Willem's homemade DMT lab
Todas as fotos cortesia de Willem.

Este cara cozinhou DMT na própria cozinha por quatro anos

Willem produziu dezenas de milhares de quilos de DMT num laboratório improvisado em casa.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
1.2.19

Willem* estava exausto. Era tarde, e ele estava de cueca no meio de seu laboratório de DMT, que também era sua cozinha. Willem estava trabalhando há 20 horas direto; ele estava tão cansado que seus olhos começaram a arder.

Pela quinta vez seguida, ele chacoalhou 32 frascos um por um, cada um cheio de DMT cristalizado, água e benzina. Por perto, um único ovo fritava sobre o fogão. Enquanto ele misturava um dos frascos de vidro com as duas mãos, um pouco de gás escapou da tampa. Williem estava fazendo 25 gramas de DMT numa única sessão, com um valor de mercado de €2.250 [cerca de R$9.300]. Ele estava quase terminando o trabalho da noite; mas aí viu uma grande chama. Suas mãos tinham pegado fogo.

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Ele rapidamente colocou o jarro na bancada e apagou as chamas com um pano de prato. O cheiro súbito de benzina o fez olhar para sua barba chamuscada, depois para as mãos e braços sem pelos. Por um tempo, tudo que Willem conseguiu fazer foi olhar para os ovos queimados na frigideira enquanto jogava água nos braços. Logo depois disso, ele trancou seu laboratório e foi pra cama.

“Felizmente o incidente não deixou marcas no meu corpo, mas deixou uma impressão”, Willem diz agora. “Quando você ignora seus próprios limites, trabalhando mais tempo ou fazendo coisas demais de uma vez, você começa a cometer erros. E nesse negócio, erros podem custar sua vida.”

Willem frequentemente trabalhava a noite toda em sua cozinha, com gases químicos se espalhando pela casa, um cheiro mascarado pelo incenso queimando perto da janela. Mas o dinheiro rápido fazia valer a pena. Por quatro anos, ele contribuiu com um mercado negro global de drogas que movimentou €18,9 bilhões só em 2017, segundo uma pesquisa recente da academia de polícia holandesa.

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Um lote de DMT secando na cozinha.

Durante a semana, Willem mora num trailer numa fazenda em Brabant – uma província do sul da Holanda – onde ele trabalha cultivando frutas e vegetais orgânicos há alguns meses. Nos finais de semana, quando não está trabalhando, ele mora numa casa de verdade, em algum lugar da mesma província. Willem me mostra seus dedos, as unhas sujas de terra preta. “[Plantar] é muito diferente de fazer drogas, mas eu estava preparado pra isso”, ele sorri.

Concordamos em nos encontrar perto do trabalho dele para falar sobre sua vida anterior ao ato de cozinhar DMT. A primeira coisa que quero saber é como esse homem arrumado e falante de 26 anos entrou para a produção em larga escala de uma droga sintética aos 22. “Tudo começou com uma fascinação básica pela coisa”, ele explica.

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Uma seleção dos equipamentos do laboratório de Willem.

Willem tinha 21 anos quando fumou DMT pela primeira vez. No colegial, ele estava curioso sobre o psicodélico – mas a droga era bem difícil de encontrar. Eventualmente ele conseguiu arranjar alguma. “A primeira vez que usei, meu sangue estava correndo pelo meu corpo”, ele lembra. “Respirei fundo, dei três tragadas, e antes de colocar o cachimbo na mesa, eu estava num mundo completamente diferente. A droga bateu imediatamente. Tiraram o cachimbo e o isqueiro das minhas mãos, e com um empurrão delicado caí no sofá da casa de um amigo. Eu tinha perdido todo o controle.”

Willem descreveu ver todos os objetos da sala saírem das paredes e voarem ao redor dele. Enquanto isso, seus amigos estavam se contorcendo em diferentes formas, antes de flutuarem e andarem no teto. “Você não tem tempo para processar – tudo acontece muito rápido”, ele diz. “Durante uma viagem como essa, você não sente medo – tudo que você experimenta é uma sensação indescritível de conexão e amor. Mas quando voltei para a realidade, eu tinha cagado na calça. Foi traumatizante – mas ao mesmo tempo, foi bonito.”

