Uma visita à última ditadura da Europa
Todas as fotos por Jo Turner
Viagens

Uma visita à última ditadura da Europa

A Bielorrússia só começou a aceitar turistas sem visto este ano. O Brasil é um dos 80 países que tem acordo com a nação comunista.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá .

No Aeroporto Nacional de Minsk na República da Bielorrússia, eles levam segurança de imigração muito a sério. Com exceção de Israel, nenhum outro país conferiu meu passaporte com tanto afinco. A jovem de cara amarrada num uniforme verde examinou o documento com uma lupa, passou luz UV por todas as páginas, conferiu todos os carimbos, checou a foto com o meu rosto lado a lado, e depois fez tudo de novo.

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"Onde está seu seguro de saúde?", ela perguntou roboticamente.

Entreguei a ela a carta da seguradora. Ela leu cada linha antes de decidir que não era aceitável. Ela falou pelo rádio com um colega, que apontou um bureau vendendo seguros de saúde perto da porta. Com o novo seguro em mãos, entrei na fila de novo, e passei por todo o processo mais uma vez.

Depois de passar pela Imigração, foi uma tarefa quase hercúlea encontrar um caixa automático funcionando ou uma casa de câmbio nos corredores desertos do aeroporto. Lá fora, fomos abordados por taxistas de todas as empresas menos daquela encarregada pelo governo de fornecer serviço de táxi.

Foi um mau começo para a Bielorrússia, mas não dá pra culpar os caras. Eles não estão acostumados com turistas, e só agora estão começando a tentar fornecer infraestrutura para isso. Foi só em 12 de fevereiro deste ano que eles começaram a permitir cidadãos de 80 países, Canadá e Brasil entre eles, entrassem no país sem visto.

Era um lugar que eu tinha que visitar. Depois de meses vagando pela Europa, a Bielorrússia prometia ser um mundo diferente do resto do continente. Muitas vezes chamada de "a última ditadura da Europa", a Bielorrússia é um ex-estado soviético entre a Rússia e a Polônia. Bielorrusso é uma língua que ninguém em Minsk parece falar — a maior parte do pessoal prefere o russo. Nove milhões e meio de pessoas moram aqui, num país menor do que muitos estados brasileiros.

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Como na maioria das ditaduras, o homem forte da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, não gosta muito de visitantes estrangeiros. Mas como a maioria das economias, a Bielorrússia aprecia o dinheiro estrangeiro que visitantes trazem. Por isso a decisão de permitir a entrada de turistas sem visto, mesmo que só em circunstâncias limitadas.

Além do aeroporto, há poucos sinais de que esse é o tipo de lugar que prende seus dissidentes, acaba com protestos pacíficos e censura a imprensa, apesar de fazer essas três coisas. Retratos de Lukashenko não estão em todas as paredes. Na estrada do aeroporto, há mais propagandas de cassinos que cartazes pedindo ordem pública. E tem muito mais soldados em Paris e Roma do que aqui em Minsk — os únicos que vimos estavam desarmados, pessoal fora de serviço reunido perto do Museu de Arte Nacional.

Nossa anfitriã do Airbnb, Svetlana (não seu nome verdadeiro, porque não quero que ela arranje encrenca por colaborar com um jornalista), era uma babuska maravilhosa que nos preparava panquecas russas chamadas blinis toda manhã, nos entupia de geleia de maçã caseira e era muito amada por seus dois gatos, um deles desesperadamente no cio.

"Ela precisa de um homem", disse Svetlana. "Ela sabe que você é um homem bom, então está fazendo muito barulho." Lá estava eu, na última ditadura da Europa, com uma senhorinha querendo que eu transasse com a gata dela.

Oi, socialismo. Foto por Jo Turner.

O período de estadia de apenas cinco dias deixou pouco tempo para visitar outros lugares além de Minsk sem carro, e como minha carteira de motorista tinha vencido e eu não podia pagar por um guia, fiquei só na cidade mesmo. Sei que isso pode dar uma visão limitada do país — você não vai passar cinco dias em Toronto e dizer "Eu vi o Canadá, cara. E só tem gente babaca". Mas o Canadá geralmente dá aos turistas três meses de visto para viajar de costa a costa.

