Festa na sede da Mangueira, em setembro de 2018.
Festa na sede da Mangueira, em 2018. Foto via Facebook
Noisey

No Carnaval de 2019, a Mangueira fala da história que a História não conta

O samba-enredo da escola carioca reverencia as “Marias, Mahins, Marielles, malês”, verdadeiros símbolos da luta brasileira.

A arte não é — e nem pretende ser — a forma mais efetiva de resistência, mas talvez seja a que converse com mais gente. Nesse próximo Carnaval, a Estação Primeira da Mangueira quer conversar com as 70 mil pessoas que lotam o Sambódromo da Marquês de Sapucaí todo começo de ano para contar “a história que História não conta.”

O samba-enredo que irá representar a escola no ano que vem, chamada “Música para Ninar Gente Grande”, não quer discutir os “heróis” que estão nos quadros, que viraram nomes de ruas e pontes. Pelo contrário, como contou ao Noisey o compositor da canção Deivid Domênico, a canção quer cantar a história dos verdadeiros responsáveis pela construção desse país; os heróis e heroínas de luta, os heróis e heroínas dos morros.

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Entre esses heróis, estão Marielle Franco, Dandara, Chico da Matilde, Leci Brandão e tantas outras figuras de histórica importância pela sua luta pela população oprimida do Brasil. O samba é tão cheio de referências a diferentes momentos da história do país que pedimos para Deivid explicar, verso por verso e estrofe por estrofe, o que exatamente ele queria dizer com cada construção da música. Ouça a faixa abaixo, e acompanhe com os depoimentos de Deivid sobre o samba:

“Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra”

Estamos querendo contar uma história do Brasil que não foi contada. A história do mesmo país, o avesso do mesmo lugar. Olhando pela ótica de quem perdeu a briga.

“Brasil, meu dengo
A mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento”

A primeira estrofe se completa na segunda. A Mangueira vai contar uma história que existiu, foi contada, aconteceu. Mas que o livro apagou quando não revelou. Desde 1500 não houve descobrimento, o que houve foi a conquista de um povo, uma terra invadida pelo europeu. Dessa época para cá, somos um país que vive de golpes e invasões. É uma história de muita reviravolta da elite sobre o povo nativo, local, pobre e oprimido, o que representa muito a questão da desigualdade. Não queríamos fazer um samba panfletário, então não queríamos falar dos golpes [políticos] que aconteceram no Brasil – até pra não dar alusão ao golpe de 2016 como golpe, porque o objetivo não era esse. Não era politizar o samba, mas esclarecer que, politicamente, vivemos de golpe em golpe.

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“Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato”

Os heróis que viraram nomes de rua, viraram quadros e estradas, viraram pontes e praças. Atrás deles, tem sangue de gente que lutou de verdade. De gente que sofreu, morreu pela liberdade e igualdade neste país. E é o sangue de mulheres, de tamoios, de mulatos. Existe um país de muita luta, muito maior do que o que está emoldurado.

“Brasil, o teu nome é Dandara
Tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati”

Dandara é uma mulher negra que lutou pela liberdade do povo negro contra a escravidão, ela era uma abolicionista, esposa de Zumbi dos Palmares. Depois falamos da Confederação dos Cariris, que lutou pela liberdade do Brasil, que lutou pela independência, que resistiu lá no Nordeste. E do Chico da Matilde, que é considerado o dragão do mar no Ceará. O Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes da Princesa Isabel. Ele fez uma greve no tráfico de escravos que existia no Ceará, e é da cidade de Aracati.

“Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”

“Quem foi de aço nos anos de chumbo” são os heróis que resistiram à ditadura militar, que não são lembrados. São muitos heróis, como Vladimir Herzog, Stuart Angel, o próprio Marighella, entre muitos outros. Os torturadores é quem são lembrados: viraram nome de rua, nome de ponte, nome de praça. São exaltados e não deveriam. Estamos falando de Maria Filipa, Luísa Mahin – mãe de Luís Gama, abolicionista –, Marielle Franco e das malês. Estamos falando de mulheres que lutaram por igualdade, por direito, mulheres abolicionistas. Mulheres da favela que foram silenciadas de alguma maneira por lutarem por liberdade, por direitos humanos.

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“Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasil que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa as multidões”

Os heróis de barracões são literalmente os heróis que constroem o carnaval e trabalham nos barracões. Que, com pouco dinheiro, com muita dificuldade, constroem o carnaval que vai para a Marquês de Sapucaí. E tem um duplo sentido, porque também são os heróis dos morros, das favelas, que são heróis anônimos que sobrevivem a toda a desigualdade e repressão no Brasil. Que sobrevivem na luta trabalhando com honestidade e dignidade.

Estamos falando que não existe só um Brasil, esse Brasil que está no retrato, esse Brasil que a história conta. Mas existem vários Brasis, um Brasil plural. Do povo pobre, do povo que de fato constrói esse país é que saem mulheres como Leci Brandão, que saem homens como Jamelão – negros que venceram todo o preconceito, as dificuldades, a desigualdade e a pobreza, e se tornaram grandes ícones do seu segmento. São esses Brasis que queremos exaltar, o Brasil plural. Eles contam a nossa história como se fosse a história de um povo pacato, que recebeu benesse das elites. Na verdade somos um povo de luta, que lutou pra vencer as desigualdades, o preconceito. Somos um país racista, machista, elitista, que tem uma cultura de idolatria à elite. Não queremos mais isso, queremos contar uma história diferente.


Assista ao nosso documentário "Marielle, Presente!"


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