Uma história oral do Dominatrix
Foto: Marcos Aragão
Noisey

Uma história oral do Dominatrix

No aniversário de 20 anos do álbum 'Girl Gathering', falamos com as integrantes da primeira formação da banda que é a pedra filosofal do riot grrrl no Brasil.

A cultura punk tem raízes numa agremiação urbana predominantemente masculina, isto é claro. A presença feminina nesse meio sempre foi um lance de resistência, de cavar o seu espaço. No alvorecer do punk nacional, começo dos anos 80, a única banda de destaque formada por mulheres era a Mercenárias. Sandra Coutinho (baixo), Ana Maria Machado (guitarra) e Lou (bateria), influenciadas por Sex Pistols, Siouxie and The Banshees e Joy Division, estiveram na ativa pelos inferninhos paulistanos até meados de 88 quando, já num contexto mais do pop, foram dispensadas pela EMI-Odeon.

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Depois disso elas desencanaram de fazer som e ficou uma lacuna no punk. Até meados dos anos 90, o posto uma vez ocupado por gente como as pioneiras Mercenárias permanecia vago. No auge da tendência hardcore, faltava para uma nova geração de meninas adolescentes algo com o que se identificar. É claro que havia uma ou outra banda e pequenos grupos feministas atuantes no underground. Mas nem a sonoridade nem o discurso do que existia demonstravam força para servir de base a um cenário só das minas. O feminismo hoje é um debate infiltrado na cena. Naqueles tempos, porém, mesmo nos círculos alternativos, a pauta das lutas específicas ainda era pouco levada em conta.

Formado em 1995, o Dominatrix veio suprir tal brecha nesse contexto em que era surpreendentemente incomum ver bandas de HC inteiramente formadas por mulheres fazendo um som daora. Quando elas surgiram, foi impressionante. Elas tinham menos de 18 anos e estavam assumindo a voz de meninas de sua faixa etária sobre problemas e emoções que conheciam muito bem. Junte a isso uma expressiva noção de musicalidade, riffs e beats que traduziam perfeitamente a energia e a rebeldia juvenil, e a identificação foi imediata.

Girl Gathering, o primeiro álbum da primeira banda de minas a trazer para a cena punk brasileira o argumento riot grrrl, completa 20 anos. Com o impacto da obra, o Dominatrix agiu como o elemento aglutinador providencial para juntar as meninas num movimento só delas. Elas foram valentes, nadaram contra a corrente da ignorância trazida pelo machismo, abriram espaço para as minas na frente do palco, exigiram o fim da "dança violenta" em suas apresentações e, ao estimular o empoderamento quando o termo nem era usado, inspiraram o nascimento de inúmeras outras bandas — Bulimia, Hitch Lizard, Same… —, algo que mais tarde tornaria possível a realização de coisas antes impensáveis, como festivais só de conjuntos femininos, tipo o Lady Fest Brasil, e o Girls Rock Camp, exemplo mais atual.

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Toda história contada é só uma parte da história. O que é certo: o Dominatrix apareceu e ajudou a mudar um monte de coisa. Nos depoimentos reunidos aqui, integrantes da formação que gravou o disco-tema desta homenagem e amigos próximos delas na época reconstituem algumas memórias dos primeiros anos da banda.

Nota: Procurada pela VICE, a Elisa Gargiulo [voz, guitarra] não respondeu nossos pedidos de entrevista.

Capítulo 1 – A formação

Isabella Gargiulo (baixista e vocalista): Não vou mentir — muita coisa que conheci foi pela MTV e revistas de música estrangeiras. Ao contrário de muita gente das bandas da época, não crescemos "indo na Galeria [do Rock, no centro de SP]" nem a shows punks. Vim de uma família católica super protetora (sobretudo das meninas), que não deixava a gente sair sozinha e conhecer o mundo nos nossos próprios termos. O resultado foi uma infância e adolescência limitada ao ambiente doméstico, ao rádio, à MTV e revistas como única ligação com o mundo da música lá fora. Mas na época (fim dos anos 1980, começo dos 90), a MTV Brasil era de uma qualidade bastante interessante e experimental, e ampliou bastante os meus horizontes. Nunca vou me esquecer do dia que vi o clip de "Human Behavior" da Björk, aos nove anos, chuviscado por causa de uma conexão UHF malfeita, provavelmente envolvendo papel alumínio. Achei tão surreal, tão estranho, tão maravilhoso. Seria ela uma criança como eu? Aquilo me marcou muito.