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A experiência deixou uma impressão que Willem não conseguia esquecer. Ele começou a pesquisar as origens do DMT na internet para entender melhor sua experiência, e aprendeu que até ele – que não tinha estudado química – podia fazer a droga em casa seguindo alguns passos fáceis. “Uma reação de ácido/base não é tão complicada, e tinha muitas dicas na internet para fazer isso na sua cozinha”, explica Willem.

Por €150 [R$620], Willem comprou um kit iniciante para transformar sua cozinha num laboratório experimental de drogas. “Fazer aquele primeiro lote foi uma bagunça”, ele lembra. “Acabei com dois gramas de DMT. Me senti incrível, apesar de não saber se ia realmente funcionar.”

Willem sabia que o certo era testar o produto ele mesmo antes de oferecer aos amigos. “A primeira vez foi muito tensa”, ele diz. “Eu estava na casa de um amigo com minha namorada na época. Eles sabiam que eu estava trabalhando nisso, mas quando realmente coloquei meu DMT caseiro na mesa, eles ficaram em silêncio. Decidi ir para o segundo andar e acender um cachimbo enquanto minha namorada observada. Não sei porque eu tinha tanta fé que daria certo, mas deu, eu estava certo. Foi mágico!”

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Alguns frascos contendo DMT na casa de Willem.

Um ano depois, Willem terminou a escola e se tornou um relojoeiro. Ele trabalhava num armazém cinco dias por semana e eventualmente economizou €1.500 [R$6.200] que precisava para comprar equipamento profissional de laboratório. Ele passou fins de semana inteiros sozinho em casa, aprendendo a cozinhar DMT. “Fora a droga em si, desenvolvi um amor e fascinação enormes pela química”, ele diz. “Eu ficava olhando o DMT por horas enquanto ele cristalizava nos frascos de vidro. A química acabou virando pornografia”, ele ri.

O sol estava começando a se pôr quando voltamos pro trailer dele. “Quando algo me fascina, acabo mergulhando um pouco fundo demais”, ele diz.

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Logo, todos os armários dele estavam cheios de potes de hidróxido de sódio, garrafas de vinagre e grandes frascos cônicos. Tinha seringas de medição de plástico por todo lado e pastas cheias de receitas e notas de pesquisa. Enquanto lista tudo que costumava ter em casa, Williem ri. “Eu era muito descuidado no começo, deixando tudo jogado por aí. Amigos que me visitavam ficavam meio chocados no começo. Mas nunca fiz segredo disso e no final eles também começaram a achar a produção interessante.”

Mesmo assim, ninguém queria comprar dele. “A resposta inicial me decepcionou”, ele admite. “Alguns amigos compravam uma dose de vez em quando, mas era só o que eu conseguia vender. Em certo ponto, produzi 300 gramas, que venderiam nas ruas por €27 mil. Então comecei a procurar por compradores maiores.” Willem não revela como encontrou esses compradores maiores, mas diz que eles foram ótimos para os negócios. “Era diferente dos hippies e psiconautas pra quem vendi antes. De repente, eu estava falando com homens de negócio de verdade – caras ricos que mantinham a palavra e seguiam contratos. O dinheiro começou a entrar rápido.”

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Willem foi ficando cada vez mais eficiente em sua pequena cozinha – ele passou de trabalhar com apenas frasco pequeno de vidro para 32 frascos simultaneamente. “Isso significa que você acrescenta líquido 160 vezes e chacoalha os jarros 3.200 vezes”, ele calcula em voz alta. “Nesse ponto virou um trabalho de tempo integral, não mais um hobby, e tive que aceitar que eu estava desobedecendo seriamente a lei. Foi caindo a ficha de que eu era um criminoso – uma sensação que eu até gostava. Quanto mais profissional eu me tornava, maior era a adrenalina.”

