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Este gajo cozinhou DMT na própria cozinha durante quatro anos

Willem produziu dezenas de milhares de quilos de DMT num laboratório improvisado em casa.

Por Eric Borghuis; Traduzido por Madalena Maltez
06 Fevereiro 2019, 10:08am

Todas as fotos cortesia de Willem.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Holanda.

Willem* estava exausto. Era tarde e andava de cuecas pelo meio do seu laboratório de DMT, que era também a sua cozinha. Willem estava a trabalhar há 20 horas seguidas; estava tão cansado que os seus olhos ardiam.

Pela quinta vez seguida, sacudiu 32 frascos, um por um, todos eles cheios de DMT cristalizado, água e benzina. Por perto, um único ovo fritava sobre o fogão. Enquanto misturava um dos frascos de vidro com as duas mãos, um pouco de gás escapou pela tampa. Willem estava a fazer 25 gramas de DMT numa única sessão, com um valor de mercado de 2.250 euros. Estava quase a terminar o trabalho da noite, quando viu uma grande chama. As suas mãos estavam a arder.

Rapidamente, colocou o jarro na bancada e apagou as chamas com um pano da loiça. O cheiro súbito a benzina fê-lo reparar na sua barba chamuscada, depois nas mãos e braços sem pêlos. Durante um momento, tudo o que Willem conseguiu fazer foi olhar para os ovos queimados na frigideira enquanto punha água nos braços. Depois disso, trancou o laboratório e foi para cama.


Vê: "No interior de um laboratório caseiro de DMT montado por um professor de química"


“Felizmente, o incidente não me deixou marcas no corpo, mas deixou uma impressão”, diz Willem agora. E acrescenta: “Quando ignoras os teus próprios limites, a trabalhar mais tempo ou a fazer demasiadas coisas de uma vez, começas a cometer erros. E, neste negócio, erros podem custar-te a vida.”

Willem trabalhava, frequentemente, na sua cozinha a noite inteira, com gases químicos a espalharem-se pela casa, um cheiro mascarado pelo incenso que queimava perto da janela. Mas, o dinheiro rápido fazia com que tudo valesse a pena. Durante quatro anos, contribuiu para um mercado negro global de drogas que movimentou 18,9 mil milhões de euros só em 2017, segundo uma estudo recente divulgado pela polícia holandesa.

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Um lote de DMT a secar na cozinha

Durante a semana, Willem mora numa caravana numa quinta em Brabant – uma província do sul da Holanda –, onde trabalha há alguns meses no cultivo de frutas e vegetais orgânicos. Aos fins-de-semana, quando não está a trabalhar, mora numa casa a sério, algures na mesma província. Willem mostra-me os seus dedos, as unhas sujas de terra preta. “[Plantar] é muito diferente de fazer drogas, mas já estava preparado para isso”, sorri.

Concordámos em encontrarmo-nos perto do seu trabalho para falar sobre a sua vida antes de cozinhar DMT. A primeira coisa que quero saber é como é que este homem de 26 anos, atraente e bom conversador, entrou na produção em larga escala de uma droga sintética aos 22 anos. “Tudo começou com um fascínio básico pela coisa”, explica-me.

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Uma selecção dos equipamentos do laboratório de Willem

Willem tinha 21 anos quando fumou DMT pela primeira vez. No liceu, tinha curiosidade sobre a substância psicadélica, mas a droga era bastante difícil de encontrar. Eventualmente, conseguiu arranjar alguma. “A primeira vez que experimentei, o sangue corria-me pelo corpo”, recorda. “Respirei fundo, dei três passas e, ainda antes de pousar o cachimbo na mesa, já estava num mundo completamente diferente. A droga bateu-me imediatamente. Tiraram-me o cachimbo e o isqueiro das mãos e, com um empurrão delicado, caí no sofá de casa de um amigo. Tinha perdido todo o controlo”.

