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Por que um selo finlandês relançou em vinil as coletâneas SP Metal sem avisar (direito) a Baratos Afins?

A Svart Records prensou novas cópias dos discos clássicos, mas o Luiz Calanca só ficou sabendo quando viu o post no Facebook do selo. Ainda assim, a treta foi mais de comunicação truncada do que de pirataria mesmo.

“Um cliente passou aqui na loja e comentou que viu na internet que haviam lançado os dois discos na Finlândia, mas eu nem prestei muita atenção. Depois de um tempo, ele [o cliente] compartilhou o link para mim e aí é que eu fui perceber o que tinha ocorrido.” Essa reação de surpresa aconteceu na última quarta-feira (10), e veio de Luiz Calanca, proprietário da Comercial Editora e Produtora de Discos Baratos Afins, lendário estabelecimento e selo da música alternativa brasileira, localizada no 2º andar da Galeria do Rock, em São Paulo. Os discos a que Calanca se refere são as coletâneas SP Metal – Vol. 1 (1984) e SP Metal – Vol. 2 (1985), álbuns seminais do heavy metal paulistano, com grande influência na cena do gênero no país.

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Os dois discos foram expostos no site da eclética gravadora finlandesa Svart Records, com sede na cidade de Turku, e conhecida por seu foco nos lançamentos em vinil. Os álbuns, produzidos originalmente pela Baratos Afins, foram divulgados em publicações na página do Facebook do selo estrangeiro e, também, em compartilhamentos de uma nota produzida pela revista de música pop Rumba, também da Finlândia. E foi por meio desses posts no Facebook que o Calanca descobriu a existência dos vinis estrangeiros.

“Não existe um documento assinado, um ‘ok’, um ‘de acordo’ formal. Antes de hoje, a gravadora nunca tinha falado comigo”, afirma Calanca, em conversa por telefone com a reportagem do Noisey.

Por outro lado, a empresa finlandesa se posicionou. “Nós não somos uma gravadora de bootlegs e não iremos distribuir um lançamento se não temos esse direito”, respondeu Tomi Pulkki, presidente da Svart Records. A resposta traz ainda uma afirmação que Calanca também reproduziu à reportagem, a de que se o lado brasileiro não estiver feliz com o acordo, “nós podemos destruir toda a prensagem”.

Força Macabra

Entre a gravadora original, brasileira, e a nova produtora do disco, na Finlândia, existe a participação de um representante que, há anos, une essas duas culturas na cena do hardcore: a banda finlandesa Força Macabra. Na verdade, mais especificamente, o baterista Otto Itkonen, que toca sob o pseudônimo de Oscar “Deadbrain” Antítese. Formada em 1991, a banda foi influenciada pelo punk e hardcore brasileiros e, por isso, utiliza os nomes, pseudônimos e títulos de música em português.

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Segundo o presidente da Svart Records, “nós intermediamos o negócio com a Baratos Afins através desse amigo que tocou muito no Brasil e que conhece pessoas de São Paulo. Ele encontrou Luis Calanca pessoalmente e organizou o acordo de licença por e-mail com ele”. Isso aconteceu em 2012 e, na opinião de Pulkki, “talvez por esse intervalo de tempo o Luiz tenha esquecido disso, mas eu realmente tive a impressão de que tudo estava acertado e estavámos prontos para enviar o valor da licença”.

O proprietário da Baratos Afins se recorda do contato: “O Força Macabra esteve aqui na loja, eles gostavam do SP Metal, até cantaram Santuário a plenos pulmões e compraram os CDs da coletânea”. Meses depois, o baterista fez contato, via e-mail, com o interesse de licenciar a obra. “Ele ofereceu uma quantia de US$ 1 mil por disco e gostaria dos tapes originais. Não dá, não concordei”, disse Calanca, lembrando que, por contrato, desse valor, 33% do que fosse arrecadado lá fora no acordo deveria ser pago para os artistas envolvidos. Ainda por e-mail, a gravadora brasileira teria exigido um valor maior por cada álbum e um número de cópias de cada LP.

Essas tratativas ocorreram entre os meses de novembro de 2012 e fevereiro de 2013. Calanca afirma que nenhum contato de oficialização ocorreu após esse episódio, um processo que, segundo ele, exige diversas etapas burocráticas para a transmissão de direitos para a reprodução de um álbum no exterior. “Eu já tive de liberar 11 licenças para discos dos Ratos de Porão, já tive de fazer essa documentação para a gravadora americana Roadrunner Records, também para o Japão, ou seja, na fábrica, eles iam exigir essa autorização”, diz.

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Em negociação

Após ter conhecimento dos discos da SP Metal no exterior, a Baratos Afins entrou em contato com seu escritório de advocacia. Em seu desabafo, postado na página da gravadora no Facebook, Luiz Calanca mencionou e ‘marcou’ todas as bandas presentes na coletânea. Ele afirma que a intenção é ouvir desses músicos sua opinião sobre o caso. Estão nas faixas do álbum pioneiro os grupos Avenger, Centúrias, Salário Mínimo, Vírus, Cabeça Metal, no Vol. 1 e Santuário, Abutre, Korzus e Perfomances, no Vol. 2.

O presidente da Svart Records afirmou que as conversas com a gravadora brasileira estão em andamento “pacificamente”. “Acredito que as coisas serão resolvidas, mas não estou nada feliz com as acusações na internet sobre sermos pirateadores. Creio que foi um caso de falha de comunicação e um mal entendido”, ressalta Pulkki. E disse mais: “Nós retiramos os LPs da SP Metal da venda e não vamos colocá-los de volta até que a situação seja resolvida”.

Novos contatos estão sendo feitos com a Svart Records. Em um primeiro momento, como citado anteriormente, o proprietário do selo brasileiro afirmou que foi oferecido um acordo financeiro ou a destruição dos discos — foram feitas mil novas cópias de cada volume. “Ao mesmo tempo, eu estou orgulhoso, por ver nosso trabalho sendo divulgado do outro lado do mundo, mas também indignado, pois não dei essa autorização”, desabafa o brasileiro.

O caso dos lançamentos da SP Metal pela Svart Records, ao que tudo indica, vem se revelando como um aparente desencontro de informações. A beira de completar 40 anos de história, o selo nacional já passou por outras situações que, diferentemente desse episódio, não tiveram tantas justificativas. "Infelizmente, eu já fui pirateado umas 15 vezes", lamenta o homem por trás da Baratos Afins que, em julho do ano passado, reuniu as bandas originais no SESC Belenzinho, para celebrar três décadas do lançamento dos discos. Ironicamente, nessas noites, por causa de um procedimento cirúrgico no olho, Luiz Calanca estava utilizando um tapa-olho, feito um pirata.

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