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Então não posso falar do resto do país, mas Minsk é incrível. O lado velho, ou "cidade alta", não tem muita coisa, abrigando uma prefeitura reformada, algumas igrejas e alguns restaurantes caros para turistas. Mas é a cidade ao redor disso que faz a viagem valer a pena.

A maior parte da cidade foi devastada na Segunda Guerra Mundial e reconstruída sob especificações soviéticas. Prédios governamentais enormes, ocupando quarteirões inteiros da cidade, são a visão mais comum. Longe de serem as monstruosidades de concreto da imaginação ocidental, a maioria deles são prédios altos e inspirados. Mas você vai ter que imaginá-los, porque tirar fotos dos prédios do governo é um jeito rápido de ser preso aqui. Grandes praças de mármore se espalham pelo centro — na Praça Lenin você pode ver uma estátua do próprio Vladimir Ilyich, liderando os trabalhadores para a revolução.

Viajando para ex-estados soviéticos, você encontra reações diferentes à dissolução do antigamente poderosos Império Soviético. Alguns sentem saudades (a Rússia), outros são ambivalentes (Moldávia e Cazaquistão), e alguns estão muito felizes que isso acabou (Estônia, Letônia, Lituânia).

Ainda assim, a Bielorrússia nos faz pensar que a URSS nunca acabou. A bandeira é diferente, mas muito do resto continua igual. A polícia secreta, que tem um quartel na praspiekt Niezalienznasci perto do apartamento de Svetlana, ainda se chama KGB. A estação de metrô Oktyabrskaya está cheia de mosaicos celebrando o socialismo. No Minsk Bolshoi, onde assistimos a uma apresentação do balé Giselle de Adolphe Adam pelo equivalente a 10 euros [cerca de R$ 40], os dançarinos eram enquadrados por martelos e foices com filogramas dourados. Servidores públicos ainda vestem uniformes verdes, incluindo os enormes quepes que os generais russos usam naqueles filmes sobre a Guerra Fria. Sempre achei que Hollywood exagerava nisso. Mas não.

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Isso não impediu o McDonald's, a H&M, a Coca-Cola e outros templos do capitalismo montassem suas lojas na cidade. Ainda que elas pareçam invisíveis atrás das fachadas de realismo socialista.

E onde há celebração da União Soviética, há nostalgia da Segunda Guerra Mundial, ou "a Grande Guerra Patriótica", como ela é mais conhecida por aqui. Exceto pela Polônia, nenhum país foi tão assolado pela guerra quanto os países soviéticos, e a Bielorrússia, localizada no extremo oeste soviético, levou a pior. O país perdeu um terço de sua população, incluindo 800 mil judeus. Maly Trostenets, 12 quilômetros a leste de Minsk, era o quarto pior campo de concentração nazista, depois de Aushwitz, Majdanek e Treblinka.

Memorial de guerra feito do jeito certo. Foto por Jo Turner.

Memoriais da guerra estão por todo lado, e o Museu da Grande Guerra Patriótica é seu monumento supremo. Abrigado numa enorme cúpula de vidro, com uma bandeira soviética balançando no topo, esse é o maior museu de guerra que já visitei. A maioria dos museus só poderia sonhar em ter um quarto de sua coleção. De tanques, armas e aviões — tanto alemães como soviéticos — até medalhas, uniformes e fotografias, o lugar tem três andares de choque e admiração mumificados.

Claro, é propaganda — as repúblicas do Báltico foram invadidas e ocupadas, não "incorporadas" à URSS, como as placas explicativas querem que a gente acredite. Mas quando a máquina assassina nazista mata um terço do seu povo e incinera seu país, você tende a ver as coisas sob uma certa lente. Na loja de suvenires na saída, você pode comprar canecas, flasks e copos com o rosto de Joseph Stalin e o logo da CCCP, tudo a partir de US$2 [cerca de R$ 6].

