Aquelas coisas que fazes quando és um turista de férias
Todas as fotos por Laurence Stephens.
Viagem

Aquelas coisas que fazes quando és um turista de férias

Falámos com Laurence Stephens sobre o seu novo livro, "Bored Tourists", cujas imagens foram captadas maioritariamente em Espanha e Portugal.
3.8.18

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

"Com telefones com câmara nos bolsos, Instagram, Facebook e milhares de blogues de viagens à distância de um clique, nunca antes tivemos um desejo tão insaciável de gravarmos as nossas férias", diz Laurence Stephens, o fotógrafo documental por detrás do novo livro de fotografia, Bored Tourists, que resulta de várias épocas que passou em Espanha e Portugal. E acrescenta: "Contudo, os leitores deste trabalho podem agora começar a questionar o quão valorosas estas experiências realmente são".

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Nesta era do Instagram, muitos de nós sentimo-nos forçados a projectar nas redes sociais a versão mais cool das nossas experiências, para que as pessoas possam obcecar sobre o quanto gostariam de ter as nossas vidas. Este é um fenómeno exclusivo à nossa idade - mergulho no momento ou isso fica para segundo plano enquanto amuo?

"Tourists taking selfies", Park Güell, Barcelona, Setembro 2017

Stephens diz que os juízos que fazemos sobre a vida uns dos outros podem, "muitas vezes, fazer-nos sentir desapontados com a nossa própria" e leva-nos a "construir memórias mais e mais elogiosas para partilhar online, para criar a ilusão de que estamos a divertir-nos mais do que na realidade estamos".

Junta-se isso o facto de termos, hoje em dia, um stream constante de entretenimento que nos atrai e afasta das nossas experiências da "vida real" e que acaba por inibir a nossa capacidade de sermos curiosos.

Encontrei-me com ele no Diddy's, um café colorido num bairro de Londres, para que me explicasse o porquê da sua escolha e busca por turistas aborrecidos e "não muito discretos" e comentasse algumas das imagens presentes no livro.

"Man photographs bricks", Via Laietana, Barcelona, Julho 2016

"Isto é o que quero dizer quando falo sobre as pessoas tirarem fotografias para as quais não têm utilidade", explica Stephens. E justifica: "Porque é que alguém haveria de fotografar tijolos? Qual é a probabilidade de alguma vez precisarem dessa fotografia? Uma grande parte dos turistas investe dinheiro considerável em equipamento, como câmaras DSRL com boas lentes de zoom e eu dava por mim, muitas vezes, a pensar no que é que aconteceria às milhares de imagens replicadas que as pessoas fotografam dia após dia em sítios turísticos".

"Woman looks through fence", Bioparc, Valência, Agosto 2016

"O jardim zoológico foi difícil de fotografar, principalmente devido ao facto de não ser permitido", explica Stephens. E acrescenta: "Por isso andei por ali com a minha máquina debaixo do braço e com um olho atento às câmaras de vigilância e aos seguranças e o outro em busca de pessoas a fazer coisas de que não se está à espera".

"Man looks at hedge", Alhambra, Granada, Agosto 2016

"Esta é uma das minha preferidas", diz Stephens. E sublinha: "Foi uma situação em que me deparei com uma localização com potencial para uma boa fotografia e fiquei por ali algum tempo. De vez em quando alguém aparecia e começava a interagir com o arbusto; mexiam nas folhas, arrancavam-nas".

"Tirei algumas boas fotografias, mas, depois, este homem aparece e debruça-se sobre as folhas, a observá-las, e isso foi um comportamento fora do normal numa situação muito normal", acrescenta.

"Man looks down hole", Park Güell, Barcelona, Julho 2016

"Isto só captei, porque estava intensamente focado em tudo o que estava a acontecer à minha volta," conta Stephens enquanto bebe uma cerveja. E explica: "Trabalhar desta forma é, para mim, quase meditação, no sentido em que andas às voltas durante horas, constantemente a prestar atenção ao que te rodeia, com a única intenção de captar algo fora do normal".

"Tourist asleep on abandoned mattress", Carrer de Fontanella, Barcelona, Setembro 2017

"Vi o homem no outro lado da rua e corri para lhe tirar a fotografia, não fosse ele decidir sair dali", diz Stephens. E adianta: "Depois, esperei uns 15 minutos, convencido de que ele estaria a posar para alguém, mas acabei por aceitar que estava, de facto, a dormir. Deixei-o estar".

"Quanto ao tema dos 'turistas aborrecidos', esta imagem em particular vai ainda mais além daquilo que, à partida, podia ter imaginado. Um turista de óculos de sol de lente dupla e uma mala cor-de-rosa choque a dormir num colchão no meio da rua - é difícil convencer as pessoas de que não foi encenado, mas foi mesmo uma situação com a qual me deparei por acaso", assegura.


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