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Este pássaro voltou a existir depois de se ter extinto há mais de 100 mil anos

“Não conhecemos outro exemplo na família dos ralídeos, ou em pássaros no geral, que demonstre este fenómeno de maneira tão evidente”.

Por Becky Ferreira; Traduzido por Madalena Maltez
14 Maio 2019, 10:27am

Dryolimnas cuvieri. Imagem: Charles J Sharp

Este artigo foi originalmente publicado na Motherboard - Tech by VICE.

À primeira vista, o Dryolimnas cuvieri de Aldabra, um pássaro que não voa e vive no atol com o mesmo nome no Oceano Índico, pode não parecer um animal muito especial. No entanto, este passaroco tem muito do que se gabar, porque evoluiu e voltou a existir duas vezes depois de se ter extinto há uns 136 mil anos atrás.

Segundo um estudo publicado na última semana no Zoological Journal of the Linnean Society, o Dryolimnas cuvieri é um exemplo de um fenómeno raramente observado chamado evolução iterativa, em que a mesma linhagem ancestral produz ramificações paralelas em pontos diferentes do tempo. Isso significa que espécies quase idênticas podem aparecer em várias épocas de diferentes eras e locais, mesmo que as interações passadas tenham sido extintas.


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Fósseis do pássaro foram encontrados antes e depois de Aldabra ter submergido num “evento de inundação” que ocorreu há 136 mil anos, segundo afirma o autor do estudo Julian Hume, paleontologista especializado em aves do Museu de História Natural de Londres e David Martill, paleobiólogo da Universidade de Portsmouth.

Essa elevação do nível do mar acabou com a primeira interacção do Dryolimnas cuvieri, descendente de antepassados voadores originários das Ilhas Seychelles e Madagascar. Incrivelmente, a mesma espécie ancestral parece ter recolonizado o atol depois deste ter voltado a emergir dezenas de milhares de anos depois. Os fósseis indicam que, com o tempo, o novo Dryolimnas cuvieri evoluiu para não voador, já que a ausência de predadores em Aldabra tornou essa capacidade obsoleta. Há cerca de 100 mil anos atrás, o processo de evolução já tinha produzido o mesmo pássaro que foi extinto dezenas de milhares de anos antes.

A evolução iterativa já foi observada noutros animais, como vacas-marinhas, amonites e tartarugas marinhas. Mas, as duas espécies do pássaro de Aldabra, dos dois lados do dilúvio, representam um case study sem precedentes de evolução iterativa de aves, conforme concluíram os autores.

“Não conhecemos outro exemplo na família dos ralídeos, ou em pássaros no geral, que demonstre este fenómeno de maneira tão evidente”, realça Martill numa declaração. E acrescenta: “Só em Aldabra, que tem o registo paleontológico mais antigo de qualquer ilha oceânica da região do Índico, há evidência fóssil que demonstra os efeitos de eventos de mudança dos níveis do mar em extinção e recolonização”.

Agora, os oceanos estão de novo a subir, graças ao aquecimento global causado pelo homem, por isso o pássaro moderno de Aldabra pode enfrentar o mesmo destino da sua espécie irmã extinta. Mesmo que seja esse o futuro sombrio que esta população aguarda, talvez uma terceira encarnação do pássaro acabe por reaparecer no distante atol.


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