Politică

O que imigrantes latino-americanos pensam sobre as eleições no Brasil

Pessoas da Bolívia, Peru, Chile e Cuba relatam como é viver no país em tempos de polarização, ameaças e brigas políticas.
25.10.18
imigrante boliviana
No Brasil desde 2007, a boliviana Jobana Moya vê a eleição de 2018 como um tempo de desinformação e zero senso crítico. Foto: Reprodução

Não é só o Brasil que passa por eleições presidenciais tensas em 2018. Sete países da América Latina também estão decidindo os rumos democráticos neste ano e pelo menos três deles já aderiram à onda conservadora.

No Peru, no Paraguai e na Colômbia, as eleições de, respectivamente, Martín Vizcarra, Mario Abdo Benítez e Iván Duque mostraram que as nações vizinhas do Brasil deram uma guinada à direita. Por outro lado, na América Central, a Costa Rica e o México escolheram botar no poder os candidatos progressistas Carlos Alvarado e López Obrador. Cuba, por sua vez, elegeu por processo indireto o presidente Miguel Díaz-Canel, do Partido Comunista de Cuba. Em dezembro será a vez dos venezuelanos irem às urnas e decidirem o futuro do país.

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No meio desse cenário dividido, a eleição brasileira é vista como definidora do mapa político da América Latina em 2018. Além de ser dono da maior economia do continente, o país é também reduto de imigrantes da região e pode, a depender do resultado presidencial, ocasionar duras consequências geopolíticas na região a partir de 2019.

Os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), afinal, possuem visões distintas, quase opostas, sobre a chegada de estrangeiros em território nacional. Enquanto o primeiro (e provável vencedor) chama haitianos de "escória do mundo" e cogita criar campos de refugiados para venezuelanos, o segundo fala em acolhimento e integração.

E como os imigrantes que vivem aqui no Brasil se sentem em relação à polarização e ao clima bélico que tomou conta dessas eleições? Temem a eleição de Bolsonaro? Acreditam que as coisas podem melhorar? Fomos atrás de representantes latino-americanos que moram no Brasil para responder essas e outras dúvidas.

Cubano e engenheiro nuclear, Javier González Mantecón / Arquivo pessoal

O engenheiro nuclear Javier González Mantecón, de Cuba. Foto: Arquivo pessoal

Javier González Mantecón, Cuba
Engenheiro nuclear

VICE: Há quanto tempo está no Brasil?
Javier: Estou no Brasil há 4 anos. Estava procurando mestrado e doutorado fora de Cuba, a oportunidade apareceu no Brasil.

Tem acompanhado o cenário político de Cuba? E do Brasil?
Acompanho o que acontece no meu país, mas não participei das eleições. Acho que aqui no Brasil a situação está ficando bem complicada, algumas questões estão saindo de controle. Por exemplo, pessoas agredindo outras por conta da política.

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E sobre as eleições no Brasil?
Pra dizer verdade, acho que não vai acontecer nada novo no Brasil. Quem quer que seja o presidente, vai fazer a mesma coisa: roubar e roubar. É normal, político fala, mas não faz nada pelo povo.

Quais paralelos entre Brasil e Cuba?
Primeira coisa: nem todo cubano é comunista (risos) .Eu acho que não há paralelos. No meu país não acontecem as eleições como aqui. Lá é bem diferente e você não vota direito pelo presidente, é um mecanismo que eu não entendo nem quero entender. Acho que o Brasil com um bom governo pode ser desenvolvido pois tem tudo para isso

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A ativista boliviana Jobana Moya. Foto: Arquivo pessoal

Jobana Moya, Bolívia, Ativista.

VICE: Qual sua análise sobre a situação política do seu país de origem? Jobana: Bolívia tem uma política econômica segura, sendo o país na América do Sul com o melhor comportamento econômico. O presidente indígena Evo Morales ainda tem um nível de aprovação próximo a 60% de apoio na população. Acredito que a situação política no momento esteja estável, ainda que tenha uma porção da população insatisfeita com o governo.

Como analisa a política do Brasil com base no tempo que está aqui?
Moro aqui desde 2007. Observo uma mudança de políticas e governos progressistas, com acertos e erros, para uma situação de um golpe brando. O judiciário sendo parcial e atuando muitas vezes em situações que não são de sua alçada.

