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12 horas de barulho e distorção

Primeira edição do festival Exhale the Sound leva a Belo Horizonte 22 expoentes da música extrema.

Por muito tempo, curtir música pesada no Brasil era uma profissão de fé. De um lado, uma mídia "especializada" para lá de míope, para quem tal expressão sequer existiu na história; do outro, técnicos de estúdio capazes de reduzir qualquer distorção ao som de guitarras magras, clubes com infra zero, público escasso e pulverizado país afora, mais um sem-número de entraves. Fazer um barulho sincero exigia dedicação e compromisso. Isso foi antes do emo, do mash-up, do pop-punk, do rapcore e do new metal. Mas aí veio a internet, a rede mundial de computadores, e mais um monte de tecnologia barata (e muitas vezes pirata) e parece que as coisas estão mudando.

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O que muita gente não saca é que, para além daquilo que parece ser tudo o que o rock nacional continua tendo a oferecer, sobrevive um cenário resistente e não menos engajado, de bandas que seguem enfrentando obstáculos parecidos com os das antigas. Mesmo assim, se você busca saber o que está acontecendo de relevante nessa praia dos desdobramentos do punk e do metal, vale a pena prestar mais atenção: o nosso underground está em verdadeira ebulição criativa, e bandas como Deaf Kids, God Demise e Noala são apenas alguns dos expoentes desse cenário.

Inspirado pela qualidade das produções recentes, o mineiro Pedro Henrique, declaradamente um apaixonado pela música extrema e tortuosa, decidiu botar de pé a proposta de um festival que servisse de vitrine para tudo isso. Essa é proposta da primeira edição do Exhale The Sound, evento que leva ao Emme Lounge, em Belo Horizonte, no dia 9 de novembro, 22 bandas de todo o país para tocar em dois palcos alternados. Do hardcore ao noise, passando pelo pós-rock, o sludge, o drone e o grindcore, a programação traz, além de música, também uma mostra de vídeo e arte. Fanzines e outros materiais de distribuidoras independentes estarão à venda por lá. Conversamos com o Pedro, que conta um pouco mais sobre a iniciativa.

O que que motivou a criação de um festival focado nas vertentes mais pesadas e experimentais da música?

Sempre fui fascinado por alguns festivais que rolam na Europa e nos EUA, e nunca vi nada do tipo rolando no Brasil. Depois de um tempo de economias, ano passado e esse ano consegui realizar um dos meus sonhos: ir até o Roadburn Festival (em Tilburg, na Holanda). A ideia do Exhale the Sound Festival é quase 100% embasada nos festivais europeus, mas não se limitando a eles e sempre tentando agregar novidades que achamos que terão valor cultural ao evento. O festival é voltado para um público, infelizmente, pequeno, que se vê sem muitas opções de entretenimento nos festivais e eventos que costumam rolar pelo país. Podemos ver isso nitidamente pela quantidade de pessoas de fora de Belo Horizonte que já compraram ingressos e estão vindo exclusivamente para prestigiar o festival.

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Existe uma movimentação maior em torno desses subgêneros ultimamente em Belo Horizonte?

No Brasil, e principalmente em Belo Horizonte, esse tipo de som ainda é muito pouco difundido entre o público, o que acaba limitando muito a formação de novas bandas com uma proposta fora do convencional. Mas acredito que a cena está mudando, e posso citar os mineiros do God Demise como exemplo, já que eles praticam um som totalmente fora dos padrões das bandas que existem atualmente aqui, sendo a única banda disposta fazer esse tipo de som na cidade. Além deles, o festival também contará com bandas com propostas maravilhosas e totalmente fora do senso comum que costumam aparecer na cena brasileira. Por exemplo: Sobre a Máquina, Noala, Goatmantra, Reiketsu, Deaf Kids, Sick Visions, Kroni, entre outras.

Queria saber quem fez a curadoria das bandas e quem mais vem te ajudando a agilizar tudo pro festival. 22 bandas, equipo, palcos alternados. Deve ter sido um trampo fazer tudo no esquema DIY. Vocês estão há muito tempo produzindo o evento?

