Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.
Toda esta cena-de-a-erva-ainda-ser-ilegal-em-2016 é um bocado idiota, não é? Enquanto em várias partes do Mundo as autoridades estão a assumir abordagens mais sensíveis à questão da canábis – descriminalizando nuns casos e até legalizando noutros – o governo britânico continua a engonhar e a recusar qualquer tipo de debate sério sobre o tema.
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Mas não é só o governo. Há também aquela gente estranha que decide tomar em mãos a luta contra a “erva diabólica”. Tipo aqueles grupos de vigilância dos bairros, estás a ver? Aqueles gajos que ganhavam o ano se pudessem fazer uma detenção civil se apanhassem o vizinho a ver televisão por cabo pirata. Este ano já tivemos o exemplo daquele cidadão que se queixou do cheiro a erva num festival de música. Agora, foi aquela queixa de que estariam a ser cultivadas plantas de canábis nos canteiros do município de Glastonbury, que levou a que as autoridades locais arrancassem tudo indiscriminadamente.
E quem é que plantou estas sementes? Um homem anteriormente conhecido com “Rob” e que, por motivos óbvios, percebe-se agora, recentemente mudou o nome legalmente para “Free Cannabis”. Mr. Cannabis, como agora é conhecido, é um activista e proprietário de uma loja de produtos de cânhamo em Glastonbury, numa das zonas em que as plantas estavam a crescer livremente. Ao Somerset Live, disse que a exaltação em torno desta notícia é um “triste reflexo da fobia da sociedade em relação à erva. Decidi, por isso, ligar-lhe e tentar perceber melhor a sua posição.

VICE: Olá Free. Quando é que começaste a plantar sementes nos canteiros municipais?
Free Cannabis: Creio que por volta de 1998.
Mas tens feito isto às escondidas?
Não. Lembro-me até de um ano em que, enquanto estávamos a fazê-lo, acenámos para as câmeras de vigilância antes e depois, com as mãos cobertas de lama. Éramos cerca de 20 pessoas, numa zona bastante central de Glastonbury. Cresceram bem espessas e viçosas durante o ano.
Então o que é que aconteceu desta vez?
Aparentemente, houve uma queixa à polícia. As autoridades consideram que isto é uma absoluta perda de tempo, mas ainda há gente muito chateada com o facto de plantas de canábis estarem a crescer nos canteiros. É uma situação bastante rotineira aqui em Glastonbury, mas também noutros sítios, como em Bath, por exemplo. Afinal de contas, é uma planta.
Vê também: “As vidas difíceis dos jovens britânicos viciados em marijuana sintética“
Parece-me que sempre te focaste em acções directas, em vez de tentares criar grupos de influência.
Não acredito no sistema penal, que se mascara de governo. Esta planta é altamente benéfica. Houve alturas na minha vida em que fui detido – seis vezes entre 1997 e 2001 – e fui parar à prisão três vezes. Agora deixam-me em paz, principalmente porque tenho muita informação que eles preferem esconder do público.
Que tipo de informação?
Eles não querem que o povo saiba que o tetra-avô de David Cameron era o responsável máximo da East India Trading Company [não era o número um, mas era, de facto, um funcionário público afecto à EITC], ou que a CIA está totalmente envolvida no tráfico de cocaína [uma alegação bastante comum contra a CIA, mas que é um bocadinho mais complicada que isto]. Eles prefeririam que estas coisas não chegassem à consciência mainstream, mas já aí anda.
Muito bem. Basicamente, o que é que te leva a cultivares canábis?
Todos nós temos o nosso próprio sistema receptor endocanabinóide. Os nossos corpos foram feitos para funcionarem a um nível óptimotendo por base uma dieta rica em canábis. Idealmente, todos a teríamos nos nossos jardins e faríamos sumos frescos com a planta. O cânhamo tem uma vasta gama de benefícios; primariamente é fonte de alimento, fibras, combustível e medicamentos. A semente providencia um equilíbrio perfeito para os nutrientes de que necessitamos. A flor providencia canabinóides que melhoram as funções celulares e neurológicas. O papel de cânhamo, por exemplo, é de longe mais sustentável e resistente que o papel derivado das árvores e a fibra pode também ser utilizada para fabricar “Hempcrete” [um composto que pod ser usado na construção].
É uma planta fantástica. Ao ler a tua história no teu site, dá-me a sensação de que a tua trajectória na promoção e divulgação do cânhamo se tem tornado cada vez mais espiritual. Porque é que seguiste essa direcção?
Depois de ser detido tantas vezes, a partir de 2005 comecei a passar temporadas cada vez mais longas em Espanha. Em 2008 e 2009 cheguei mesmo a viver de forma completamente selvagem em montanhas espanholas, fora da rede, sem tocar em dinheiro, ou entrar em lojas. A viver totalmente livre e a passar o melhor período de sempre. Nessa altura tive um verdadeiro despertar espiritual.
E isso foi só devido a viveres de forma selvagem e livre? Não houve aí uma ajudinha química qualquer?
Só por causa de viver livre. Já experimentei cogumelos e ácidos, duas ou três vezes, mas esses dias já lá vão. Não tenho nada contra. Se as pessoas querem meter essas drogas, por mim tudo bem. A proibição é, na generalidade, criminosa. Na verdade, há até uma maior necessidade de regulamentar as drogas de classe A, por causa da forma como essas substâncias são cortadas e da criminalidade que perpetuam e financiam.
Tens algum evento planeado para o futuro próximo?
No próximo dia 28 de Setembro – data em que se assinalam os 88 anos da proibição da marijuana no Reino Unido – vou levar a cabo uma cerimónia de activação endocanabinóide em grupo, de forma legal, distribuindo trufas com canábis por toda a gente.
Boa, espero que corra bem. Obrigado, Free!
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