Saúde

Um cientista espanhol ensina-nos a fazer máscaras caseiras que funcionam mesmo

Podes usar filtros de café ou panos do pó.
06 April 2020, 5:25pm
cómo hacer mascarillas caseras coronavirus
Fotografia cortesia do entrevistado.

Este artigo foi publicado originalmente na VICE ES.

Quando o estado de alarme pelo coronavírus começou a espalhar-se entre a população, as máscaras foram uma das primeiras coisas a esgotar nas farmácias. Ainda antes do estado de emergência ser decretado, já havia algumas que anunciavam nas vitrinas que já tinham esgotado. Com o crescer da pandemia, em Espanha e pelo mundo fora, os hospitais carecem de todo tipo de material, incluindo máscaras. Por isso, Luis Carlos Alonso Arnedo, doutorado em ciências biológicas pela Universidade de Sevilha e em Ciências pela Universidade do Missouri (Estados Unidos), decidiu agir.

É um cientista altamente especializado em gorduras do Instituto de Gordura de Sevilha. Luis Carlos trabalhou em alteração genética de plantas, em agronomia e como professor associado de genética em Ciências Biológicas de 1985 a 2012. Actualmente, trabalha numa multinacional especializada em cultivos oleaginosos, em pesquisa e implementação de soluções para problemas no cultivo do girassol.

Mas, como eu estava a dizer, Luis Carlos não é só um cientista qualificado, é um profissional resoluto que conseguiu solucionar o problema da falta de recursos no sistema de saúde de Sevilha. A crise causada pela Covid-19, conhecida como coronavírus, deixou Espanha inteira sem muito do material sanitário necessário para enfrentar a pandemia. Foi por isso que Luis Carlos criou uma maneira de fabricar máscaras caseiras, ideais para serem usadas em algumas secções carecidas do Hospital Universitário Virgen Macarena, enquanto aguardavam o reforço de materiais oficiais. Depois de entrar em contacto com ele para esta entrevista, ele enviou-nos também este tutorial de como fazer as máscaras:

É uma solução muito útil para quando não temos outra opção a não ser sair de casa para fazer compras, ou para as pessoas que precisam de continuar a trabalhar, principalmente em atendimento ao público. Vendedores de frutas, farmacêuticos... Assim, qualquer um pode fazer uma máscara para seu uso próprio, caso não seja possível comprar as oficiais. Também podem ser uma solução para os trabalhadores na área de saúde, enquanto não chegam reforços de materiais médicos.

Falámos com ele para conhecer melhor a sua história e saber o que levou a desenvolver estas máscaras caseiras, tão úteis quanto necessárias.

VICE: O que te levou a interessar-te pelo coronavírus a ponto de desenvolver estas máscaras caseiras?
Luis Carlos Alonso: Preocupo-me com o problema desde que as infecções começaram na China, porque há anos que acompanho a questão das pandemias virais. O comportamento dos vírus que atacam as plantas é semelhante ao dos vírus que atacam seres humanos; a diferença básica está no sistema imunitário que nós, animais, possuímos e as plantas não. Este sistema aprende com as proteínas do vírus e cria a sua própria resposta. No entanto, para que isso ocorra, é necessária uma carga viral muito alta no sangue ao longo do tempo. Até que essa resposta ocorra, reagimos ao vírus de maneira semelhante às plantas. Por isso é que há pessoas mais e menos suscetíveis, tal como resistentes e assintomáticas.

O que me chamou a atenção foi que, enquanto na China 40 milhões de pessoas estavam a ser confinadas às suas casas a 23 de Janeiro, na Europa as autoridades não deram a devida importância, nem sequer vinte dias após a declaração da infecção. Eu estive na Roménia em trabalho de 18 a 26 de fevereiro e lá as máscaras já tinham esgotado em todas as farmácias, apesar de não haver ainda casos no país. O mesmo aconteceu na Moldávia.

Quando regressei a Espanha, as notícias eram mais abundantes e as máscaras também já tinham esgotado. As máscaras simples servem mais para prevenir o contágio dos outros do que protegem quem as está a usar, mas são uma ajuda importante na contenção da pandemia. Reduzem a probabilidade de infecção.

A 13 de Março, a minha filha Cristina, otorrinolaringologista, disse-me que havia falta de batas e máscaras no Hospital Macarena. Então, fui a uma loja tipo bazar e procurei tudo o que pudesse servir para fabricar máscaras. Uma máscara é simplesmente um tecido com poros muito finos, para que o vírus não possa penetrar. Não é nada mais do que um filtro de ar.

Como é que as fabricas?

Há vários tecidos que podem servir. Por exemplo, um filtro de café, ou dois ou três panos de papel. Fui comprar filtros de café e vi uns panos para o pó electroestáticos que decidi usar. Vêm dobrados e podem ser usados logo com dupla camada, o que aumenta a segurança. Tudo o que é preciso é moldá-los para que cubram bem a boca e o nariz. Têm que ir desde debaixo do queixo até acima do nariz.

Como é que te asseguras de que estão completamente esterilizadas e prontas para uso imediato?

A mesa deve ser limpa com álcool. Depois, deve colocar-se um isqueiro ou uma vela acesa para criar uma corrente ascendente de ar, para que o pó não caia na mesa. também se deve usar luvas e uma máscara enquanto fabricas outras e guardá-las dentro de um saco para não lhes tocares com as mãos, tudo desinfetado.

Qualquer estudante de biologia que tenha estagiado em laboratórios sabe que essas são as medidas para evitar a contaminação de uma cultura. Actualmente, existem câmaras e mesas com fluxo de ar incorporado que garantem a assepsia, mas os biólogos do início do século XX tinham meios bastante simples: álcool e um isqueiro de laboratório. De qualquer forma, a máscara não precisa de ser estéril, basta que não esteja contaminada pelo coronavírus.

Como é que as entregas no hospital?

Primeiro fiz umas quantas para a Cristina, minha filha, porque ela não tinha. Depois fiz mais umas para os colegas dela e fiz-lhes vídeo a explicar como é que se faziam. Vários dos seus colegas compraram os tais panos e começaram a fabricá-las. A filha de um deles até fez um tutorial semelhante ao meu. Dada a importância do uso de máscaras e o sucesso desta pequena invenção, continuei a fazê-las. A minha filha usa-as sempre quando vai trabalhar. Os colegas enviaram-me um vídeo a agradecer o gesto.

Devíamos tentar fazer máscaras em casa para as doar aos hospitais e a quem precisa?

As máscaras podem ser feitas por qualquer pessoa, embora seja muito importante garantir que a infecção não é transmitida. Não acho que seja necessário fazê-lo em casa, só quando falham os reforços de material oficial. Nesse caso sim, podem ser feitas em família, para proteger quem sabemos que precisa e para nos protegermos a nós próprios e aos outros quando precisamos de sair de casa para fazer compras.


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