Depois veio o L7, nossa porta de entrada para o rock feito por mulheres e para o movimento à favor da legalização do aborto. Foram elas que despertaram em mim a vontade de tocar. Sobre riot grrrl, li pela primeira vez em alguma revista estrangeira ( Spin, Rolling Stone ou NME, não me lembro).

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Estela Homem (baterista): Em 1995, eu fazia aulas de bateria com o Alaor Neves, no Conservatório Souza Lima, e todos os anos eles agrupavam algumas "bandas" para uma apresentação dos alunos. Naquele ano, especificamente, eu caí numa banda com um garoto chamado Diego. O Diego era guitarrista e era amigo das duas irmãs, a Elisa e a Isabella. Ele ficou muito empolgado quando me conheceu, por eu ser menina e tocar bateria (soa um pouco estranho falar assim hoje em dia, pois agora muitas meninas já tocam bateria, mas naquela época as coisas eram bem diferentes!). Então, ele falou para a Elisa e a Isabella sobre mim, e elas vieram me ver tocar. Na mesma hora me contaram sobre a ideia de tocarmos todos juntos: eu, com 16 anos, Elisa, com 15, Isabella, 13, e Diego BIS, 16.

Isabella: Depois de procurar muito tempo por uma baterista (sem sucesso), a Elisa conheceu uma galera do Conservatório Souza Lima e por lá fomos apresentadas à Estela e à Ana Luiza (e ao Diego, que foi o nosso primeiro guitarrista durante uns poucos meses). A Eliane Testoni [que substituiu a Ana na guitarra] nós vimos tocar com o Dog School (provavelmente no Aeroanta) e pedimos para ela entrar na banda.

Ficamos um tempão sem nome. Depois ouvimos a música "Panik", do Bratmobile, que menciona a palavra "dominatrix", e achamos que soava legal, uma palavra que captava a intenção da nossa música e a ideia de poder feminino. No entanto, no contexto daquela música — e da língua inglesa — essa palavra se refere a certas figuras femininas do sadomasoquismo, e nós não sabíamos disso, fomos pelo sentido latim de mulher poderosa, dominadora. Mais tarde, quando descobri o real sentido da palavra, era meio que tarde demais pra mudar — até porque eu achava legal o som da palavra. Aqui nos Estados Unidos, onde moro hoje, quando perguntam o nome da minha banda, sempre riem da resposta.

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Nunca fizemos aula de música. A Elisa sempre foi autodidata, comprava tablaturas de guitarra na banca e aprendeu a tirar música de ouvido desde muito cedo. Eu, durante muitos anos, participei de corais, gostava muito de cantar, e isso influenciou muito a maneira como eu construía as harmonias vocais para as músicas. Acho que a decisão de cantar em inglês partiu muito das nossas influências na época — L7, Hole, punk da Lookout Records, depois Bikini Kill e Bratmobile. Eu, inicialmente, por causa do isolamento, não tinha referência de punk nacional, o que acho que teria resultado em mais vontade de cantar em português. Todas nós estudávamos língua estrangeira.

Estela: Quando eu era novinha, eu era muito ramonera. Eu ainda sou, mas era ridículo! Na época em que a Elisa me conheceu eu estava muito metaleira. É claro que eu ainda ouvia punk rock e hardcore, mas coisas mais antigas. Foram elas que trouxeram um monte de bandas mais novas para eu conhecer. Elas gostavam de hardcore melódico. Eu nunca gostei, mas foi bom conhecer. Conforme fui crescendo, fui me ligando em bandas mais barulhentas, por isso formei o Infect depois. No Dominatrix, acho que posso citar como influência o Tommy e o Marky Ramone e o D.H Peligro, já que eu amava Dead Kennedys (e ainda amo!). No Infect eu já fui mais para o Napalm Death dos dois primeiros discos, com o Mick Harris. Eu também tocava no Butcher's Orchestra e conheci muita garageira com o Marquinho Butcher. Quando você ouve e toca muito barulho, chega um momento em que seus ouvidos ficam saturados. Bom, os meus ficaram! Então voltei a ouvir rockabilly e Beatles, que eu ouvia muito na infância com os meus pais, e mais um monte de outras referências fora do rock. Tudo acaba influenciando, acredito eu. Lembrei de uma coisa curiosa agora, a Isabella, aos 13 anos, ficava lendo e ouvindo música clássica. Precoce.

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Da esquerda para a direita: Estela, Elisa, Isabella e Aninha. Foto: Arquivo pessoal da Estela.