Quando chegamos ao trailer dele, estacionamos na propriedade de seu novo empregador, passamos para o lado mais prático do processo. “Eu pegava a maioria das coisas de uma loja de DIY”, ele me diz. “Da primeira vez eles não fizeram perguntas. Mas quando você aparece pela décima vez para comprar cinco garrafas de hidróxido de sódio, eles querem saber para que você está usando. Essas coisas são usadas para produzir praticamente todas as drogas sintéticas por aí, e também podem ser usadas para fazer bombas. Às vezes eles pedem para tirar uma cópia da sua identidade. O que significava que eu tinha que passar por várias lojas.”

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Dentro do trailer, ele pega alguns cadernos. “Para mim, não era mais uma questão de seguir um método pronto.” Através de pesquisa, realizando alguns experimentos e anotando tudo, Willem foi melhorando suas receitas e processos. Ele também começou a se especializar em fazer uma mistura de fumo com infusão de DMT chamada changa. “Ainda mais rara que DMT!”, ele se gaba.

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Uma bandeja de changa (esquerda) e uma bandeja de DMT (meio). Um pequeno tubo de DMT (direita).

Willem fala mais lentamente agora. “Resíduos químicos são um problema”, ele diz. “Joguei meus resíduos na privada só uma vez, mas me senti muito mal. Outras vezes, eu colocava os resíduos em latas e deixava numa esquina. Mas também não é certo – você torna isso ser o problema de outra pessoa. Mas quando você está do lado errado da lei, não tem outro jeito.”

Aos 24 anos, Willem consegui compradores grandes o suficiente para largar seu emprego normal. Em casa, tudo que ele fazia era cozinhar DMT. Ele tinha que trabalhar com as janelas abertas, o que fazia o ar em volta da casa dele ter um cheiro constante de benzina. O que o deixava com ainda mais medo que o incenso na casa não era mais suficiente para mascarar o cheiro e evitar suspeitas dos vizinhos. Willem foi ficando cada vez mais nervoso com cada pessoa que passava na frente de sua casa, e cada vez menos confortável de estar ali. “Quando eu trabalhava [com DMT] em tempo integral, fiquei muito paranoico”, ele diz. “Falta de sono também não ajudava. Eu trabalhava por semanas direto, sem ver meus amigos.”

Logo, o dinheiro não parecia valer todo o stress. “Eu achava que o dinheiro me faria feliz, mas faz tempo que não me sinto assim”, ele diz. “Os caras com quem eu trabalhava na época queriam que eu começasse a produzir speed e ecstasy. O plano era me mudar para uma casa no meio do nada, equipada com um laboratório completo e todos os materiais e substâncias que eu precisava. Eu poderia trabalhar sem ser interrompido e fazer milhares de euros por mês.”

Ele pausa por um momento e engole seco. “Para mim, isso era ir longe demais. Eu estava cansado”, ele diz. “Por anos, passei muito tempo cozinhando drogas e inalando gases químicos, sob o risco de ser pego ou incendiar minha casa. Eu queria ficar com o DMT e esse mundo hippie. Quando produz speed ou cocaína, você acaba envolvido com um tipo de pessoa muito diferente.”

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Desde o ano passado, Willem vem dissolvendo seu império de drogas. Ele ainda não revela para quantas pessoas trabalhava, mas diz que o processo de encerrar esses relacionamentos tem sido fácil. Mas ele parou para sempre? “Química sempre vai ser um hobby. Mas os dias de fabricação hardcore acabaram”, ele diz. “Acho que tive sorte: nunca fui pego e acabei economizando uma boa grana – mas no final, eu queria minha liberdade de volta.”

Willem acabou encontrando essa liberdade, ele me diz, em sua nova carreira na horticultura, e agora estuda agricultura. Ele estica as pernas, coloca os braços atrás da cabeça e olha para uma lamparina numa mesinha fora de seu trailer. Nos despedimos um pouco depois. Willem tem que voltar para o batente no campo às 7 da manhã.

*O nome de Willem foi mudado para proteger sua identidade.

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.