"A Great Day in Hip Hop", Fundação Gordon Parks, reimpressão "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC. 

Fotografias redescobertas da realeza do rap dos anos 80 e 90

Imagens do começo das carreiras de Biggie, Tupac e outros rappers pioneiros fazem parte de um autêntico tesouro da história da música, revelado no livro "Contact High".

Por Taylor Hosking; Traduzido por Madalena Maltez
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09 janeiro 2019, 5:41pm

"A Great Day in Hip Hop", Fundação Gordon Parks, reimpressão "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC. 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Num dia ensolarado de Setembro no Harlem de há 20 anos – um ano depois da morte de Biggie e dois anos depois da morte de Tupac – a XXL fez história no mundo da música com uma fotografia. A equipa da revista falou com centenas de pioneiros do hip hop para recriar A Great Day In Harlem, uma imagem icónica de lendas do jazz como Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e Gene Krupa, todos juntos à frente de um prédio naquele bairro nova-iorquino, captada a 12 de Agosto de 1958 pelo fotógrafo Art Kane para a Esquire. Para a versão hip hop, a XXL escolheu o lendário fotógrafo negro, Gordon Parks.

A equipa editorial não sabia quantos rappers iam efectivamente aparecer, mas a quantidade de gente que compareceu superou muito as expectativas. Mais de 100 artistas do hip hop – das costas Leste e Oeste, old e new school – juntaram-se à frente do mesmo prédio da fotografia original, na 17 East 126th Street. Entre eles estavam Rakim, Busta Rhymes, membros dos The Roots e dos A Tribe Called Quest, Pete Rock, Grandmaster Flash, Slick Rick e muitos outros.


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Num vídeo feito por Nelson George que documenta aquele dia, Mos Def parece perplexo com o número de lendas presentes na sessão fotográfica, salientando o surrealismo de ver aquela malta toda junta. Todavia, a foto quase não aconteceu, porque a equipa de Park teve dificuldade em posicionar os rappers no enquadramento. Eles espalhavam-se pelos degraus e, à medida que o tempo passava, uma sombra vindo do outro lado da rua ameaçava estragar a imagem. Assim que uma voz gritou “Estamos a perder Jermaine Dupri”, o Reverend Run apareceu no último minuto, a caminhar lentamente pela esquina, entrando na formação como a última peça do quebra-cabeças antes de Park captar o momento.

As pessoas que lá estavam relembraram o acontecimento num evento realizado em Novembro último no Schomburg Center, no Harlem. O escrito Miles Lewis referiu-se à imagem como “a foto de formatura do rap” e Fab Five Freddy chamou-lhe o retrato do último momento da “era de ouro” do rap, antes de o género tomar uma nova forma noutras partes do Mundo.

Apesar de todo o significado da fotografia, ela não se tornou, nem de perto nem de longe, tão famosa como a original, ou como várias outras fotos do hip hop que conhecemos hoje como representativas de uma era. Vi-a pela primeira vez nas páginas de abertura de Contact High, um novo livro de fotografia que faz uma crónica da ascensão do rap, contada por fotógrafos à medida que revisitam provas de contacto de sessões de fotos icónicas e outras pouco conhecidas.

“Era como pedir para ver o diário da pessoa”, diz à VICE a autora da obra, Vikki Toback. E acrescenta: “[Essas provas de contacto] não foram feitas para consumo público - mostram todos os erros dos fotógrafos e dos artistas e momentos onde estavam constrangidos ou a tentar demasiado ser de certa forma. Mas, agora, numa altura em que as imagens são quase perfeitas, é importante realçar que é tudo um processo”.

Mais que isso, ao chamar a atenção para imagens esquecidas ou nunca publicadas, Contact High mostra o quanto há para aprender sobre uma época que os fãs casuais acham que conhecem pelas poucas imagens que circulam online. Alguns dos fotógrafos apresentados no livro até redescobriram fotos nas quais não pensavam há décadas, encontrando um significado renovado nas imagens que captaram.