Capítulo 2 – Chegando na cena

Isabella: Acho que as primeiras pessoas do punk/HC de SP que conheci foram os caras do Newspeak, em 95, num festival de música numa escola (acho que minha irmã havia conhecido outras pessoas antes disso, mas eu não). Um pouco depois, quando lançamos o nosso zine Kaostica, a Nessa (que depois formou o TPM) começou uma amizade por correspondência com a gente, e começou a aparecer nos shows pra nos ver quando ninguém ainda aparecia. Não frequentávamos a cena antes de ter banda, por isso o nosso primeiro show (no antigo Victoria Pub) foi o primeiro ao qual eu fui na vida. No mesmo show tocaram o No Class e o No Violence, e foi lá que fiz várias das minhas mais marcantes e duradouras amizades. Foi legal aparecer do nada na cena, sinto que as pessoas ficaram bem interessadas no nosso trabalho meio que de imediato, e era gente vinda de diversos grupos. Nos nossos shows inicialmente tinha straight edge e maconheiro, lado a lado, skatistas, garotas feministas e punks confusos, tudo junto. Eu achava isso extremamente divertido (até mais tarde começarem as brigas). Lembro que fiquei bastante surpresa com a resposta do público, afinal tinha só 14 anos.

Alê Briganti (Pin Ups, Lava): A gente conheceu o Dominatrix porque… Aquela foto da capinha da demo onde eu apareço foi um show no Vitória Pub em que a Elisa convidou o No Violence, e a Silvana Mello era vocalista. Foi assim: a Elisa ligou pra Sil a fim de convidar o No Violence pra tocar com elas e a gente foi. Isso foi em 95. Quando o Girl Gathering saiu eu estava tocando com o Pin Ups ainda, eu saí da banda em 2000. Estávamos fazendo o Bruce Lee, o disco ao vivo. Em 97 o Lava era com a Jan, e já tinha o Kit Kat — éramos eu, a Luana [Lurdes da Luz], Eli, Fernando e Tati, dona do Outs.

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Eu fui no show com a Sil, que é minha melhor amiga, e ela me falou que ia ter uma banda só de meninas chamada Dominatrix. Achamos o nome super divertido, a Elisa era muito nova e convidou, assim, de um jeito super estranho, e a gente achou engraçado, porque elas eram muito novas. Elas eram menor de idade, eu pedi autorização dos pais da Elisa pra ela sair com a gente. A Isabella tinha uns 15 anos, e ela uns 17. Elas era bem metaleiras, elas tinham uma baterista super metaleira, uma guitarrista incrível. A gente achou divertido, aquelas meninas super jovens, com uma baterista metaleira, era uma loucura aquilo. Nos conhecemos e começamos a andar juntas depois disso. Foi aí que elas chamaram a Eliane pra tocar, ela entrou no Dominatrix antes de fazer parte do Pin Ups. Inclusive, quando chamei a Eli pra tocar no Pin Ups, ela estava na DMX e foi meio que uma questão.

Estela: O meu contato com o riot grrrl foi pela Elisa. Ela já pedia os CDs dessas bandas e me mostrava. Achei algumas coisas bem legais, comprei meus discos também, e é claro que foi algo muito positivo para todas. As pessoas que desbravam novos territórios e brigam para serem ouvidas sempre passam por dificuldades, críticas, mas graças a essas pessoas, no caso a essas bandas e mulheres, e alguns homens, que pensam diferente da maioria, muitas garotas começaram a ter autoconfiança e levaram isso para a vida. Muitas formaram bandas, outras apenas ficaram mais conectadas à sua própria força e capacidade, o que já é muita coisa. Sem contar os meninos, que começaram a se dar conta que as meninas não têm que ser sempre passivas ou coadjuvantes na história. Na verdade elas não são! Alguns não gostaram, outros souberam ouvir, cresceram e evoluíram. Acho que o Dominatrix tem que ser o emblema mesmo, é natural que seja, pois a banda foi pioneira na divulgação desses valores. Outras (poucas) bandas femininas já existiam, mas não falavam sobre isso. O Dominatrix abraçou a causa com sinceridade.

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Isabella: Cabe mencionar que na época eu achava, por causa do riot grrrl americano, que no Brasil também havia uma centena de bandas punks de meninas e todo um movimento punk feminista tão robusto quanto o americano. Mal esperava, de dentro do meu quarto, começar a fazer shows e conhecer "todas elas". Fiquei surpresa (e meio decepcionada, não vou mentir) em descobrir que esse não era o caso — as bandas de mulheres eram muito poucas e não havia uma discussão muito difundida sobre feminismo na cena punk. Hoje, quando vejo a quantidade de bandas e o quanto essa conversa evoluiu, fico muito feliz. Era tudo o que eu queria na época.

