individualmente. Mas não me foquei tanto nas estrelas. Tenho a impressão de que cada um tinha seu valor único, estando essa pessoa presente na mídia ou não.

O que há entre a personalidade de um gato e a personalidade de um metaleiro que possibilita essa conexão quase simbiótica?
Acho que combina com essas pessoas ter um animal tão independente, porque se você pensar, por exemplo, os punks têm cachorros, talvez porque eles precisem de atenção. Você tem que sair pra passear com seu cachorro e tem que ter cuidados com ele, o que os gatos não tem tanto, porque eles se viram sozinhos. Gatos precisam de menos do seu tempo e isso é como uma boa relação com seu parceiro: eles te deixam sozinho se você precisar de tempo pra você – e às vezes vocês passam um tempo juntos. Também acho que esse pensamento meio “foda-se” tem a ver com atitude. Gatos e metaleiros tem esse pensamento: “Eu faço o que eu quiser e se isso não te agrada, pra mim tanto faz”.

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As pessoas que você fotografou se preocuparam com suas imagens? Que sua pose como metaleiros poderia ser prejudicada por isso?
Das cerca de 200 pessoas que eu fotografei, duas pessoas se preocuparam com suas imagens. E pensei: “Bom, então não vou te fotografar, porque você é um idiota”. Isso é muito estúpido. Não consigo entender como uma foto do seu bichinho pode mudar sua imagem. Para mim é como se a pessoa tivesse um problema pessoal. Também disse: “Ok, não precisamos te fotografar, não preciso te forçar a isso”.

Foi difícil fotografar alguns gatinhos ou eles foram em sua maioria bem comportados?
Eles definitivamente não foram bonzinhos [risos]. Falei faz pouco tempo isso pra alguém, tem uma bela diferença entre as fotos do começo e as mais do final. Meu melhor amigo, John, trabalhava em uma loja de iluminação no mesmo período, então peguei emprestadas algumas coisas de iluminação cênica. Essas luzes eram super quentes e, consequentemente, esquentavam o lugar que estavam iluminando e os gatos ficavam relaxados e satisfeitos. Mas quando não tinha mais esses holofotes, tudo mudou. Eu tinha só umas lentes no tripé e era tudo mais difícil. Nós tínhamos que dar umas pausas para os gatos e depois voltar a fotografar e, de novo, fazer outra pausa de dez minutos. Cada sessão de fotos era completamente diferente uma das outras, mas todas foram exaustivas.

Você também fotografou mulheres e seus gatos para o livro?
Não. Foram apenas pessoas definidas como homem. Tem alguns transgêneros, pessoas, que eram hétero – e homo e brancos e mexicanos. Me fizeram essa mesma pergunta, mas relacionada a cor da pele, mas infelizmente parece que a maioria das pessoas da cena do metal são brancas. Espero que isso mude algum dia, mas a variedade vem com o tempo e as pessoas estarão mais abertas pra isso. Não fotografei mulheres porque sinto que a relação entre um homem e um gato é engraçada e única. As pessoas não pensam necessariamente nos homens em um relacionamento emocional com um bicho, ou que eles têm um lado mais suave. Mas eu sou absoluta e incondicionalmente feminista e converso o tempo todo sobre esse tipo de coisa. Estou comprometida com a justiça social e trabalho para isso, então quero muito criar um segundo projeto, que envolva as mulheres. Eu só preciso de tempo pra achar a melhor dinâmica. Sinto que, para um primeiro projeto, esse não seria o melhor direcionamento, mas durante o projeto mulheres me falaram: “Porque eu não posso estar aí [no livro]?” e eu dizia: “Você terá sua chance, isso vai rolar”.

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Este projeto já está em andamento?
Sim, já falei com Bariann e com a Nina, que são meus editores na powerHouse Books, sobre um segundo livro em que mulheres e outros grupos poderiam aparecer. Fico bem feliz de fazer algo assim. Não sei quando será, porque preciso terminar meu doutorado primeiro, mas já tenho isso na cabeça.

E os lucros do livro irão para abrigos animais, certo?
Sim. Minha participação nos lucros do livro é bem pequena, então minha parte vai para que abrigos de animais não os matem a não ser que eles estejam muito doentes. E o que ganhei nas festas de lançamento em Seattle, em Oakland e em Nova York também vão para esses lares. Não posso falar pela editora, mas duvido que ela doe sua parte.

Como você chegou à powerHouse?
Já tinha terminado uma de minhas sessões de fotos. Estava pensando em publicar sozinha. Eu estava no crowdfund e tinha feitos uns shows beneficentes em Seattle, Portland e L.A., então tinha dinheiro para lançar o livro, apesar de nunca ter publicado um livro de fotos. Então um amigo que eu havia fotografado para o livro mostrou o projeto pra namorada dele, Nina, que é editora da powerHouse. E ela disse: “ei, esse projeto é bem legal, talvez a gente devesse se envolver”.

Eu li em algum lugar que você não tem um gato, mas se você tivesse um, daria um nome do metal pra ele?
Eu curto nomes idiotas para animais. Nós tivemos um gatinho por alguns anos – e hoje não tenho mais nenhum, porque esse foi comido por um coiote – seu nome era Suknukoon. Eu não daria um nome metal para meu gato. Eu daria um nome bem pensado, que eu sentisse que tem a ver com a personalidade dele.

E, finalmente, qual outro animal você acha que é do metal?
[Risos] Deixa ver. Acho que alguns cachorros poderiam ser do metal, mas a maioria é mais punk que metal. Acho que quanto mais fofinho o animal, mais do metal ele é, porque ele está bem consigo mesmo e pode mandar um “foda-se, eu sou assim” e isso é bem metal. Então talvez algo como um coelho… ou uma chinchila.