Muitas das fotos no livro eram imagens de que a autora Vikki Tobak se lembrava dos seus anos a cobrir hip hop como jornalista nos anos 90. Mais tarde, a trabalhar como produtora, inspirou-se nos arquivos cuidadosamente guardados pela CNN e CBS e começou a entrar em contacto com velhos conhecidos para ver o que eles conseguiam desenterrar. “Muitas destas provas de contacto estavam guardadas em caixas de sapatos, ou enfiadas no fundo de armários ou caves”, realça Tobak.


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Além disso, grande parte das fotos primordiais dos anos 80 eram inéditas, porque “muitos desses fotógrafos não eram profissionais [na época]. Simplesmente, gostavam da cultura [do hip hop] ou faziam parte dela, assim como os artistas”, acrescenta a autora.

Tobak descobriu a primeira sessão de fotos de Biggie quando ligou ao fotógrafo George Debose para lhe pedir imagens de Big Daddy Kane. Dubose contou-lhe uma história incrível sobre o dia em que caminhou até Bed-Stuy, em 1992, para fotografar Biggie Smalls, na altura um rapper desconhecido, para uma colagem com vários artistas impressa na contracapa de um disco de 12”. As fotos de Biggie apresentadas em Contact High são eléctricas. O artista aponta para placas de rua na esquina da Bedford e Quincy no Brooklyn, enquanto amigos espontaneamente se juntam à sessão, com um deles a carregar uma arma (assustando o fotógrafo, que achou melhor ir-se embora). Fica claro na imagem a energia autêntica que lançou a carreira de Biggie.

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OutKast. Janette Beckman 2003, reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicada por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.

O livro fornece uma visão mais ampla da trajetória do hip hop e torna mais fácil ver o desenvolvimento dos artistas ao longo do tempo e as tendências estéticas de cada momento. “Tentei mostrar muitas das primeiras fotos da cena”, diz Tobak. E salienta: “Tenho a primeira sessão de fotos do Biggie, a primeira sessão do Jay e depois mostro-os de novo no livro já a meio da carreira e ainda mais tarde. Podes ver nas primeiras fotos que eles ainda estão meio a descobrir a sua imagem. Querem ser durões ou esotéricos, isto ou aquilo?”.

Um dos temas mais impactantes que surge no livro é a atitude do hip hop em relação à sexualidade e à agressão masculinas. No começo dos anos 90, o hip hop era associado com uma vulgaridade assertiva, mas Contact High complica essa narrativa. Fotos dos anos 80 mostram a fanfarronice a infiltrar-se lentamente na atitude dos rappers. Há uma foto do jornalista de música Bill Adler a um grupo de rappers jovens anónimos. O fotógrafo disse ao grupo para dizer “sex” em vez de “cheese”, segundo Adler e, como eles ainda eram virgens, isso fá-lo rir sempre que vê a imagem.

Na época em que um certo lado masculino desafiador estava em alta, como é claro numa fotografia de imprensa de 1989 de Slick Rick a segurar os testículos, a masculinidade agressiva não era ainda, todavia, a única história. Havia fotos incrivelmente vulneráveis nos anos mais agressivos do hip hop, como a capa de 1995 de Goodie Mob para a revista Rap Pages, que retrata os quatro homens de tronco nu, num rio, como se fosse um baptismo.

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Slick Rick (esquerda) fotografado por Jannette Beckman, 1989 e Goodie Mob (direita) fotografado por Brian Cross. Reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.

Provas de contacto de várias fotografias da mesma sessão revelam os lados da personalidade que muitas estrelas do hip hop começaram a esconder do público. Nesse sentido, destaca-se uma sessão de fotos de 1996 para a Vibe com Biggie e Faith Evans. A fotografia final é dura e ao estilo gangster, mas, nas fotografias que não foram aprovadas, a dupla sorri com doçura, olhando-se nos olhos.

Mesmo algumas fotos que, pelos padrões de hoje, parecem muito misóginas, têm na verdade histórias complexas. Em 1995, a Rap Pages decidiu recriar a capa de 1993 com Janet Jackson para a Rolling Stone, em que um modelo segurava os seios da artista por trás, e usar Old Dirty Bastard como modelo. Mas no set, quando chegou a altura de fazer as fotografias, ODB teve que pedir a toda a gente que não fosse essencial que saísse - o músico parece claramente desconfortável nos resultados finais.

