Quem vê Lê Almeida andando de bicicleta usando uma máscara de papelão no clipe da divertida “Nunca Nunca”, do EP “Révi”, pode achar que ele é mais um desses jovens de classe média fãs de indie rock lotando baladinhas descoladas paulistanas. Grande besteira. Inspirado pelo lo-fi do seu ídolo Rob Pollard, do Guided By Voices, ele conseguiu formar uma cena de “roque de guitarra” (como ele gosta de rotular seu estilo) em plena Baixada Fluminense.
Ganhando a vida consertando malas, o morador de Vilar dos Teles capitaneia a caseira Transfusão Noise Records, lançando CD-Rs e fitas cassete de grupos obscuros como Coloração Desbotada, Carpete Florido e Uma Nova Orquídea em meu Jardim Psicodélico, entre outros, sempre com capas feitas com colagens de sua autoria. Aos 25 anos Lê finalmente começa a ganhar alguma projeção fora da cena que ajudou a criar, incluindo shows fora do estado – ele toca pela primeira vez em São Paulo hoje, na Livraria da Esquina – o cartaz tá logo ali abaixo. Por outro lado, já começa a arrastar fãs da Zona Sul carioca para seus shows em pequenos bares da sua área. Como ele mesmo diz, “roque fudido e quente só rola na Baixada!”.
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Vice: Você não acha que é um pouco novo pra ter essa obsessão por Guided By Voices, gostar de Teenage Fanclub? Porque isso já não tava tão no auge quanto tu chegou à adolescência. Isso se você não estiver mentindo a idade, é claro.
Lê Almeida: Não acho não, o que tem de moleque fã de Beatles por aí sem nem mesmo ter sacado Beatles de verdade não dá pra imaginar. Na verdade sinto uma espécie de pós-trauma por não ter vivenciado ali os anos 90, as guitarras e aquela coisa toda. Sempre estive ligado a pessoas mais velhas que me passavam fitas com bons discos, lembro de ter conhecido o “Flip Your Wig” do Hüsker Dü de um cassete bem zoado, o som era abafado e parecia ser uma cópia da cópia da cópia, mas ainda sim me despertou um baita interesse. Nessa minha época de descoberta dos bons sons eu também sacava muita coisa da Rock Press, que era uma revista animal aqui do Rio.
Quem são esses caras que te arrastaram para o mundo indie? Sem eles você teria virado pagodeiro?
Eles são amigos de roque mesmo, alguns ainda curtem, outros já morreram. Desde pequeno eu já sacava uns clássicos do rock, meu pai curtia Led Zeppelin, Ozzy e Kiss, e consequentemente eu passei a curtir também, virei um super fã do Kiss. A minha sementinha do mal já estava plantada antes de me aproximar do indie rock e afins.
Você lembra a hora em que decidiu que “porra, se o Rob Pollard pode, eu posso”? Pra quê montar uma banda, inventar um nome, fazer músicas?
Quando eu ouvi o “Alien Lanes” pela primeira vez eu tive um baita estalo, a gravação tinha uma sinceridade viva. Os Ramones fizeram várias pessoas terem esses estalos, que o pessoal levantasse e fosse em frente fazendo seu som da maneira que fosse, mas pra mim o Guided By Voices pegou no coração mesmo. Até por que os Ramones tinham produtor, gravavam em estúdios e tinham uma gravadora pra lançar o disco. Já o GBV gravava em casa sem produtor na maioria das vezes e com pequenos selos pra lançar o disco. Sempre fui muito louco por Ramones, mas a mensagem deles me chegou à cabeça por causa do GBV. Sou grato eternamente.
Mas o disco não vinha com guia de como gravar, compor. Como foi pegar no violão e compor uma coisa e depois tentar encaixar em uma gravação, inventar um arranjo?