Estela: Meu envolvimento com o punk nessa época era praticamente nulo. Já frequentava a Galeria do Rock desde 91-92, quando aquilo ainda era um lugar bem feio, mas eu ia lá para comprar discos. Até conversava com uma ou outra pessoa, mas eu era muito ligada na música, mais do que em qualquer outra coisa. Lia revistas e zines, mas ficava bem na minha mesmo.

As músicas da demo Pink Hair Rules eram composições que a Elisa e a Isabella escreveram antes da banda ser formada, então, eu creio que ainda eram muito cruas, apesar de boas. Quanto ao conteúdo das letras na demo, o universo era muito adolescente ainda. Falava-se da escola, das colegas, das bandas que estavam começando a influenciar as meninas, etc. A capa da demo foi impressa em casa e nós pintamos algumas capas à mão, por cima da impressão mesmo. No Girl Gathering nós estávamos com um pouquinho mais de experiência, já tínhamos ensaiado bastante e feito shows por aí. A Elisa começou a se envolver mais com o feminismo — não que ela não se importasse antes, mas foi nesse período que ela começou a conhecer pessoas, interagir com elas e achar a própria voz.

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Isabella: Ninguém conhecia a gente na época. O Nenê estava no nosso primeiro show em que tocou o No Violence, que trouxe toda aquela galera straight edge da época, e acho que se interessou. Começamos a ir nos shows do Forsake, a banda da Jan na época, e fomos ficando amigos.

Pedro Carvalho (guitarrista do Newspeak na época): Nessa altura estavam rolando mais shows delas e eu passei a ir em todos que eu ficava sabendo e procurava arrastar comigo os caras da minha banda. Além disso, elas começaram a fazer um festival de bandas com integrantes mulheres e chamaram uma em que eu tocava na época, o Forsake. Então a amizade foi se solidificando. Me lembro que elas sempre tocavam no Aeroanta com umas bandas meio nada a ver, de rapcore, rock alternativo, sei lá. Eu, idiotinha esnobe que era, achava isso "pouco" para elas e queria que elas começassem a tocar mais no nosso circuito de hardcore "true" (a pretensão do jovem…). Passei então a atormentar os organizadores de show para chamarem elas quando me pediam sugestão de banda.

Um desses shows foi na 8ª DP, uma casa clássica da época ali na Alameda Jaú. Foi histórico, acho que foi a primeira vez que elas tocaram num show 100% para a galera cena hardcore mais ortodoxa da época. Elas já começaram o show dizendo para os caras irem para trás, que a frente era lugar das minas. Me lembro dos elementos menos espertos ali reclamando, se sentindo discriminados, enquanto as minas ficaram realizadas e, as que ainda não conheciam bem o Dominatrix, adotaram a banda naquele momento. Foi um conflito, um divisor de águas.

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Se liga nesse pé aqui no canto da foto. Foto: Arquivo pessoal da Estela

Capítulo 3 – Teenager in a Box

Estela: Nós três juntas levávamos a demo pra Galeria, na esperança de deixá-la com alguém, para ter a banda divulgada, sabe? Numa dessas tardes, passamos na Maze, no terceiro andar, e ficamos conversando com o Nenê, que gostou muito da ideia da banda e pediu para ficar com uma demo para ele e outras para serem vendidas. Tínhamos só cinco com a gente. Não lembro se deixamos as cópias ou não… Tempos depois, coisa de mais ou menos um ano mais para frente, ele veio com a proposta de gravarmos o Girl Gathering pela Teenager in a Box. E foi assim que tudo se desenrolou.

Pedro: Eu frequentava muito a casa do Nenê Altro e da Jan Veneziani, do selo Teenager in a Box, que na época eram um casal. Então, meses depois do meu primeiro encontro com a Isabella e a Elisa, eles vieram falar de uma misteriosa banda de mina que tinha dado uma demo para eles. Eu perguntei quem era, e eles: "Ah, são duas irmãs". Daí pronto, só podiam ser elas. Peguei a fita emprestada, botei para ouvir e fiquei chocado, porque era muito bom. Era uma primeira gravação e acho que a fita não tinha capa. Me lembro de umas músicas iniciais diferentes, que elas não regravaram no CD e que eu não sei se vi ao vivo. Me lembro do som ter um pouco mais daquele punk rock riot simples e direto, e menos do hardcore rápido e das melodias trampadas que vieram logo depois. Ouvi de novo o disco inteiro após muitos anos e confesso que me arrepiei, rolou uma aguinha nos olhos em alguns momentos. Foi a trilha sonora de uma era muito importante e me faz lembrar de pessoas muito importantes e queridas como a Nessa, fã número zero do Dominatrix (eu era o número 1).