Apesar de os rappers serem estereotipados como espalhafatosos ou superficiais, muitos fotógrafos e artistas queriam fazer imagens mais cinematográficas ou minimalistas. Às vezes eram os fotógrafos que batiam o pé, como quando Jason Keeling se recusou a deixar LL Cool J tirar a t-shirt para uma fotografia de capa da YBS Magazine, porque queria captá-lo como artista, não como sex symbol; ou quando o fotógrafo artístico Barron Claiborne ignorou os protestos de P Diddy de que Biggie ia parecer mais o Burger King do que o Rei de Nova Iorque quando ele captou o close-up simples do rapper a usar uma coroa de plástico. Biggie morreu três dias depois e a imagem tornou-se a sua fotografia mais icónica. Alguns artistas também ficaram claramente hipnotizados pela atracção cinematográfica do meio, como os Wu-Tang Clan que usavam as fotos para dar vida às suas fantasias de kung fu, ou Tupac, fascinado com câmaras antigas de grande formato durante a sua icónica sessão para a capa da Rolling Stone.

Contact High também destaca a evolução do estilo das rappers. Nos primórdios do hip hop, visuais fora da norma faziam sucesso. Nos anos 80, os icónicos casacos coloridos Dapper Dan das Salt n Pepa eram roupas pessoais das artistas, porque não havia um stylist para essas primeiras fotos. O estilo combinava com elas, mas uma estética feminina vibrante não funcionava para todas as MCs. Algumas mulheres pareciam constrangidas com as opções da época. Quando o estilo de calças largas e bandanas chegou, foi libertador. E os stylists que construíram esse visual, como Misa Hylton, tornaram-se sinónimos do hip-hop.

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(Esquerda) Salt n Pepa 1989, foto por Janette Beckman. (Direita) Mary J Blige, fotografada por Michael Benabib, 1992. Reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.

Contact High surge num momento em que instituições como Harvard, Cornell e o Instituto Cultural Google estão a analisar como arquivar a história do hip-hop. O livro mostra um tipo de reflexão em massa que é necessário para fazer justiça à cultura. Tobak diz que os fotógrafos estão a entrar em contacto com ela pelo Instagram, a enviar novas provas de contacto de, por exemplo, sessões de fotos para a imprensa dos Wu-Tang e os primeiros retratos de Kendrick Lamar. Em Abril, as fotografias em Contact High vão ganhar uma nova vida na forma de exposição, no Annenberg Space for Photography, em LA, antes de viajar por várias cidades dos EUA.

Para fotógrafos contemporâneos, a era encapsulada em Contact High representa um momento em que as sessões fotográficas eram mais espontâneas, controladas por poucas pessoas. “É muito difícil para jovens fotógrafos hoje, porque carregam nos ombros o peso de toda essa imagética, lidam com ciclos mais rápidos de notícias e os artistas tornaram-se mais protectores da sua imagem”, diz Tobak. E acrescenta: “Não é difícil conseguir imagens icónicas, mas é mais difícil conseguir momentos crus e autênticos, que não sejam muito pensados ou exageradamente planeados”.

Tobak diz apreciar jovens fotógrafos que só retratam amigos e coisas simples, que acham significativas ao seu redor e espera que não se sintam desencorajados se não tiverem um momento de fama. “Para as pessoas neste livro era praticamente a mesma coisa. Demorou quase 40 anos até percebermos o que foi aquele momento. Por isso, diria para não pensarem demasiado. Sigam os vossos instintos, sigam a beleza, sigam o que acham importante agora”, realça. Talvez a principal coisa para se retirar de Contact High é que o que hoje pode parecer aleatório, pode vir a mostrar muito sobre esta época no futuro.

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Biggie. "King of New York", por Barron Claiborne, 1997. Reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.
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Kanye West, sessão de fotos para "College Dropout", por Danny Clinch, 2003. Reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.
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A primeira sessão de fotos de Biggie, por George Debose, 1992. Reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.
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Tyler the Creator, 2011, por Jorge Peniche. Reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.
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Nicki Minaj, 2004, fotografada por Angela Boatwright. Reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.
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A$AP Rocky, "Long. Live. A$AP", 2012, por Phil Knott. Reimpressão de "Contact High". Copyright © 2018 por Vikki Tobak. Publicado por Clarkson Potter, Penguin Random House, LLC.

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