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E isso não se confina apenas ao museu, ou monumentos antigos. Passando pela Praça da Vitória, vi um desfile de soldados em formação em colunas de 38 metros, com a estrela vermelha no topo. Chegando mais perto, percebi que não eram soldados, mas estudantes, vestindo uniformes verdes que pareciam militares — talvez eles fossem cadetes. Não consegui uma explicação clara em inglês de ninguém — o nível de inglês, mesmo nos centros turísticos, é mínimo, e sendo justo, eu também não falo nenhuma das línguas deles — mas "guerra" era uma palavra que eles conheciam, e mencionavam toda hora. Não era, pelo menos pelo que Svetlana me disse, um feriado nacional ou comemoração militar de qualquer tipo. Só uma cerimônia regular, num dia como qualquer outro.

Dito isso, as pessoas em Minsk sabem se divertir. A Bielorrússia é ranqueada pela Organização Mundial de Saúde como o país que mais bebe no mundo. Os bielorrussos consomem impressionantes 17,5 litros de puro álcool por ano. O governo contesta esse número. Vodca e conhaque são servidos em todo lugar, e os bares estão lotados de gente bebendo cerveja e vinho. Mas cair de bêbado não é muito comum — mesmo quando estão enchendo a cara, os bielorrussos tomam cuidado.

No sábado, no Palácio das Artes — não um palácio, mas um pequeno centro de convenções — muito álcool estava sendo consumido num evento da Recast Moto. Não sei direito o que Recast Moto significa, mas aparentemente envolve muitas motocicletas vintage.

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Conheci uma mulher chamada Claudia Liebenberg, uma artista sul-africana que faz aquarelas de motos, que tinha vindo da Cidade do Cabo especialmente para o evento. Ela me disse que era um alívio poder conversar em frases inteiras de novo.

No andar de baixo, eles tinham várias esculturas steampunk de animais feitos com peças enferrujadas. Tinha um monte de crianças lá e elas pareciam gostar muito dessas obras. Elas também gostavam da banda que tocava lá fora — famílias estavam dançando juntas ao som de bandas rockabilly e alternativas tocando ao vivo, num pátio cercado de carrinhos de comida e cerveja.

Do outro lado do rio, passando pela estação de trem Oktyabrskaya e atrás da Praça Lenin, fica o Doodah King, um bar de rock que o Google Maps tinha prometido que era bom. O lugar era apropriadamente sujo, esfumaçado e fedido, e apesar da lista de coquetéis em inglês e cartazes com piadas — "Cerveja morna! Comida ruim! Serviço péssimo!" — eles só falavam bielorrusso e russo, como o resto do país.

Cerveja morna! Comida ruim! Serviço péssimo! Foto por Jo Turner.

Naquela noite assisti duas bandas, e as duas tocavam um pop punk à la Green Day, incluindo vários covers, tudo cantado em inglês. Não pensei muito nisso, mas entendo como tocar esse tipo de música aqui deve parecer uma puta rebeldia para esses moleques.

Na segunda-feira, nosso taxista cobrou o preço do taxímetro em vez da taxa fixa para o aeroporto, mas não estávamos em posição de reclamar. Na saída, a Imigração não tinha fila, mas novamente passamos cinco minutos vendo uma jovem examinar cada página do meu passaporte, iluminar metade delas com UV e verificar os carimbos como se estivesse escolhendo diamantes. Entendo por que eles estavam nervosos em nos deixar entrar, mas achei que estariam felizes em nos ver pelas costas.

Na esteira para nosso voo da Air Baltic em Riga, conhecemos uma jovem da Dinamarca que estava visivelmente perturbada. "Ultrapassei meus cinco dias de estadia", ela disse, tomando nervosamente sua água. Ela tinha achado que os cinco dias começavam a partir do pouso, e não incluiu os dias em que você pega o voo de ida e de volta. Eles a levaram para uma salinha nos fundos, fizeram um monte de perguntas, revistaram suas malas, e ela levou uma multa. Quando perguntei de quanto era a multa, ela disse que não sabia — ela achava que enviariam a conta para ela.

Fiquei imaginando se ela vai pagar mesmo. Eu não pagaria nem fodendo — quando você é uma pária isolada da comunidade internacional, você não tem muita base para obrigar as pessoas a pagar multas do exterior. O único jeito de te pegarem é se você voltar. O que eu ficaria feliz em fazer, mas só se eles me derem mais tempo, para não ter que me preocupar em conhecer uma cela da Imigração bielorrussa.

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