Grande parte das bandas foi escolhida por mim e por amigos, mas sempre tendo como ideal o foco na proposta do festival. Acreditamos que o line-up conte com as melhores bandas autorais do Brasil. Nesta edição contaremos com a presença de 22 atrações de vários estilos. Sou fã da maioria das bandas há bastante tempo, sendo assim consegui unir o útil ao agradável ao fazer o convite e receber de volta um “sim” como resposta. Nunca será possível fazer um evento DIY sem a ajuda de amigos e pessoas que compartilhem os mesmos interesses. O feedback que temos recebido tem nos deixado bastante felizes. Pessoas de várias partes tem nos oferecido ajuda na organização e divulgação do evento.

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Além da ajuda impagável de amigos e até mesmo de desconhecidos, tenho o suporte e apoio de dois brothers: o Felipe Gomes, de Belo Horizonte, que me ajuda em todos os corres, desde a divulgação até a logística do evento, e do Richardson Borges, de São Paulo, que vem me ajudado muito desde a gravação dos teasers até a interface de contato entre as bandas. A ideia do festival vem sendo fomentada na minha cabeça há cerca de um ano, mas só colocamos em prática em junho deste ano, quando iniciamos os primeiros contatos com as bandas.

O que há de mais inovador rolando nesta primeira edição, bandas que merecem mais atenção do público?

O festival tem como objetivo sair da mesmice. O Exhale the Sound não é um festival de metal, não é um festival de hardcore. O Exhale the Sound é um festival de música “torta”. Bandas de estilos musicais variados, com propostas diferentes, mas que têm uma característica em comum: fazer música autoral de qualidade surpreendente. Não diria que o festival apresente algo de inovador, apenas juntamos várias vertentes culturais (música, arte, vídeo, publicações) em um único evento. Lá o público poderá compartilhar e trocar experiências em um único ambiente, sem medos ou preconceitos.

Mas a galera do metal convive de boa num festival com o pessoal do hardcore?

A proposta do festival é a desvinculação dos padrões musicais comuns na cena underground. O evento é para aquelas pessoas que ouvem desde o black metal old school, passando pelo crust punk até o drone. Desde o início o festival foi pensando para os amantes da música, para aquelas pessoas que não estão presas a estilos e abertas a novas percepções no mundo musical.

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A proposta de vocês é realizar o festival anualmente, neste mesmo formato?

O festival é 100% DIY, ou seja, não temos patrocínio nem apoio de nenhuma entidade, governo ou empresa. Todos os recursos financeiros necessários para a realização do festival são provenientes dos nossos empregos “normais”. Para o sucesso do evento precisamos do apoio do público. Nosso objetivo é que o festival se torne anual, não se limitando as ideias promovidas nesse ano. Estamos abertos a sugestões e críticas de todos, sempre visando o crescimento e a melhora do evento a fim de tornar o Exhale the Sound cada vez mais especial para o público e para os artistas envolvidos.

O que mais vai rolar além de música? Você falou algo sobre uma mostra de vídeos e arte…

Esse ano além dos shows que serão alternados entre dois palcos (11 bandas em cada), o público do Exhale the Sound poderá conferir a mostra de artes de dois convidados: Ars Moriendee, de Belo Horizonte, e Bezzera Art, do Rio de Janeiro. Ambos com propostas diferentes em seu trabalho, mas ao mesmo tempo complementares àquilo que foi proposto pelo festival. A mostra de vídeos será focada na música. Vamos passar documentários relacionados ao hardcore nacional até o stoner americano e europeu. Teremos também a participação da Ugra Press, que é um projeto experimental interdisciplinar focado na produção, pesquisa e fomentação de cultura radical e alternativa. Eles estarão presentes no evento com seu o espaço voltado para uma seleta coleção de publicações independentes.

+ info:

http://www.exhalethesound.com/