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Aninha e Estela, num dos primeiros shows. Foto: Arquivo pessoal

Capítulo 4 – Gravação do Girl Gathering

Isabella: O disco foi gravado pelo Rildo Batista, no estúdio Anonimato, na Santa Cecília. Lembro que fiquei bastante triste porque o Rildo avaliou o meu baixo e recomendou que eu não o usasse nas gravações por estar empenado e não segurar a afinação. Por isso usei o do Fernando Sanches, que tinha um som bem diferente do meu e tive que me adaptar bastante. Na época, o baterista da banda DRI (Rob) era casado com uma amiga da Estela, por isso ele veio em algumas das gravações. Tenho memórias muito boas da gravação do disco porque chamamos muitas amigas para cantar nele, então rolou meio que um clima de festa. Iam aparecendo amigos do nada ao longo do dia. Foi cansativo, mas muito divertido.

Na época do Girl Gathering éramos influenciadas pelo riot grrrl inglês e americano — que nos inspirava tanto musical como politicamente — e movimentos de mulheres brasileiros. Outros que me inspiraram pessoalmente na época foram o movimento pela liberação animal, o zapatismo, a luta pela igualdade LGBTT e as bandas queercore (Tribe 8, Team Dresch, Pansy Division, etc). Acho que tivemos certa influência musical do hardcore straight edge americano também. Eu pessoalmente amava Doughnuts e a banda Ashes. No ano em que saiu o Girl Gathering o Fugazi tocou no Brasil e aquele show foi bem marcante pra mim.

Estela: O Rildo foi muito gente boa. Era paciente e nos explicava as coisas, já que não tínhamos experiência. A gente era muito moleca, criançonas mesmo, dávamos risada de umas coisas tontas e ele ria com a gente, nos entendia, não pesava. Acho que ele nos respeitou e nos ajudou imensamente. Lembro-me de chegar cedo um dia e de ir com a Eliane até um boteco para ela tomar café da manhã. A gente falava bastante da outra banda dela, o Dogschool, porque eu gostava muito. Eu achava a Eli muito talentosa. Bom, a Elisa e a Isabella também são. Apesar dos trancos e barrancos, acho que são todas pessoas especiais e corajosas por terem se aventurado e conseguido muita coisa, que antes, as meninas sequer sonhavam alcançar.

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Alê: Elas fizeram a música "No Make Up Tips" pra mim. Porque eu tinha um fanzine que dava dicas de maquiagem. A Eliane ficou super revoltada, esse foi um dos motivos pelos quais ela saiu da banda. Uma coisa muito infantil, sabe? Foi uma bobagem errada. Era uma revista feminina em fanzine. O riot grrrl pra mim ia muito além de simplesmente falar que é feminista e ser sapatão, não tinha a ver com isso. Até porque as minhas grandes inspiradoras são feministas, mas também são divertidas, tem uma coisa da cultura feminina. Elas são feministas e femininas. Tudo bem também a outra vertente, entendeu? As dykes, as boots, tudo bem todo mundo. O zine se chamava Cantinho das Felinas, que basicamente falava de música, maquiagem, comida, um mix de Claudia e Capricho punk. Tipo uma Seventeen punk. Eu me diverti horrores fazendo aquilo, sempre com umas coisas vegetarianas e uma linguagem bem engraçada. Acho que a Elisa se confundiu ali e fez essa música. Eu achei super engraçado na época, não estava nem aí.

Carolina Pfister (No Class): Quanto à introdução da faixa "No Make Up Tips", que eu canto no Girl Gathering, o meu zine na época era o Água, algo meio político existencial, mas haviam outros zines discutindo feminilidade nesse espaço, e OK, né? Mas a reação da Elisa e Isabela na época era de não querer essa discussão de maquiagem e afins no espaço que deveria ser livre desses parâmetros. Então imagino que por isso me chamaram para a introdução. Me lembro de não querer magoar ninguém, mas era tudo meio impetuoso.

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Dominatrix no Alternative da Penha, SP. Ao microfone, Carolina canta a intro de "No Make Up Tips". Foto: Marcos Aragão.

