Entretenimento

Quatro questões sobre os gajos que fizeram uns riscos de coca no voo da Ryanair

É real? Provavelmente não. É um bom vídeo? Sem dúvida.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
Captura de ecrã.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Estamos em 2018 e eu não acredito em nada. Na-da. Antes acreditava em coisas, mas agora já não. Vejo videos na Internet com o mesmo cepticismo com o que os ateus do Youtube falam sobre Deus. Antes podias tocar nas coisas, cheirá-las, vê-las com os teus próprios olhos e acreditar. Agora, aparece um vídeo viral a cada dois segundos e nunca sei em qual acreditar.

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O que quero dizer com isto é: acredito mesmo que estes gajos estão a preparar umas linhas enormes de cocaína, em pleno voo, num avião da Ryanair? Não. Mas, também não não acredito. Dá para ver como a coca (ou o seu substituto) deixa aquele resíduo característico que a cocaína deixa. O gajo da direita parece ter uma verdadeira subida de adrenalina e o seu risinho nervoso quando o hospedeiro se aproxima não parece fingido.

Para além disso, não nos podemos esquecer que estamos a falar da Ryanair. Há suficientes provas que sugerem que este vídeo é real. No entanto, por outro lado, é impossível ser. Vêem o que acontece quando és um céptico em 2018? Tudo é uma confusão.

Continuemos em frente com a teoria de que o vídeo não é real, mas podia ser, ainda que provavelmente não seja, mas sabe-se lá. Partindo desta base já de si instável, sou assaltado por várias questões:

IMAGINAS ESTARES SENTADO ATRÁS DELES?

O encanto da Ryanair é a sua capacidade para nos tornar todos iguais (o horror da Ryanair é tudo o resto). Como muitas outras companhias aéreas low cost, a Ryanair oferece voos baratos para destinos semi-perto e soalheiros, pelo que atrai uma grande quantidade de despedidas de solteiros e solteiras, adolescentes dispostos a embarcar nas suas primeiras férias longe dos pais e gajos enormes de manga à cava, capazes de consumir uma surpreendente quantidade de MD sem chegarem a morrer; mas, também atrai famílias que se vestem para ir apanhar o avião como se fossem para a missa, ou casais discretos de blusão de ganga a condizer e que passam o voo a ler; ou mães de meia idade, mais habituadas a voar na TAP e que não percebem porque é que não podem colocar a mala no compartimento exactamente acima do seu assento e passam as 2 horas e 50 minutos de voo paranóicas de que alguém, a quilómetros e distância do solo, lhes roube a carteira, cheia de lenços e canetas.

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Uma vez, num voo da Ryanair em que eu estava, estava também um futebolista da Premier League - ou seja, um tipo cuja conta bancária é o oposto da minha, mas ali estávamos os dois, a voar para Ibiza com os joelhos a bater na cadeira da frente, juntos, como iguais. Há qualquer coisa de fascinante nestas fendas e espaços (agora raros) nos quais a sociedade se equipara: bares, restaurantes de fast food, voos da Ryanair… Onde qualquer diferença de classes deixa de existir. O teu poder de compra não significa absolutamente nada a 10 mil metros de altura. A tua formação, a tua educação, os teus privilégios, nada importa: continuas a não poder usar o telemóvel, a não ter espaço para as pernas e a não ter um ecrã onde possas ver um mísero filme.

Mas, eu gosto de imaginar que, sentado atrás destes dois gajos - que estão a preparar uns traços, ou seja lá o que for que estão a fazer com tanto vigor e entusiasmo que a sua brincadeira se torna num buraco gravitacional no avião, atraindo todos os olhares e atenção -, está alguém que vai a Marbella ver o avô, a tentar concentrar-se na sua leitura de Eleanor Oliphant, com uma echarpe de linho ao pescoço.

O ASSISTENTE DE BORDO ESTÁ A SER UM MAL-EDUCADO?

Sim. Desculpem, mas as normas de etiqueta exigem que, a não ser que estejas em reabilitação, quando te oferecem um cheiro com tanta alegria, tens que aceitar. Desculpem, mas são as regras! É-me indiferente que o assistente de bordo estivesse ocupado a servir uns vodkas a passageiros já embriagados (bom) e a ignorar uma actividade potencialmente ilegal a acontecer durante o voo (também é bom). O que me preocupa é a má educação. Dá esse cheiro, pá!

O VÍDEO É FALSO? SUB-PREGUNTA: ISSO IMPORTA?

O que me faz acreditar que é falso é o meu desdém diário pelas coisas verdadeiras. O que me faz acreditar que é real é tudo o resto. Pode-se passar com drogas pelo controlo de segurança de um aeroporto? A verdade é que sim: eles fazem-nos tirar os sapatos e esvaziar a garrafa de água, mas nunca verificam se levas um saco de coca colado entre o ânus e os tomates. É possível esticar três linhas enormes em pleno voo e cheirá-las sem ninguém dizer nada? Mais uma vez, sim: trata-se de um voo da Ryanair, em que, só por si, já há uma barulheira pegada. Aqui as normas sociais não se aplicam.

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Depois há estes pequenos indícios: o resíduo de que falei antes, essa palpável emoção masculina de nervosismo mal dissimulado com atrevimento, a tentativa de guardar segredo à vista de todos. Se alguma vez fores dar um cheiro num avião, será ou num avião privado, ou num da Ryanair. Não há meio termo. O que torna este vídeo credível é o facto de já todos termos estado num voo assim e todos pensámos, para dentro, que se tivéssemos a coragem de o fazer, estes dois rapazes podíamos ser nós.

FALEMOS UM MOMENTO SOBRE A QUALIDADE E GROSSURA DESTAS LINHAS

Acho que o principal indício de que este "cheiro aéreo" é real é a maneira como cortaram as linhas do que a imprensa costuma qualificar de "pó branco não identificado" e que os comentários mais cínicos ao tweet do vídeo chamaram de "natas para café, cortadas como só um idiota poderia cortar". É que, francamente, são horríveis. Têm a grossura e a longitude de uma posta de peixe frito e a consistência de vidro partido misturado com areia.

Ao ver essa monstruosidade vêm-me à cabeça memórias das vezes que fiquei acordado até às tantas da manhã quando não devia, na cozinha de alguém que não conhecia, debaixo da luz inclemente de umas lâmpadas de halogéneo. O que estes riscos estão a dizer é "importas-te que fume aqui dentro?" a um condutor de Uber. Estes riscos vão aparecer-te em casa daqui a umas semanas a perguntar se te lembras deles e se se podem instalar durante uns tempos. Estes riscos arrancou uma retrete da parede. Estes riscos vêm ter contigo numa festa, com os olhos muito abertos e sussurram-te ao ouvido uma só palavra: CORRE!


@joelgolby

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