Eu comecei tocando bateria em diversas bandas aqui da área, todas voltadas pro som indie e experimental. Entre 2003 e 2004 passei a tocar guitarra sozinho. Na verdade dois amigos meus me ensinaram uns acordes e a partir dai fui fazendo umas canções. Não queria cantar, mas como não achei quem quisesse, resolvi cantar também. Montei a Tape Rec em 2004 com uns amigos, pra emular algo entre Breeders e My Bloody Valentine, e nessa mesma fase eu fiz um projeto sozinho pra gravar em casa, chamado Coloração Desbotada. Foi nele que eu aprendi como era possível cantar quase sussurrando e ser ultra-barulhento ao mesmo tempo. Fiz muitas gravações em um duplo deck até que já pelo fim de 2004 eu comecei a usar o computador – sem mesa e sem um microfone decente. Só fui ter uma mesa de som em 2008, quando ganhei de presente. Hoje tenho duas mesas, uma de oito canais e uma Tascam com seis, mas nunca uso todos.
Pra que tanto canal, né? Sgt. Peppers foi gravado com quatro.
Pois é, eu sempre me dei bem com poucas coisas e muitas ideias.
E você montou o selo para começar a lançar as suas coisas?
Eu montei o selo pra de fato ter uma marca por trás das bandas, pra ter respeito e mostrar que aqui a gente estava fazendo uma coisa tão boa quanto o pessoal mais elitizado e contratado por selo grande e gravadora. Minha ideia sempre foi e continua sendo uma coisa pra movimentar mesmo e lançar discos por amor.
Como você se vira com a Transfusão Noise? Porque são tantos nomes de banda que eu não consigo me achar no site de vocês.
A gente administra as coisas entre três pessoas: eu o Adrian Monteiro e o Paulo Casaes. Eu e o Paulo que produzimos a maioria dos discos e no fim sempre rachamos os custos com as bandas, devolvendo a parte da banda em discos e com a nossa parte fazemos uma distribuição e venda. Não é lá muito grande coisa, mas pelo menos na maioria das vezes conseguimos bancar os discos com grana de outros que vão melhor nas vendas. A gente quer fazer um site mais decente, e eu também acho que falta um pouco de informação sobre as bandas, mas você pode baixar qualquer disco de cara no blog.
O quão proposital é essa estética lo-fi para você? Faz sentido lançar um trabalho em fita cassete hoje em dia?
Acho que estou em uma escala entre lo-fi por necessidade e lo-fi por opção. Minha condição evoluiu ao ponto de eu ter duas mesas de som, mas passei a gravar as baterias no quintal de casa pelo simples fato de eu ter gostado do som da bateria tocada lá fora. Eu acho que faz sentido lançar em cassete, não no Brasil onde a onda anda meio morta há uns anos, mas lá fora a coisa não é bem essa. Recentemente o 1° EP da Coloração Desbotada, o 1° disco lançado da Transfusão, foi re-lançado em cassete por um selo de Juiz de Fora chamado Pug Records que faz uma distribuição em Seattle e Olympia via outros selos amigos que fazem o intercambio.
Qual é o tamanho dessa cena na Baixada? Tem mais “indies” – posso chamar de indie? – ou metaleiros?
Tem muitas bandas boas que já acabaram, mas de uns tempos pra cá tem aumentado o ritmo. Dá para lotar um show por aqui sem banda “pseudo grande” de fora (a Sofia Pop, por exemplo, é a garantia de casa cheia, não importa onde seja o show). “Indie” em si não é lá tão denominável dessa cena, eu costumo definir como roque de guitarra, mesmo parecendo às vezes soar vago. Eu tenho camaradas que curtem um metal do mal e também sacam de Sonic Youth, por isso não dá pra generalizar a palavra indie.
Roque de guitarra lembra um pouco quando a galera chamava isso de “guítar” nos anos 90. Você escolheu formar uma comunidade? É muito diferente a Baixada de uma Portland, de uma Olympia da vida?
Eu sempre tive vontade de fazer algo assim e hoje algumas pessoas olham com mais atenção pra Transfusão, alguns amigos acabaram se entregando mais. Há uns três ou quatro anos a gente fazia shows pela redondeza e os amigos que curtiam som com a gente nunca iam ver. Hoje rola um companheirismo, como uma bandeira mesmo. O lance é juntar as pessoas certas e as erradas em um mesmo pensamento: roque de guitarra. O pessoal da Zona Sul do Rio sabe muito bem que um roque fudido e quente só rola na Baixada!
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