Capítulo 5 – Repercussão

Cézar Carpanez (Highlight Sounds): Como o Dance of Days na época era um projeto do Nenê e ele estava começando com a Teenager In a Box pra lançar os discos da banda, eu acompanhei os primeiros passos do selo de perto. O Dominatrix foi a segunda banda a sair pela TIB e a primeira vez que eu ouvi o som delas foi quando vi os CDs naquele formato de envelope que a TIB lançava. Fiquei impressionado com a musicalidade delas. Me lembro que naquela época existia uma certa rixa entre melódicos e straight edges, que gostavam de um tipo de som mais puxado pro HC de Nova York. Eu gostava mais de bandas californianas melódicas e, apesar de não ter nada a ver com essas bandas, o Dominatrix me impressionou pelas músicas e melodias. Até então, as bandas punks americanas que eu conhecia formadas só por mulheres tinham um som um mais áspero, gritado, e, de certa forma, difícil de digerir musicalmente. O lance delas parecia estar direcionado mais à mensagem do que à musicalidade. O Dominatrix me chamou muito atenção justamente pelo fato delas apresentarem músicas mais melódicas, bem tocadas e, mesmo assim, com mensagens diretas sobre feminismo. O fato da Elisa tocar guitarra e cantar aquelas melodias ao mesmo tempo também me impressionou muito.

Quando o Dance of Days começou a fazer shows eu tinha acabado de ser expulso do Againe, banda da qual eu era baixista. Esse sempre fora meu instrumento até então. No Dance of Days eu estava aprendendo a tocar guitarra e, na verdade, ainda usava a guitarra como um baixo, muitas vezes tocando cada corda independente e sem fazer acordes. Quando vi a Elisa tocando e cantando ao mesmo tempo ao vivo, eu falei pra mim mesmo: "Cara, ou você desencana da guitarra, ou volta pro baixo! Olha essa mina tocando hahaha."

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Jan Veneziani (Teenager in a Box): Depois que descobrimos a banda fizemos tudo bem rápido e vendíamos muito barato os CDs nos shows, equivaleria a cinco reais hoje. Divulgou muito, e a resposta foi muito legal, porque elas faziam zine, e começaram a usar o termo riot grrrl aqui. Algumas pessoas já conheciam Spitboy, que tinha um pouquinho daquela estética. Mas a DMX foi a primeira banda a juntar a ideia do Spitboy com Bikini Kill, Hole, mulheres protagonistas que já estavam vindo dessa época do grunge. E começamos a ter notícia disso.

A DMX foi a colinha que juntou a galera, sabe? Isso começou a mudar as atitudes nos shows, quando elas tocavam, pediam pra todas as meninas irem pra perto do palco, pra não ficarem apanhando. Elas vieram com um discurso bem diferente do que estávamos acostumados, que era aquele hardcore macho, agressivo. Essa foi a época da transformação, da coisa virar um pouco pro lado da menina mesmo. Elas foram responsáveis por essa mudança.

Isabella: Quando o álbum esgotou a prensagem tão rápido, eu fiquei absolutamente abismada, pra falar a verdade. Lembro de ter passado horas e horas dobrando os encartes e colocado cada CD no envelope nas brechas da escola. Na época que saiu o Girl Gathering eu estava no 1º colegial e não soube lidar com o interesse repentino que as pessoas tinham na banda; recebia cartas de lugares distantes, de pessoas decepcionadas que queriam o CD e já não tinha, e eu não sabia o que fazer, recebia um monte de cartas que não respondia. Depois de uns anos percebi que não eu tinha lá um bom relacionamento com as pessoas que gostavam da banda — parte disso era da idade mesmo. Internet teria ajudado muito na época, pensando bem…

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Jan: Os shows começaram a lotar de minas, e essas, por sua vez, atraíam mais minas para os shows seguintes. Chegou uma hora em que os caras realmente saíam da frente do palco nos shows do Dominatrix e as meninas chegavam perto. Isso acho que foi a parte mais legal, o que realmente mudou. Acabou virando uma coisa nova que muitos meninos gostavam, respeitavam, e começaram a ter outra visão das meninas nas bandas. Foi um grande incentivo para que várias meninas começassem a tocar bateria, porque não tinha. Era sempre a mina no baixo, front woman pra ficar lá mostrando as pernas, entendeu? De repente apareceram as minas de bermuda, tênis, andando de skate, com os cabelos desgrenhados: "Eu vou do jeito que eu quiser."

Capítulo 6 – Machismo

Isabella: O machismo na cena punk/HC era imediato e gritante. Desde as primeiras reviews da nossa demo nos zines, dizendo que tocávamos "tão bem quanto os caras", passando por objetificação sexual em shows, paternalismo nas relações da banda com organizadores de shows e outras bandas de homens, homofóbicos violentos, até caras aparecendo em shows furiosos com o nosso "machismo ao contrário" (presumidamente porque, de repente, as namoradas ficaram mais desobedientes). Ficou bem evidente pra mim que a cena punk era bem mais machista do que eu pensava, com tamanha quantidade de punks criticando o feminismo. Muito omi na época tentou me "ensinar" que o que eu "queria" mesmo era ser anarquista, e não feminista. [risos]