Willem descreve que viu todos os objectos da sala a saírem das paredes e a voarem ao seu redor. Enquanto isso, os seus amigos estavam a contorcer-se em diferentes formas, antes de flutuarem e caminharem pelo tecto. “Não tens tempo para processar – acontece tudo muito rápido”, salienta. E acrescenta: “Durante uma moca como essa, não sentes medo – tudo o que experimentas é uma sensação indescritível de conexão e amor. Mas, quando voltei à realidade, tinha cagado nas calças. Foi traumatizante – mas bonito ao mesmo tempo”.


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A experiência deixou uma sensação que Willem não conseguia esquecer. Começou a pesquisar as origens do DMT na Internet para entender melhor a sua experiência e aprendeu que até ele – que não tinha estudado química – podia fazer a droga em casa seguindo alguns passos fáceis. “Uma reacção de ácido/base não é tão complicada e havia muitas dicas na Internet para fazer isto na cozinha de casa”, explica.

Por 150 euros, Willem comprou um kit de iniciação para transformar a cozinha num laboratório experimental de drogas. “Fazer aquele primeiro lote foi uma trapalhada”, recorda. E realça: “Acabei com dois gramas de DMT. Senti-me incrível, apesar de não saber se ia realmente funcionar”.

Willem sabia que o certo era testar o produto em si mesmo antes de oferecer aos amigos. “A primeira vez foi muito tensa. Estava em casa de um amigo com a minha namorada da altura. Eles sabiam que eu estava a trabalhar naquilo, mas quando realmente coloquei o meu DMT caseiro em cima da mesa, ficaram em silêncio. Decidi ir para o segundo andar e acender um cachimbo enquanto a minha namorada observava. Não sei porque é que tinha tanta fé em que correria tudo bem, mas correu, eu tinha razão. Foi mágico!”, assegura.

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Alguns frascos com DMT em casa de Willem

Um ano depois, Willem terminou os estudos e tornou-se relojoeiro. Trabalhava num armazém, cinco dias por semana e acabou por conseguir poupar os 1.500 euros que precisava para comprar equipamento profissional de laboratório. Passou fins-de-semana inteiros sozinho em casa, a aprender a cozinhar DMT. “Tirando a droga em si, desenvolvi um amor e fascínio enormes pela química”, garante. E adianta: “Ficava a olhar para o DMT durante horas enquanto ele cristalizava nos frascos de vidro. A química acabou por se transformar em pornografia”, diz entre risos.

O sol estava a começar a pôr-se quando voltámos para a sua caravana. “Quando alguma coisa me fascina, mergulho nisso talvez demasiado fundo”, confessa. Todos os armários estavam cheios de potes de hidróxido de sódio, garrafas de vinagre e grandes frascos cónicos. Havia seringas de medição de plástico por todo lado e pastas cheias de receitas e notas de pesquisa. Enquanto elenca tudo o que costumava ter em casa, Willem ri. “No início era muito descuidado, deixava tudo pelos cantos. Os amigos que me visitavam ficavam meio chocados. Mas, nunca guardei segredo disto e, ao fim e ao cabo, também eles começaram a achar a produção interessante”.

Mesmo assim, ninguém lhe queria comprar o produto. “A resposta inicial decepcionou-me”, admite. E justifica: “Alguns amigos compravam uma dose de vez em quando, mas era só o que conseguia vender. A certa altura, produzi 300 gramas, que se venderiam nas ruas por 27 mil euros. Então, comecei a procurar por compradores maiores”. Willem não revela como encontrou esses compradores, mas garante que foram óptimos para o negócio. “Era diferente dos hippies e psiconautas a quem vendia antes. De repente, estava a falar com homens de negócio a sério – gajos ricos que mantinham a palavra e seguiam contratos. O dinheiro começou a entrar rapidamente".

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Willem foi ficando cada vez mais eficiente na sua pequena cozinha – passou de trabalhar apenas com frascos pequenos de vidro para operar 32 frascos em simultâneo. “Isso significa que acrescentas líquido 160 vezes e sacodes os jarros 3.200 vezes”, calcula em voz alta. E explica: “Nessa atura tornou-se um trabalho a tempo inteiro, deixou de ser um hobby e tive que aceitar que estava a desobedecer seriamente à lei. Foi-me caindo a ficha de que era um criminoso – uma sensação de que até gostava. Quanto mais profissional me tornava, maior era a adrenalina”.

