The Creators Project

Todo mundo se sente bem no museu que exibe os maiores fiascos da história

Na Suécia é possível ver o lado bom das cagadas monumentais.
30.6.17
Lasanha de carne da Colgate. Todas as imagens são cortesia do Museu do Fracasso

Às vezes, ideias de jerico podem até soar interessantes no papel. Mas, convenhamos, algumas estão fadadas ao fracasso desde sua concepção. A latinha de Coca-Cola com sabor de Pepsi, por exemplo, ou o perfume Harley Davidson, para dar aquele cheirinho de motoqueiro. Que tal uma máscara facial elétrica? Alguém interessado?

O Museu do Fracasso, que abriu as portas na cidade de Helsingborg, na Suécia, no início do mês, não trata apenas de projetos que morrem na praia. A proposta é encarar esses "fracassos colossais" de frente e aprender com eles. Estamos cansados de saber que a perfeição exige prática, apesar das histórias deslumbrantes de sucesso compartilhadas todo santo dia nas redes. São exatamente essas histórias que Samuel West, pesquisador focado em criatividade do Departamento de Psicologia da Universidade Lund e curador do museu, estava cansado de ouvir quando resolveu colecionar itens que não entraram para a lista das inovações mais bem-sucedidas da história. Afinal, muitos projetos inovadores vão por água abaixo, e só quando os investidores aprendem com os erros é que o fracasso se transforma em sucesso.

Samuel West, curador do museu, com a máscara facial elétrica Rejuvenique. Créditos: Sophie Lindberg

Capa do manual do proprietário. Créditos: Sophie Lindberg

Newton, o palmtop da Apple. Créditos: Sofie Lindberg

Com a curadoria da exibição, West incita os visitantes a ver o fracasso como parte essencial da inovação, e não como um constrangimento. Segundo ele, em vez de abraçar o fracasso e aprender com ele, muitas empresas dão de ombros, fingem que nada aconteceu.

A Colgate, por exemplo, parece não se lembrar da linha de jantares congelados lançada nos anos oitenta. E sejamos sinceros, essa lasanha congelada não parece lá muito apetitosa, nem mesmo para os anos oitenta. Contudo, inovações podem dar errado por diversos motivos, seja um design ruim ou uma propaganda grosseira. O Nokia's N-Gage, um cruzamento entre celular e videogame portátil, poderia muito bem ter sido o precursor do smartphone, mas o consumidor simplesmente não comprou o formato meia-lua, da mesma forma que a Bic errou a mão com as canetas exclusivas para mulheres.

No entanto, alguns fiascos abriram caminho para inovações de fato revolucionárias, como o Apple Newton, que já caiu em esquecimento. A função de reconhecimento de caligrafia do palmtop foi um fiasco, mas o produto conduziu a empresa à criação do iPod e do iPhone, dois instrumentos que mudaram para sempre a forma como nos comunicamos. West explicou para a Creators que são fracassos como esse que nos oferecem os melhores aprendizados. Perguntamos se talvez esses produtos não estivessem muito à frente de seu tempo, ao que West respondeu: "avaliaram mal o mercado, ou a usabilidade do produto na época". E ainda acrescentou: "Estar à frente do tempo é uma forma de fracasso caso a empresa não aprenda com a lacuna e não continue a desenvolver o produto."

O museu de West tem a clara intenção de ensinar indivíduos e empresas a abraçarem seus erros como motores de inovação e serem transparentes sobre eles. "As empresas precisam descer do pedestal. Os gestores de marca precisam relaxar um pouco. Fiascos humanizam empresas e marcas. Não julgamos indivíduos (e marcas) por seus fracassos, mas detestamos quando não assumem a culpa."

É um alento perceber que nem todas as grandes ideias viram estouro. Ainda que um pouquinho de schadenfreude seja permitido, o mais importante é observar essas ideias em relação aos nossos próprios fracassos para então aprender a transformá-los em sucesso — diretriz que o criador do jogo de tabuleiro do Trump (cuja caixa estampa em letras garrafais: "Estou de volta! Você está demitido!") provavelmente seguiu.

O jogo do Trump. Créditos: Sofie Lindberg

O Museu do Fracasso abriu dia 7 de junho em Helsingborg, na Suécia, e sediará uma série de eventos fadados à ruína, como degustações malsucedidas, shows de bandas falidas e "bate-papos de foder".

O museu montará exibições temporárias em Nova York e no museu Art Basel, em Miami, ainda este ano. Saiba mais sobre a mostra completa aqui.