Há paralelos entre Brasil e Bolívia de acordo com sua leitura? Acredito que neste momento na Bolívia se faz uma campanha nas redes sociais similar com a campanha que se fez contra a ex-presidenta Dilma para gerar instabilidade, muitas notícias falsas para criar um ódio irracional. A diferença é que a Bolívia é que as bases dos movimentos sociais estão mais organizadas e articuladas e isso dá um certo equilíbrio.

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Com relação às eleições 2018 no Brasil, como você analisa o contexto atual? Está tudo muito polarizado. Pessoas apoiando discursos fascista nas redes sociais e sendo violentas nas ruas com quem não tem sua mesma visão; aumento da xenofobia, discriminação e racismo. Observo muita desinformação entre as pessoas, muitas notícias falsas sendo espalhadas e zero senso crítico.

Alejandro Marroquin, México / Arquivo pessoal

O professor e lutador de MMA Alejandro Marroquin, do México. Foto: Arquivo pessoal

Alejandro Marroquin, México
Lutador de MMA e professor

VICE: O que motivou sua vinda para o Brasil?
Alejandro: Sou do México e vivo no Brasil há 9 meses. O motivo da minha vida foi por causa do desejo de lutar no Brasil

Está acompanhado o cenário político de seu país de origem? Participou das eleições?
Não participei das eleições. Minha vida atual é luta, aula e ser personal físico. Não possuo conta bancária aqui. O dinheiro que recebo é em espécie. Não estou constituído.

Como analisa o cenário político atual do Brasil?
Acho que aqui tem muito desentendimentos na política. Acho que não é certo obrigar alguém a votar. Vejo muito paralelos culturais, mas em outras situações são diferentes, como, por exemplo, abrir um negócio. Fazer uma microempresa é mais complicado aqui no Brasil.

Considerando o resultado das eleições, quais suas perspectivas para o futuro do Brasil?
Economicamente, acho que o futuro do Brasil será bom. Com a vitória de Bolsonaro acredito que vai melhorar. Para imigrantes acho que não vai melhorar muito, mas acho certo. Tenho visto muita gente na fronteira do Paraguai passando sem problema nenhum.

Socióloga chilena, Oriana Jara / Arquivo pessoal

A socióloga chilena Oriana Jara. Foto: Arquivo pessoal

Oriana Jara, Chile
Socióloga

VICE: Há quanto tempo está no Brasil?
Oriana: Cheguei em 1999, ou seja, há 21 anos.

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Participou ou acompanhou as eleições no Chile?
Sim, participei e votei em São Paulo. Acompanhei diretamente pela internet e no Brasil por meio dos comités e com informação direta dos diferentes núcleo políticos do Chile.

Qual sua análise sobre a situação política do seu país de origem?
Uma virada à direita na última eleição, realizada em forma ordeira, dentro da institucionalidade e respeito aos direitos cidadãos e democráticos. Não ganhou quem eu escolhi, porém foi a voz das urnas. Nesta escolha implica um viés a direita, política econômica similar a Bachelet, menos ênfase em projetos sociais e mais foco em inversão e atrair capital estrangeiro.

Sobre o Brasil, com base no tempo que está no país, como analisa o contexto político?
Tenho 70 anos, morei em diversos lugares no mundo e nunca vi uma polarização, tanto descaso e irracionalidade deste nível. Estou com uma profunda preocupação. Fala-se sem conhecimento, informação e acreditando em memes e fake news. Tudo isso só alienam a consciência do eleitor, que já não é mais isso: é seguidor. Coisificaram a consciência do cidadão.

O que está achando do clima das eleições presidenciáveis 2018 no Brasil?
O retrocesso já se deu! Estamos numa ditadura da sem razão, com armas simbólicas de exclusão e de não respeito a regras democráticas, paralisados pela surpresa e pelo medo. Se confunde verdade com insolência, ser direto com grosseria. Porém somos todos responsáveis, por omissão, ação ou paralisação.

E sobre uma possível eleição de Jair Bolsonaro?
A simples possibilidades de ser Bolsonaro presidente é um risco. O Brasil ainda vive os vestígios da mentalidade escravocrata, da ditadura e há quem seja favorável à tortura. Gente, isso é crime! No pior dos casos, estamos entre partidários do roubo e outros do assassinato. E eu prefiro ficar viva.

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