Uma investigação sobre o uso de Photoshop nas orelhas de Kim Jong-un
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Mistérios da Humanidade

Uma investigação sobre o uso de Photoshop nas orelhas de Kim Jong-un

Software forense revela que o ditador norte-coreano tem fotos editadas para ficar um bocadinho mais bonito do que na vida real.
27 June 2017, 2:53pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

O Photoshop é uma peça essencial na engrenagem da máquina de propaganada norte-coreana. A ditadura local, liderada por Kim Jong-un, esforça-se bastante para que acreditemos em coisas que não são reais. Falamos de mísseis balísticos submarinos, barco aéreos e até mesmo cidadãos bem nutridos e felizes. Tudo produtos de edições digitais não muito elaboradas.

Entre o rol de alterações da realidade, seguramente que as edições mais bizarras são as constantes manipulações das orelhas de Kim Jong-un. Nunca tinha parado para pensar nisso até que Dave Schmerler, analista do Centro Martin James de Estudos de Não-Proliferação, nos Estados Unidos da América, publicou no Twitter uma foto da orelha esquerda de Kim. Há ali uma lesão, ou algo do género, certamente, mas falaremos disso depois.

Jeffrey Lewis, director do Programa de Não-Proliferação do Leste Asiático no Instituto Middlebury de Estudos Internacionais, em Monterey, comentou que a Coreia do Norte tem esse hábito de editar as orelhas de Kim em fotos. Fiquei intrigadíssima.

Tanto Schmerler como Lewis foram suficientemente gentis para aguentarem a minha recém adquirida obsessão com as orelhas de Kim. Teriam exemplos para mostrar? Como se pode ter a certeza de que foram mesmo manipuladas? O que é que a Coreia do Norte quer esconder?

"Ao longo dos últimos anos temos percebido que, muitas vezes, as orelhas de Kim Jong-un demonstram sinais de alteração, bem como outros aspectos da sua aparência. Acreditamos que se tratam de alterações cosméticas – pequenas mudanças para que ele fique um bocadinho mais bonito que na vida real, coisas que, por exemplo, um fotógrafo de casamentos faria. Pelos vistos ele não gosta das suas orelhas", explica Lewis por e-mail.

Através de um software forense chamado "Tungstène", os investigadores podem identificar alterações digitais ("artefactos matemáticos no arquivo de imagem", refere Lewis) nas fotos norte-coreanas. O Tungstène conta com uma série de filtros para revelar anomalias em imagens aparentemente intocadas. Um deles permite que os analistas mapeiem ruídos de crominância, também conhecidos como flutuação de cor, muito úteis na busca por retoques. Outros filtros mostram pixels clonados, compressões ou nitidez. Em alguns casos, os especialistas podem até determinar se as fotos foram abertas e salvas no Photoshop.

No curioso caso das orelhas de Kim, o ruído em torno do seu rosto, que mostra "muitos vermelhos", não combina com o resto do corpo. Estas imagens abaixo, partilhadas por Schmerler e Lewis, servem de exemplo para como a aparência de Kim no geral, não só as suas orelhas, é habitualmente alterada. O homem ao seu lado, por exemplo, demonstra menos ruído e não foi retocado.

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Imagem filtrada no Tungstène. Crédito Dave Schmerler/Jeffrey Lewis

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Imagem filtrada no Tungstène. Crédito: Dave Schmerler/Jeffrey Lewis

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Imagem filtrada no Tungstène. Crédito: Dave Schmerler/Jeffrey Lewis

Vale a pena realçar que os filtros do Tungstène devem ser usados em conjunto. Lewis deixa-me isso bem claro e comenta que materiais brilhantes numa imagem, tais como vidro, emitirão maior ruído e devem ser interpretados assim.

O método mais preciso seria processar as imagens com todos os filtros em busca de uma confirmação cruzada. "A isso chamamos 'convergência de filtro'; não tires conclusões com base num único filtro, procura sempre resultados convergentes", alerta-me através de e-mail, Roger Cozien, engenheiro responsável pela criação do Tungstène em 2009 para o Ministério da Defesa francês.

Mesmo sem o software forense, é clara a alteração nas orelhas de Kim. Numa foto mal trabalhada, podemos ver a silhueta da orelha original, reduzida e remodelada (repara no chapéu do homem atrás dele).

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Também fiquei curiosa a respeito da lesão na orelha, mencionada no post de Schmerler. Aos meus olhos nada treinados, parecia uma borbulha que foi espremida. Para minha felicidade, vários dermatologistas deram-me as suas opiniões especializadas.

Uma das possibilidades é a de molluscum contagiosum, "uma infecção viral da pele, altamente contagiosa, ainda que não perigosa", diz Adam Friedman, professor de dermatologia da Faculdade George Washington de Medicina e Ciências da Saúde, nos EUA. "As duas possibilidades mais convincentes para mim seriam a de fístula congénita, ou um cisto enraizado na pele. Ambos os diagnósticos explicariam a sua não-remoção, já que a cirurgia deixaria uma cicatriz visível e talvez ele prefira manter ali uma bolinha qualquer em vez de uma grande cicatriz", comenta por sua vez, Rany Jazayerli, dermatologista de Chicago.

Ambos os especialistas concordaram que tais problemas poderiam ser facilmente tratados. Por mais que o sistema de saúde norte-coreano esteja desfasado e dependa de doações da Rússia e China, Kim provavelmente tem uma equipa médica própria qualificada.

As orelhas de Kim continuarão a ser um mistério, mas foi interessante parar para pensar nelas. Afinal de contas, a Coreia do Norte tem um longo historial no que respeita a esconder os males dos seus líderes. O tumor do tamanho de uma bola de basebol no pescoço de Kim Il-sung quase nunca foi visto e especialistas trabalharam arduamente para encontrar evidências do derrame de Kim Jong-il.

"No caso de Kim e das suas orelhas, o que chamou a nossa atenção não foi uma única foto, mas todas", diz Lewis. E conclui: "As fotos das suas orelhas nem sempre mostram sinais de alteração, mas foi o bastante para que ficássemos de olho no caso".