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Todos Nós Deveríamos Poder Julgar Um Disco Pela Capa

Ela pode ser só um thumbnail na sua biblioteca de iTunes, mas continua dizendo muito sobre a banda.

Recentemente, a seminal banda sueca de metal At The Gates revelou a capa de seu primeiro disco de inéditas em 20 anos, sucessor do clássico inovador Slaughter Of The Soul. Em uma matéria falando sobre a revelação da arte, um blogueiro do site MetalSucks escreveu: “Acho muito difícil ficar empolgado com artes de capa hoje em dia, quando a maior que verei está inclusa nesta matéria, e depois só a verei como um pequeno thumbnail na biblioteca do iTunes de meu telefone”.

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Isso não pegou muito bem comigo, e logo de cara quero falar para as bandas: não levem isso a sério. Se vocês querem minha opinião, capas – e toda a arte em torno da sua música – importam pra caralho. E beleza, talvez a sua gravadora fazer um bafafá em torno do revelar de tal arte seja meio boboca (apesar que eu contra-argumentaria que é bem algo bem mais interessante de se ver após o anúncio de um novo disco do que uma porra dum lyric video – MEU DEUS, como odeio lyric vídeos), mas a arte em si tem uma importância profunda.

Comecemos com o fato óbvio e imutável que a arte em seu disco mostra para os seus fãs como este álbum é diferente do anterior. Algumas bandas, como o Judas Priest ou The Killers, contentam-se que todas suas capas se pareçam porque parte de sua estética é o fato de que eles não querem mudar. Ninguém quer um disco drasticamente diferente do The Killers. Mas para bandas cujos sons progridem disco a disco, uma arte criativa informa aos fãs que a mudança é parte de sua estética. A arte de Costin Chioreanu para o novo álbum do At The Gates é um excelente exemplo – cor preta e arcos, diferentes das capas evocativas de sangue e fogo dos dois discos anteriores da banda, pesando no laranja. Enquanto isso, repare no Muse. A arte dos mestres do rock de arena mudou drasticamente ao longo dos anos. Cada capa dialoga com as sensibilidades dos discos, da sombra-no-concreto de Absolution ao fio de arco-íris de neon desgastado de The 2nd Law. A banda está te mostrando que este não será o mesmo disco de antes.

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Outra coisa: caso você tenha estado em coma na última década, as pessoas, especialmente fãs sérios de música underground, estão comprando vinis novamente. Claro que tudo pode ser frescura de hipster se você quiser usar termos banalizados como esses, mas o fato é que o vinil é, novamente, uma mídia musical relevante. Se as capas de seus discos são idiotas ou feitas de qualquer jeito, você se sentirá como um cuzão irrestrito e sem limites quando aquela coisa for ampliada enormemente e depois vendida nos seus shows. Há três fatores principais que o consumidor moderno médio leva em conta na hora de comprar um disco de vinil, especialmente se ele já tem aquele disco em formato digital: a) caso o som seja melhorado pelo formato; b) caso o disco seja tão fodão que ele precise tê-lo em todos os formatos possíveis; ou c) a capa é absurdamente massa de se ver em grande formato. Outro ponto a se considerar: sabe quem adora discos de vinil? DJs e críticos musicais. Mande um LP para um jornalista musical e eles te darão uma segunda chance de obter uma resenha decente, mesmo que seu último álbum tenha sido medíocre. Se a sua capa é puro nonsense, talvez eles nem se deem ao trabalho.

Terceiro, e talvez o mais importante, os melhores músicos têm uma estética unificada, e uma capa ajuda a criar a isso. Mais que a arte de uma camiseta, pôster ou fotos de banda, a arte em uma capa combina o estímulo visual com o que há no disco, representando a estética unificada de um artista, algo que as melhores bandas têm. O Wu-Tang tinha isso. O Motorhead tinha isso. O Joy Division tinha isso. O Godflesh tinha isso. O The Clash tinha isso. O Celtic Frost tinha isso. E sempre que os fãs de música atuais reclamam sobre como rock’n’roll morreu e não existem mais boas bandas, eles nunca mencionam que as bandas costumavam pensar muito sobre as capas de seus discos e como estas representavam aquelas canções. As melhores bandas são aquelas que projetam imagens na sua mente, que têm suas próprias paletas de cores naturais. Mesmo que a sua estética seja do tipo não haver arte – estou falando de vocês, FIDLAR – melhor assim do que fazer algo meia-boca. Claro, isso pode mudar com o tempo, mas o ponto é que você tem que ter uma estética definida se quer que sua banda seja memorável, e as artes – especialmente as de capa – são a melhor forma de conseguir isso.

E finalmente, as bandas com boas capas irão eclipsar você, caso não consiga chegar aos pés delas. Na real, se sua capa não é interessante, uma legião de músicos que não são melhores que você te farão comer poeira porque eles fizeram o esforço de contratar um artista decente ou aprenderam a mexer no Photoshop, assim criando uma imagem que chama a atenção de quem vê. Não importa que esta imagem só vá aparecer em uma caixinha no iTunes – se tem algo de legal nela, as pessoas irão atrás dela. Usarão como papel de parede em seus computadores e comprarão bandeiras com aquela imagem (caso elas tenham 15 anos ou sejam donas de um bar focado em determinado gênero, mas mesmo assim). E mesmo que seu disco tenha saído antes do deles, eles verão o que você fez e acharão que é uma imitação barata do que Aquele Cara fez porque sua capa foi feita de qualquer jeito em cinco minutos.

Não se pode julgar um livro pela capa, mas se um livro bom tem uma capa animal, a existência da coisa como um todo é exponencialmente justificada (o mundo um dia irá esquecer aquela imagem de Chip Kidd da capa de Jurassic Park). Você pode afirmar que a música é o que importa, e que se o disco é bom, a capa não vale lá muita coisa. Bem, boa sorte com isso. Mas na maioria das vezes é melhor estimular dois sentidos ao invés de um só (seja sincero, você gostaria de sentir o gosto de uma música). Se a sua capa é detalhada, original e evocativa de sua sonoridade, ela elevará sua música a outro patamar, e fará com que outras pessoas percebam seu disco. Se não é por um lance desses, talvez não lembremos quem você é, e se seu disco é esquecível, por que fazê-lo?

Tradução: Thiago “Índio” Silva