Coronavirus

A China tem uma nova teoria da conspiração sobre a origem do coronavírus

E Pequim indicou que vai bloquear uma investigação global sobre como a pandemia começou.
18.5.20
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AP Photo/Ng Han Guan

Enquanto a taxa oficial de infecções por coronavírus se aproxima de 5 milhões e as mortes passam de 315 mil, líderes mundiais estão pedindo uma investigação sobre a origem do vírus para entender melhor como a pandemia começou e como a doença se espalha. Mas a China tem outras ideias.

Mais de 100 nações participando da Assembleia Mundial de Saúde na segunda-feira devem dar sinal verde para uma investigação independente sobre as origens do coronavírus. Pequim já indicou que vai bloquear uma ação assim, e em vez disso, está circulando a teoria da conspiração que o surto de coronavírus nos EUA veio de um vazamento de um laboratório militar americano.

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Numa matéria publicada no final de semana na revista do Partido Comunista da China Quishi, o governo chinês dizia que “esclarecer a fonte e a rota de transmissão do novo coronavírus é essencial” para combater o vírus.

Mas a matéria cita informação parcial ou relatórios já refutados para reforçar a alegação que o coronavírus não se originou na cidade de Wuhan.

O autor da matéria destaca especificamente a situação nos EUA – onde quase 90 mil pessoas já morreram de coronavírus.

A matéria cita um artigo publicado em abril sobre variações de coronavírus – descobertas já contestadas por outros cientistas – para afirmar que o vírus que explodiu nos EUA em março “não veio do exterior”.

O autor então aponta que muitas pessoas estão questionando por que o Fort Detrick Biological Laboratory foi fechado, se o local conduzia pesquisas com coronavírus, e se houve um vazamento no laboratório.

Fort Detrick, em Maryland, era o local do Instituto de Pesquisas Médicas de Doenças Infecciosas do Exército Americano. A instalação fechou agosto passado depois que o CDC encontrou lapsos de biossegurança lá. O New York Time informou na época que a ordem de fechamento veio porque o local não tinha “sistemas suficientes para descontaminar água residual” de seus laboratórios de alta segurança. Não havia indicação de que materiais que pudessem causar doenças vazaram dos laboratórios.

Essa é uma variação da teoria da conspiração que oficiais do governo chinês já vinham circulando, de que pessoal militar americano de Fort Detrick importou o vírus para Wuhan em outubro durante os Jogos Mundiais Militares.

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A teoria também é uma refutação da teoria da conspiração alimentada pelo presidente Donald Trump e sua administração de que o coronavírus vazou do Instituto de Virologia de Wuhan – uma teoria desacreditada pela maioria dos cientistas.

Mas no final de semana, o secretário do Departamento de Estado Mike Pompeo voltou atrás de suas alegações de que o coronavírus se originou num laboratório de Wuhan, dizendo ao Breitbart: “Sabemos que começou em Wuhan, mas não sabemos onde nem de quem, e essas coisas são importantes”.

Como parte do argumento de que a China não é a origem do surto, a revista também cita um caso confirmado de coronavírus na França em 27 de dezembro, alegando que o homem não tinha ligação com a China nem um histórico de viagem para o país antes de ser infectado.

O que a revista não menciona é que a esposa desse paciente trabalhava num supermercado perto do aeroporto Charles de Gaulle em Paris, e pode ter entrado em contato com pessoas que tinham chegado recentemente da China.

Tanto Washington quanto Pequim têm tentado desviar as críticas sobre como estão lidando com os surtos nos EUA e na China colocando a culpa um no outro.

Essas narrativas concorrentes e um esforço geral para estabelecer como, exatamente, o coronavírus se espalhou vão dominar a cúpula anual de dois dias da AMS, órgão da Organização Mundial de Saúde.

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A cúpula, que vai acontecer virtualmente este ano, foi aberta pelo presidente chinês Xi Jinping, que negou qualquer acobertamento: “Desde o começo, temos agido com sinceridade, transparência e responsabilidade”.

Agora, mais de 120 países já apoiaram uma proposta de resolução da União Europeia e Austrália pedindo uma investigação sobre as origens do COVID-19. A resolução provavelmente será apresentada na terça-feira se conseguir o apoio de dois terços dos 149 estados-membros da AMS.

Mesmo assim, horas antes das reuniões da AMS começarem, o porta-voz do Ministério de Relações Internacionais da China Zhao Lijan disse que Pequim provavelmente não permitirá que uma investigação imediata comece, rotulando a ação como “prematura”.

Esses comentários foram reiterados por Xi em seu discurso na AMS na segunda, onde ele pediu “uma revisão abrangente da resposta global ao COVID-19”, mas só depois que a pandemia “estiver sob controle”.

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Imagem do topo: Uma mulher usando máscara contra coronavírus passa por um grafite “Use sua máscara corretamente ” em Pequim, 15 de maio de 2020. A produção industrial aumentou em abril enquanto a economia chinesa reabria, mas o desemprego diminuiu os gastos dos consumidores, um fator-chave de crescimento, num sinal dos desafios que o Partido Comunista enfrenta para reviver a atividade normal. (AP Photo/Ng Han Guan)

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