Carolina: Até então havia uma certa complacência na cena com as dinâmicas de gênero, e com a falta de representação feminina no palco. Não havia um movimento coeso que articulasse esses problemas, ou que celebrasse uma irmandade entre meninas escolhendo suas próprias narrativas, desafiando os parâmetros arbitrários de uma cultura machista. E, claro, crescer mulher no Brasil é se definir em relação a, ou em oposição aos rígidos padrões de beleza. Mas enfim, quando o Dominatrix chegou a coisa explodiu. E foi lindo e foi feio e ficou todo mundo feito barata tonta tentando se encontrar nos escombros. De repente os shows foram tomados pelos corpos suados de meninas nos espaços que até então eram masculinos, lá na frente do palco, espremidas, celebrando. Foi bom demais.

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Alê: A minha geração tinha muito pouca mulher tocando, e em geral, nos shows, no rolê… Tanto que a gente é amiga até hoje né, quem foi daquela época, highlander, anda junto até hoje. E aí apareceram essas meninas e ampliou bastante. Já estava aparecendo uma geração de minas na cena e ao mesmo tempo elas apareceram fazendo com que aquilo crescesse. Até por elas serem jovens e ter muitas meninas jovens se identificando com o que elas estavam dizendo, logicamente isso faz crescer. É assim que funciona, né. Você vê uma mina tocando e fala: "Também quero tocar."

Isabella: Percebemos que estávamos no caminho certo quando isso tudo começou a acontecer. As meninas da cena se empoderavam cada vez mais e testemunhar tamanha mudança foi incrível! Muitas amigas e amigos, muitas festas com gente legal, muita troca de zines e fitas, e muita sonoridade entre as meninas. Foi incrível ter mulheres que eu admirava tanto cantando nas faixas do meu disco.

Acho que o episódio mais marcante, que acabou aparecendo numa letra do disco, foi uma certa vez no bar 8ª DP, num show nosso em que a zoeira havia chegado num nível absurdo e muitas meninas estavam se machucando. Acabamos pedindo para que todas as meninas viessem para a frente. Nisso, um certo sujeito começou a gritar nos acusando de fascismo: "Ficam separando as mina dos cara!" Ele ficou chateado! hahaha Outro episódio foi quando estávamos tocando no American Graffitti e uns caras estavam no mezanino acima do palco dando "notas" em cartazes para cada música que tocávamos. Ambos os episódios se tornaram parte da letra de "My New Gun". Outras letras, como "Pot Chicks" e "Big Sobber Jelly", foram inspiradas em episódios da nossa vida diária em escola católica. Na época que escrevemos as músicas do disco eu estava na 8ª série e, minha irmã, no colegial.

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Marcos Aragão (fotógrafo de punk): Teve um show delas no Alternative Bar, da Penha, onde o público foi bastante hostil, mas pra cada agressão verbal, do palco vinha um resposta à altura, e eu estava sentado ali perto da bateria, fotografando, e só pensava: "Uau". Também presenciei uma cena que, talvez, pudesse ter mudado a cena naquela época pra uma coisa muito melhor, mas infelizmente não foi assim. Num festival hardcore, tocava uma banda e, naquela época, a galera achava que era legal dançar de modo violento. Em dado momento as meninas que estavam ali, incluso algumas das Dominatrix, se deram as mãos e abriram uma roda no meio da pista. O show parou. Começou um debate que durou alguns minutos. O que se iniciou como uma proposta de mudança, de igualdade, de estar juntos, homens e mulheres, foi esmagado pela ignorância daqueles machos, que em vez de perceberem que aquela era uma oportunidade para recriar uma cena completamente diferente e REALMENTE igualitária, preferiram agredir as meninas que estavam fazendo o círculo, com aquela dança ridícula deles, enterrando de vez qualquer chance de transformar aquela cena em um lugar melhor. A minha esperança no hardcore como comunidade morreu naquele dia.

Jan: Elas tinham muita coragem. Lembro que nos shows nas Verduradas elas interrompiam bastante as apresentações. E isso dava umas brigas, discussões. Os caras entravam fazendo slam dancing em cima das meninas, elas paravam. Foi a primeira vez que alguém chegou pros caras e falou assim: "Meu público não é você, é a sua namorada." E isso era muito ofensivo pra um sujeito que estava acostumado encarar a mina como porta-mochila no show, mas se ela resolvia tocar guitarra, não aceitava. Por isso que a gente gostava tanto daquela música do Bulimia que dizia "Punk rock não é só pro seu namorado." Os caras não assumiam que eram caretas nesse ponto. Rolavam muitas ideias veladas que eles não admitiam que eram escrotas, por conta de uma aceitação de grupo. Havia muitas ideias conservadoras que a galera não queria abrir mão, com medo da perda da identidade. Acho que o hardcore sofreu nesse sentido, de ser questionado.