Quando chegámos à caravana, estacionámos na propriedade do seu novo empregador, passámos para o lado mais prático do processo. “Comprava a maioria das coisas numa loja de bricolage”, conta. E recorda: “Da primeira vez, não fizeram perguntas. Mas, quando apareces pela décima vez para comprar cinco garrafas de hidróxido de sódio, querem saber para que é que as estás a usar. Estas coisas são usadas para produzir praticamente todas as drogas sintéticas por aí e também podem ser usadas para fazer bombas. Às vezes, pedem-te para tirar uma fotocópia do teu cartão identidade. O que significava que tinha que ir passando por várias lojas”.

Dentro da caravana, pega nalguns cadernos. “Para mim, já não era uma questão de seguir um método pronto”, sublinha. Através de pesquisa, realizando algumas experiências e anotando tudo, Willem foi melhorando as suas receitas e processos. Começou também a especializar-se numa mistura de fumo com infusão de DMT chamada changa. “Ainda mais rara que DMT!”, gaba-se.

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Uma bandeja de changa (à esquerda) e uma bandeja de DMT (ao centro). Um pequeno tubo de DMT (à direita)

Willem fala agora mais lentamente. “Resíduos químicos são um problema. Atirei os meus resíduos na sanita apenas uma vez, mas senti-me muito mal. Outras vezes, colocava os resíduos em latas e deixava-os numa esquina qualquer. Mas, também não é certo – tornas isto no problema de outra pessoa. Todavia, quando estás do lado errado da lei, não tens outra hipótese”, afirma.

Aos 24 anos, Willem conseguiu compradores suficientemente grandes para largar o seu emprego normal. Em casa, tudo o que fazia era cozinhar DMT. Tinha que trabalhar com as janelas abertas, o que fazia o ar em volta da habitação ter um cheiro constante a benzina. O que o deixava com ainda mais medo que o incenso na casa não fosse suficiente para tapar o cheiro e evitar suspeitas dos vizinhos. Willem foi ficando cada vez mais nervoso com cada pessoa que passava à frente da casa e cada vez menos confortável em ali estar. “Quando trabalhava [com DMT] a tempo inteiro, fiquei muito paranóico”, diz. E salienta: “A falta de sono também não ajudava. Trabalhava semanas seguidas, sem ver os meus amigos”.

O dinheiro já não parecia valer todo o stress. “Achava que o dinheiro me faria feliz, mas há tempos que não me sinto assim. Os gajos com quem trabalhava na época queriam que eu começasse a produzir speed e ecstasy. O plano era mudar-me para uma casa no meio do nada, equipada com um laboratório completo e todos os materiais e substâncias de que precisava. Poderia trabalhar sem ser interrompido e fazer milhares de euros por mês”, recorda.

Faz uma pausa por um momento e engole em seco. “Para mim, isso era ir demasiado longe. Estava cansado. Durante anos, passei muito tempo a cozinhar drogas e a inalar gases químicos, sob o risco de ser apanhado ou incendiar a minha casa. Queria ficar-me pelo o DMT e por este mundo hippie. Quando se produz speed ou cocaína, acabas envolvido com um tipo de pessoas muito diferente”, realça.

Desde o ano passado, Willem tem vindo a dissolver o seu império de drogas. Não revela ainda para quantas pessoas trabalhava, mas diz que o processo de encerrar essas relações tem sido fácil. Mas, será que parou para sempre? “A química vai ser sempre um hobby. No entanto, os dias de fabrico hardcore acabaram”, garante. E conclui: “Acho que tive sorte. Nunca fui apanhado e acabei por poupar um bom dinheiro – mas, para o final, só recuperar a minha liberdade”.

Willem, assegura-me, acabou por encontrar essa liberdade na sua nova carreira na horticultura e está agora a estudar agricultura. Estica as pernas, põe os braços atrás da cabeça e olha para uma lamparina numa mesinha fora da caravana. Despedimos-nos um pouco depois. Willem tem que começar o trabalho no campo às sete da manhã.

*O nome de Willem foi alterado para proteger a sua identidade.


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