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Pedro: As pessoas não tinham ideia do que era feminismo na época, a palavra era muito mal vista, por praticamente todo mundo, mesmo no underground. Teve um show no Tendal da Lapa em que uns punks mais severos, naquele estilo faquinha, tradicional de São Paulo, ficaram gritando um monte de merda, dizendo que "feminismo era machismo ao contrário", que elas queriam mandar nos homens e isso não era anarquia, umas coisas incrivelmente cretinas.

Capítulo 7 – Fim do primeiro ato

Estela: Eu saí da banda porque estava me sentindo mal e engasgada com algumas coisas que aconteceram ao longo do nosso caminho. Primeiro, antes da primeira demo, a Elisa quis tirar o Diego da banda, por ele ser menino, o que eu achei muito radicalismo e injusto com ele. Ela dizia que, com um homem na banda, as pessoas pensariam que ele fazia tudo, como escrever as músicas, e não dariam o devido valor a nós, garotas. Eu até entendi o ponto de vista dela, mas não curti, pois o Diego não é, nem nunca foi, uma pessoa escrota, nunca foi machista, muito pelo contrário, ele era nosso brother. Mas para dizer a verdade, ele parece não ter ligado muito na época e continuou a nos apoiar, indo aos shows, como um grande amigo, que ele sempre foi. O problema foi meu mesmo. Eu que não curti. Depois teve a Aninha, guitarrista, que tocou um tempão com a gente antes do Girl Gathering. Rolou algum problema da Elisa com ela e ela também foi tirada da banda. Como eu não entendi o que aconteceu, também fiquei de bode com a situação e, nessa mesma época, comecei a perceber que a banda não era "nossa", e sim da Elisa.

Bom, depois teve a Eliane e a Elisa esteve em "lua de mel" com ela por um tempo, até o dia em que a Eliane começou a incomodar também. Mas no mesmo período, a Eli foi convidada a entrar no Pin Ups e aceitou. Eu me lembro que a Eli me ligou para contar e eu fiquei muito feliz por ela. Para dizer a verdade, acho que a Eli não fez muito no Dominatrix. Havia limitações, como falei. Ela conseguiu brilhar mais e ter sua voz ouvida nas outras bandas que teve posteriormente. Até que, um dia, chegou a minha vez: eu já tinha planos de ir morar na Inglaterra, mas, ao mesmo tempo, estava incomodando demais. Saí da banda por mim mesma, mas fiquei sabendo que, umas duas semanas antes da minha saída, elas já estavam ensaiando com a Débora [Biana, que gravou o álbum seguinte, Self Delight]. Eu saí, mas elas já iam me tirar! [risos]

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Carolina: No segundo CD do Dominatrix tem uma foto de mim e da Elisa andando por Campinas. É retrato perfeito da época para mim, com nossas bermudonas, e um certo desdém pelo que pensassem de nós. Às vezes, crescer é assim, atirando para todo lado, se definindo em público que nem a Elisa fez. As lindas melodias das irmãs Gargiulo provocaram uma geração na direção certa, e o Girl Gathering foi o começo. A Elisa e Isabela eram muito queridas, as irmãs que nunca tive. Eu queria proteger essas meninas corajosas fazendo o trabalho necessário de abrir mentes. Fui caçar os CDs para relembrar e achei um bilhetinho da Elisa escrito à mão no encarte do Girl Gathering: "(…) Eu queria dizer que você é muito importante para o DMX, e para mim, porque você foi a primeira menina que tratou a gente que nem gente e não como criança, e isso conta muito para mim."

Pedro: Nunca ouvi nada do Dominatrix que não fosse muito bom. Mas é claro que, para mim, a fase mais relevante é essa inicial. Em primeiro lugar, porque eu acompanhei muito de perto e era tudo muito novo e diferente. Mas tudo que rolou com as duas irmãs na banda mora no meu coração. Tem um tipo de harmonia vocal que só rola com irmão, vide Beach Boys, Everly Brothers, Bee Gees, Ronettes, Shangri Las… A Elisa e a Isabella, para mim, são as Everly Sisters. Eu ouço aquelas harmonias e me arrepio na hora, volto imediatamente aos 17 anos.

"Three things you should learn: Riot Grrrl will never die. Every girl is a riot grrrl. Stop boy's violence!" ('Patriarchal Laws', DMX).

Veja outras fotos históricas do Dominatrix:

Arquivo Estela.

Arquivo Estela.

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